



O Adversrio Secreto

Agatha Christie

Traduo de ISAAC SOARES

Titulo da edio original inglesa
THE SECRET ADVERSARY







A TODOS OS QUE LEVAM UMA
VIDA MONTONA, COM VOTOS DE que POSSAM EXPERIMENTAR,
EMBORA EM SEGUNDA MO,
OS ENCANTOS E OS PERIGOS DA
AVENTURA.





PRLOGO
Eram duas horas da tarde do dia 7 de Maio de 1915. Atingido por dois torpedos consecutivos, o
Lusitnia afundava-se rapidamente, enquanto arriavam os escaleres, com a maior prestreza possvel.
Em fila, as mulheres e crianas aguardavam a sua vez. Algumas ainda se agarravam, em desespero,
aos maridos e aos pais; outras estreitavam os filhos contra o peito. Uma jovem estava sozinha, um
pouco afastada dos outros. Muito jovem, no teria mais de dezoito anos. No aparentava temor e os
seus olhos eram graves e resolutos.
Desculpe...
A jovem voltou-se, sobressaltada por ouvir uma voz masculina a seu lado. Vira aquele homem mais
de uma vez entre os passageiros da primeira classe. Rodeava-o uma aura de mistrio. No falava
com ningum. Se algum falava com ele, dava-se pressa em recusar o tcito convite para a
conversa. E tinha tambm um modo nervoso de espreitar por cima do ombro, com um olhar rpido
e desconfiado.
A jovem percebeu que ele agora se encontrava muito agitado. Pingos de suor brotavam-lhe da
fronte. Estava, sem dvida, tomado de pnico avassalador. No entanto, a jovem no o julgaria o tipo
de homem capaz de temer o encontro com a morte.
Que h? Os olhos graves da rapariga fixaram, inquiridores, os do homem.
Ele ficou a contempl-la, numa espcie de indeciso desesperada.
Tem de ser!murmurou de si para consigo. Sim...  a nica forma. Alterou a voz e perguntou
abruptamente: A senhora  americana?
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Sou.
E  patriota? Ela corou.
Acho que no tem o direito de me perguntar uma coisa dessas! Claro que sou!
No se zangue. No o faria se soubesse como  srio o assunto que est em jogo. Mas sou forado
a confiar em algum... e esse algum tem de ser uma mulher.
Porqu ?
Porque primeiro as mulheres e crianas. Relanceou um olhar em torno de si e baixou a voz:
Trago comigo uns papis, documentos de importncia vital. Podem ter um significado decisivo
para os aliados, na guerra. Compreende? Estes papis tm de ser salvos! H maiores probabilidades
com a senhora do que comigo. Quer lev-los?
A jovem estendeu a mo.
Espere... Devo preveni-la. Pode haver perigo, caso me tenham seguido. Acho que no, mas
nunca se pode ter a certeza. Se me seguiram, a misso ser arriscada. Ter a necessria fibra para a
levar a cabo?
A rapariga sorriu.
No tenha dvidas. Sinto-me verdadeiramente orgulhosa por ter sido eu a escolhida. Que devo fazer
com os documentos ?
Fique atenta aos jornais. Publicarei um anncio na coluna de avisos do Times sob o ttulo
Companheiro de viagem. Se no sair no prazo de trs dias... bem, ento  sinal que fui posto fora
de combate. Nesse caso, leve o pacote  embaixada americana e entregue-o ao embaixador.
compreendido ?
Perfeitamente.
Ento, adeus.Apertou na sua a mo da jovem. Adeus! Felicidades! disse em voz mais forte.
A mo da rapariga comprimiu o pacote de oleado que ele lhe confiara.
O Lusitnia afundava-se, inclinado para estibordo. Obedecendo a uma ordem breve a jovem
avanou afim de ocupar o seu lugar no escaler.
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I - A EMPRESA JOVENS AVENTUREIROS, LDA.
Tommy!
Tuppence!
Os dois jovens cumprimentaram-se com efuso e, por instantes, interromperam o trnsito  sada da
estao de Dover Street.
H sculos que a no vejoprosseguiu o rapaz.
Aonde vai? Venha saborear um caf. Estamos a atrapalhar a passagem. Vamos embora.
A jovem concordou. Principiaram a descer Dover Street, em direco a Piccadilly.
Agora, vejamos disse Tommy. Aonde iremos?
A vaga ansiedade que transparecia na sua voz no escapou ao ouvido subtil de Miss Prudence
Cowley, conhecida na intimidade, por alguma razo misteriosa, como Tuppence. Percebeu logo:
Tommy, voc est pronto!
Nada disso declarou Tommy, sem muita convico.
Ando a nadar em dinheiro.
Voc foi sempre um horrvel mentiroso replicou Tuppence com severidade apesar de que, em certa
ocasio, convenceu a Irm Greenbank de que o mdico lhe prescrevera cerveja como tnico. No se
recorda?
Tommy deu uma risadinha abafada.
Creio que sim. Excelente hospital... Sem dvida, foi desmobilizado, como tudo mais?
Tuppence suspirou.
Sim. Voc tambm?
Tommy inclinou a cabea afirmativamente. H dois meses.
E a gratificao?lembrou Tuppence. J a gastei.
-Oh, Tommy!
No, minha querida, no foi em dissipaes libertinas! O custo da vida...
Ora, meu caro interrompeu Tuppence nada h que eu no saiba a respeito do custo da vida. Eis-nos
aqui no Lyons e cada um pagar a sua parte. Est combinado! E Tuppence comeou a subir as
escadas.
A sala estava repleta e ambos vaguearam a esmo  procura de uma mesa, escutando fragmentos de
conversas. (E, imagine, sentou-se e chorou quando eu disse que ela no conseguiria o apartamento
de forma alguma. Verdadeira pechincha, minha filha! Igualzinho quele que a Mabel Lewis
trouxe de Paris...).
Coisas engraadas que a gente ouve sem querer! murmurou Tommy. Passei hoje na rua por dois
sujeitos que palestravam a respeito de uma pessoa chamada Jane Finn. Voc j ouviu falar nesse
nome ?
Nesse momento, duas senhoras idosas levantavam-se e recolhiam os seus embrulhos, e Tuppence
destramente ocupou uma das cadeiras vagas.
Tommy encomendou ch e brioches. Tuppence pediu ch e torradas com manteiga.
E no se esquea de trazer o ch em bules separados acrescentou a rapariga energicamente.
Tommy sentou-se diante dela. com a cabea descoberta, o rapaz punha  mostra os cabelos
vermelhos e bastos, alisados para trs de uma forma esquisita. O rosto era de uma fealdade
simpticafeies bizarras mas que revelavam, sem possibilidade de equvoco, um gentleman e um
desportista. Envergava um fato castanho bem talhado, mas ameaando perigosamente ficar no fio.
Ali sentados, formavam ambos um par de aspecto moderno. Tuppence no alimentava pretenses 
beleza, mas o seu
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pequenino rosto de garoto possua individualidade e encanto, com um queixo largo e voluntarioso,
olhos cinzentos e bem separados um do outro, sob as sobrancelhas negras e rectas. Usava um
chapeuzinho de aba curta, verde e lustroso, sobre os negros cabelos; e uma saia bastante curta e um
tanto sovada que deixava ver um par de tornozelos delicados como poucos. O seu aspecto denotava
um valoroso esforo para se fazer elegante.
Veio o ch, por fim, e Tuppence, despertando de uma abstraco meditativa, deitou-o na chvena.
Agora disse Tommy, pegando num bom pedao de brioche coloquemo-nos em dia um com o outro.
Lembre-se de que eu no a vejo desde aquela ocasio no hospital, em 1916.
Muito bem. Tuppence serviu-se da torrada com manteiga.
Resumo biogrfico de Miss Prudence Cowley, a quinta filha do arcediago Cowley, de Little
Missendell, Suffolk. Miss Cowley abandonou os encantos (e a lufa-lufa) da vida domstica no
comeo da guerra e veio para Londres, onde se empregou num hospital para oficiais. Primeiro ms:
lavou seiscentos e quarenta e oito pratos por dia. Segundo ms: promovida para limpar os
supraditos pratos. Terceiro ms: promovida para descascar batatas. Quarto ms: promovida para
cortar o po em fatias e barr-las de manteiga. Quinto ms: promovida para o andar de cima com os
deveres de criada da enfermaria, munida de esfrego e balde. Sexto ms: promovida para servir 
mesa. Stimo ms: a sua simpatia pessoal e correco de maneiras tornam-se to notrias que ganha
a promoo para servir as Irms! Oitavo ms: ligeira marcha atrs na carreira. A irm Bond comeu
o ovo preparado para a irm Westhaven! Vasto escarcu! A culpabilidade da criada da enfermaria 
evidente. Toda a repreenso  pouca num caso de negligncia em assuntos de tamanha importncia.
Esfrego e balde outra vez! Como caem os fortes! Nono ms: promovida para varrer a enfermaria,
onde encontra um amigo de infncia na pessoa do tenente Thomas Beresford (incline-se, Tommy!),
o qual no via h cinco longos anos. O encontro foi afectuoso! Dcimo ms: repreendida pela
superiora por ir
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ao cinema em companhia de um dos doentes, isto , o supramencionado tenente Thomas Beresford.
Undcimo e duodcimo meses: reintegrao nos deveres de criada de sala, com xito integral. No
fim do ano deixa o hospital ,tocada de um resplendor de glria. A seguir, a inteligente Miss Cowley,
sucessivamente, guiou um carro para entrega de mercadorias, um caminho e um general. O ltimo
foi o mais agradvel. Era um general muito novo!
Quem era esse ferido de guerra?indagou Tommy.
Esqueci-me do nome dele confessou Tuppence. Voltando ao assunto, esse perodo foi, de certo
modo, o pice da minha carreira. Depois, ingressei numa repartio do governo. Participmos de
inmeros chs sociais, sumamente agradveis. Eu pretendia fechar o ciclo da minha carreira,
tornando-me condutora de autocarro mas sobreveio o Armistcio! Grudei-me  repartio
como um molusco, porm, acabei por ser dispensada. Desde ento, procuro emprego. A tem. Agora
 a sua vez.
Na minha histria no h tantas promoesdisse Tommy, com pesare muito menos variedade.
Regressei  Frana, como voc sabe. Mandaram-me depois  Mesopotamia, fui ferido pela segunda
vez e hospitalizado l mesmo. A seguir, estagiei no Egipto, at que ocorreu o Armistcio; fiquei por
l mais algum tempo e, para concluir, como lhe disse, fui desmobilizado. E durante dez longos e
fatigantes meses tenho andado  cata de emprego! No h empregos de espcie alguma! E mesmo
que houvesse no seriam para mim. Que valho eu? Que entendo eu de negcios? Nada.
Tuppence meneou a cabea melancolicamente.
E com referncia s colnias? Tommy sacudiu a cabea.
Penso que no gostaria das colniase tenho a absoluta certeza de que elas tampouco gostariam de
mim.
E parentes ricos?
De novo, Tommy sacudiu a cabea.
Oh, Tommy, nem mesmo uma tia-av?
Tenho um tio que era mais ou menos rico, mas no serve.
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Porqu?
Uma vez ele quis adoptar-me. Recusei. Acho que sei qualquer coisa a esse respeito explicou
Tuppence devagar. Voc recusou por causa de sua me... Tommy corou.
Sim, teria sido um desgosto para a mam. Como sabe, eu era tudo o que ela possua. O velhote
odiava-a, queria separar-me dela. Apenas uma questo de despeito.
Sua me faleceu, no ? indagou Tuppence, suavemente Tommy fez que sim, com um gesto.
Os grandes olhos cinzentos de Tuppence pareciam nublados.
Voc  um bom rapaz, Tommy. Nunca me enganei.
Ora!fez Tommy, com impacincia. Bem, esta  a minha situao. Sinto-me meio-doido.
E eu tambm. J resisti o mais que pude. Bati a muitas portas. Respondi a anncios. Tentei toda a
sorte de expedientes. Poupei, economizei, comprimi. De nada valeu. Vou regressar  casa
paterna.
E voc quer voltar?
Est visto que no quero! Que adianta ser sentimental ? Meu pai  muito bom quero-lhe muito mas
voc no faz ideia de quanto sou incmoda para ele. com as suas ideias antiquadas entende que 
uma imoralidade usar saia curta e fumar. Voc pode imaginar que pedra no sapato eu represento
para ele. Suspirou de alvio quando a guerra me trouxe para c. Voc compreende, somos sete em
casa.  um inferno! Todo o servio domstico e as reunies da mam! No, no quero voltar, mas...
oh, Tommy, que outra coisa posso fazer?
Tommy meneou a cabea, condodo. Seguiu-se uma pausa, e depois Tuppence explodiu:
Dinheiro, dinheiro, dinheiro! Penso em dinheiro de manh, de tarde e de noite! Chego a
acreditar que  esprito mercenrio da minha parte, mas a verdade  esta...
O mesmo ocorre comigo conveio Tommy, com pesar.
Parafusei em todas as maneiras imaginveis de conseguir dinheirocontinuou Tuppence. S h
trs: herdando,
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casando ou ganhando. A primeira, exclui-se por si mesma. No tenho parentes ricos e velhos. Se
tenho algumas parentas, esto recolhidas a asilos para fidalgas arruinadas. Ajudo sempre as
senhoras idosas a atravessar as ruas e apanho pacotes para os respeitveis ancios que os deixam
cair, na esperana de que algum deles seja um milionrio excntrico. Mas ainda no aconteceu que
algum perguntasse o meu nome e a maioria nem sequer disse muito obrigado. Houve uma pausa.
 claro prosseguiu Tuppence que o casamento  a minha melhor oportunidade. Fiz planos de casar
por dinheiro quando muito jovem. O mesmo acontece com qualquer garota que pense! No
sou sentimental, voc sabe. Silncio.
Fale, voc no pode dizer que sou sentimental acrescentou vivamente.
 claro disse Tommy, impaciente. Ningum seria capaz de, mentalmente, associar o sentimento 
sua imagem.
No  muita cortesia da sua parte replicou Tuppence.
Mas reconheo que falou com acerto. Bem,  isso! Estou pronta e decidida mas nunca encontrei um
ricao. Todos os rapazes que conheo so mais ou menos to pobretes como eu!
E o tal general ? indagou Tommy.
Creio que  dono de uma casa de bicicletas em tempo de paz explicou Tuppence. Negativo, a est!
Voc  que poderia casar com uma jovem de dinheiro.
S confio em voc. No conheo nenhuma.
No importa. Pode vir a conhecer. Eu, se vejo um homem de casaca sair do Ritz, no posso correr
para ele e dizer: Olhe, o senhor  rico. Eu gostaria de o conhecer.
Sugere que eu proceda assim em relao a uma mulher enfiada num casaco de peles?
No seja ingnuo. Voc segue-lhe os passos, apanha o leno dela ou qualquer coisa semelhante. Se
ela percebe que voc quer travar relaes, ficar lisonjeada e tratar de facilitar as coisas.
Voc superestima os meus encantos masculinos murmurou Tommy.
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Por outro lado prosseguiu Tuppence o meu milionrio, em tais circunstncias, pr-se-ia em fuga
desabalada. No, o casamento acarreta muitas dificuldades. Resta: ganhar dinheiro.
Foi o que tentmos fazer, e fracassmos recordou Tommy.
Tentmos utilizando mtodos ortodoxos, admito. Mas suponhamos a adopo de outros mtodos.
Tommy, tornemo-nos aventureiros!
Aceito replicou Tommy, alegremente. Como principiaremos ?
A  que est a dificuldade. Se pudssemos conseguir alguma celebridade, no faltariam pessoas
que nos contratassem para praticar crimes em lugar delas.
ptimo!exclamou Tommy. Especialmente pelo facto de a ideia partir da filha de um sacerdote...
A culpabilidade moral seria dos clientes, no nossa. Voc ter de convir que h diferena entre
roubar um colar de diamantes para si mesmo e ser contratado para o roubar.
No haveria a mnima diferena se voc ao roubar fosse presa.
Talvez. Mas eu no seria presa. Sou muito esperta.
A modstia sempre constituiu o seu maior pecado observou Tommy.
No me recrimine. Olhe, Tommy, vamos trabalhar de verdade? Vamos formar uma sociedade
comercial?
Fundar uma empresa para explorao de roubos de colares de diamantes?
Isso foi apenas um exemplo. Deixe ver... Que entende voc de contabilidade?
Nada. Disso nunca entendi patavina.
Eu j pratiquei, um pouco... Mas fazia sempre os lanamentos do haver na coluna do deve e
vice-versa... O resultado  que me puseram no olho da rua. Oh, esplndido! Companheiros de
faanhas! Soa ao meu ouvido como uma frase romntica a vibrar por entre bolorentos vultos da
antiguidade. Companheiros de faanhas!
15 - VAMP. G. 1
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Entrar na praa sob a denominao de Jovens Aventureiros, Lda.?  essa a sua ideia, Tuppence?
 motivo bastante para risos, mas pressinto que a ideia pode conter algo de aproveitvel.
Como pretende entrar em contacto com os provveis clientes ?
Por meio de anncios na Imprensa replicou Tuppence prontamente. Voc tem a um pedao de
papel e um lpis ? Parece-me que os homens andam sempre munidos desses objectos. Tal
como ns carregamos ganchos e borlas de p de arroz.
Tommy passou  rapariga uma caderneta de apontamentos, com uma surrada capa verde, e
Tuppence principiou a escrever diligentemente.
Vejamos o comeo: Jovem oficial, duas vezes ferido na guerra...
Nada disso.
Est bem, meu caro amigo. Mas afiano que assim poderamos comover o corao de alguma
solteirona decrpita que se resolvesse a perfilh-lo. E voc no teria necessidade de se converter em
jovem aventureiro.
no quero ser perfilhado.
- Oh, esqueci-me de que voc tem preconceitos a esse respeito. Quis apenas mortific-lo. Os jornais
andam cheios at s margens com histrias desse gnero. Agora, escute: que acha disto? Dois
jovens aventureiros oferecem os seus servios. Dispostos a tudo, prontos a ir a qualquer parte. A
remunerao deve ser compensadora. (Isto convm ficar bem esclarecido desde o comeo). Creio
que se pode acrescentar: No se recusa nenhuma proposta razoveltal como  usado tratando-se
de apartamentos e moblias.
Na minha opinio, qualquer proposta que nos venha em resposta a um anncio desses ter de
ser, forosamente, o menos razovel possvel.
Tommy! Voc  genial! Inspirou-me uma frmula muito mais chique. No se recusa nenhuma
proposta uma vez que os honorrios sejam satisfatrios. Que tal?
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Eu no tornaria a mencionar a questo do pagamento. D uma ideia de avidez...
No pode dar ideia de avidez maior que a minha. Mas talvez voc tenha razo. Agora vou ler tudo
junto: Dois jovens aventureiros oferecem os seus servios. Dispostos a tudo, prontos a ir a
qualquer parte. A remunerao deve ser conpensadora. No se recusa nenhuma proposta. Que
impresso teria voc ao ler um anncio assim?
A impresso de que se tratava de uma brincadeira ou coisa de louco.
O rosto de Tommy coloriu-se de um vermelho mais intenso.
Mas vamos, de verdade, levar a coisa para a frente? disse por fim. Ser que convm, Tuppence? S
para nos divertirmos ?
Tommy, voc sabe brincar! Eu tinha a certeza de que no recusaria. Um brinde ao nosso xito.
Deitou uns restos de ch frio nas duas chvenas.
 sade dos companheiros de faanhas e que possam prosperar!
 Empresa Jovens Aventureiros, Ltda.respondeu Tommy.
Depuseram as chvenas sobre a mesa e riram frouxamente. Tuppence levantou-se.
Tenho que voltar aos meus sumptuosos aposentos na penso.
Talvez seja boa hora para rondar o Ritzdisse Tommy, com um sorriso. Onde nos encontraremos? E
quando?
Amanh ao meio-dia. Na estao do metropolitano de Piccadilly. A hora no  imprpria para
voc?
Sou senhor do meu tempo replicou Mr. Beresford, majestosamente. ,
Adeus, ento.
Adeus, minha jia.
Saram ambos para rumos opostos. A penso de Tuppence situava-se na zona a que chamam, por
caridade, de Southern
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Belgravia. Por motivo de economia, ela no quis tomar um autocarro.
Achava-se a meio caminho, ao cruzar o St. Jamess Park, quando uma voz de homem, atrs dela,
lhe provocou um arrepio.
Desculpe disse o homem. A senhora permite-me uma palavra ?
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II - A PROPOSTA DE MR. WHITTINGTON
Tuppence voltou-se rapidamente, mas conteve as palavras que lhe afloravam  ponta da lngua,
porque o aspecto e as maneiras do homem no correspondiam ao que ela presumira. Hesitou. Como
se lesse os pensamentos da jovem, o homem apressou-se a dizer:
Pode ficar tranquila que no tenho inteno de lhe faltar ao respeito.
Tuppence acreditou. Instintivamente sentiu que o homem no inspirava simpatia ou confiana, mas
estava propensa a absolv-lo da inteno que a princpio lhe atribura. Mirou-o da cabea aos ps.
Era um homenzarro, de barba rapada e com uma cara enorme, com uns olhinhos midos e astutos
que evitavam o olhar directo de Tuppence.
Bem, de que se trata?perguntou ela. O homem sorriu.
Por casualidade, ouvi parte da palestra que a senhora manteve com aquele rapaz, no Lyons.
-Sim. E da?
Nada, a no ser que, na minha opinio, eu posso ser-lhe til.
O senhor seguiu-me?
Tomei essa liberdade.
E de que modo julga o senhor que me possa ser til?
O homem tirou um carto do bolso e ofereceu-o  jovem, com uma mesura. ,,
Tuppence segurou o carto e inspeccionou-o atentamente. Continha a inscrio: Mr. Edward Whittington.
Abaixo do
nome, liam-se as palavras Companhia de Artigos de Vidro Estnia e o endereo de um escritrio no 
centro
da cidade. Mr. Whittington tornou a falar:
Se me fizer uma visita amanh s onze horas da manh, exporei com pormenores a minha proposta.
s onze horas?disse Tuppence, indecisa.
s onze horas. Tuppence dicidiu-se.
Pois bem. Irei.
Muito obrigado. Boa noite.
Tirou o chapu com um floreio e afastou-se. Tuppence ficou por alguns minutos a contempl-lo. Depois,
encolheu os ombros de um modo curioso,  semelhana de um cachorrinho a sacudir-se.
Comearam as aventuras sussurrou para si mesma. Que ser que o homem deseja de mim? H qualquer
coisa na sua pessoa, Mr. Whittington, que no me agrada nada. Mas, por outro lado, no tenho medo 
algum
do senhor. E, como j disse uma vez, e, sem dvida, tornarei a dizer, a menina Tuppence sabe cuidar de 
si,
muito obrigada!
E, com um rpido e lesto meneio de cabea, avanou em passadas vigorosas. Mas, como resultado de
reflexes subsequentes, mudou de rumo e penetrou numa estao de correio. Ali meditou por alguns 
instantes,
com um impresso de telegrama na mo. A ideia de que o gasto dos cinco xelins talvez fosse despesa intil
incitou-a  aco. Resolveu correr o risco de desperdiar nove pence.
Desdenhando a pena perfurante e a viscosa tinta fornecida por um governo solcito, Tuppence
puxou do lpis de Tommy, que conservara consigo, e escreveu rapidamente: No publique
anncio. Amanh explicarei. Endereou para o clube de cujo quadro social Tommy se desligaria
dentro de um ms, salvo se os bons fados lhe permitissem acertar as suas contas com a tesouraria.
 possvel que o telegrama o encontre l murmurou Tuppence. De qualquer maneira, vale a pena
tentar.
Depois de entregar o telegrama ao empregado por sobre
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o balco, dirigiu-se para casa a toda a pressa. Deteve-se numa confeitaria onde comprou alguns
brioches.
Mais tarde, recolhida ao seu minsculo cubculo quase no desvo da casa, mastigava os brioches e
pensava no futuro. Que vinha a ser a Companhia de Artigos de Vidro Estnia e porque cargas de
gua necessitaria dos seus servios? Um estremecimento de emoo ps Tuppence a vibrar. Fosse
como fosse, a parquia rural colocara-se  margem das suas cogitaes. O amanh anunciava-se
cheio de possibilidades.
Nessa noite decorreram muitas horas antes que Tuppence conciliasse o sono e, quando por fim
conseguiu dormir, sonhou que Mr. Whittington a mandava lavar uma pilha de objectos de vidro
marca Estnia, os quais acusavam incrvel semelhana com os pratos do hospital...
Faltavam cinco minutos para as onze no momento em que Tuppence alcanou o conjunto de
edifcios em que se situavam os escritrios da Companhia de Artigos de Vidro Estnia. Chegar
antes da hora aprazada pareceria excesso de impacincia. Por isso, Tuppence resolveu ir at ao fim
da rua e voltar. Foi o que fez. Ao bater das onze, penetrou no edifcio. A Companhia de Artigos de
Vidro Estnia achava-se instalada no ltimo andar. Havia um elevador, mas Tuppence deu
preferncia s escadas.
Quase arquejante, parou diante de uma porta envidraada em que havia o letreiro: Companhia de
Artigos de Vidro Estnia.
Tuppence bateu. Atendendo a uma voz vinda de dentro, fez girar a maaneta e entrou numa sala de
espera pequena e um tanto suja.
Um empregado de meia-idade desceu de um tamborete alto junto de uma mesa perto da janela e
dirigiu-se para a recm-chegada com visvel curiosidade.
Tenho um encontro marcado com Mr. Whittington disse Tuppence.
Venha por aqui, tenha a bondade, Encaminhou-se
para uma porta interna com a inscrio Particular, bateu, depois abriu a porta e ps-se de lado
para a deixar passar.
Mr. Whittington achava-se sentado por trs de uma mesa enorme, coberta de papis. Tuppence
sentiu que se confirmava o seu prvio juizo acerca do homem. Havia qualquer coisa de
desagradvel em Mr. Whittington. A sua aparente prosperidade associada aos seus olhos manhosos
no produzia resultado atraente.
Ergueu os olhos e acenou com a cabea.
De modo que resolveu vir? Muito bem. No quer sentar-se ?
Tuppence acomodou-se numa cadeira, diante do homem. Parecia singularmente pequenina e tinha
uns ares de ilusria modstia naquela manh. Tomou uma postura humilde, de olhos baixos,
enquanto Mr. Whittington classificava com rudo os seus papis. Afinal, colocou-os de lado e
inclinou-se sobre a escrivaninha.
Agora, minha prezada senhora, vamos ao assunto. O seu rosto enorme alargou-se num sorriso. Est
disposta a trabalhar ? Bem, tenho um trabalho para lhe oferecer. Que lhe parece receber cem libras
adiantadamente e todas as despesas pagas?Mr. Whittington recostou-se na cadeira, enfiando os
polegares nas cavas do colete.
Tuppence fitou-o cautelosamente.
E a natureza do servio?interrogou.
Formal, puramente formal. Uma viagem agradvel: eis tudo.
Aonde ?
Mr. Whittington tornou a sorrir.
Paris.
Oh! exclamou Tuppence, pensativa. Dizia para si mesma:  claro que se meu pai ouvisse isto
sofreria um colapso! Mas, de certo modo, no posso compreender Mr. Whittington no
papel de um divertido intrujo.
Sim continuou Whittington. Poderia haver algo mais agradvel ? Fazer o relgio do tempo dar
algumas voltas para
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trsno muitas, estou certo e reingressar num desses encantadores pensionnats de jeunes filies que
em Paris abundam...
Tuppence interrompeu-o,
Um pensionnat?
Sim. O de Madame Colombier, na Avenida de Neuilly. Tuppence conhecia aquele nome muito
bem. No se podia
desejar nada mais selecto. Contava diversas amiguinhas norte-americanas que l se encontravam.
Aquilo deixava-a muito intrigada.
O senhor quer internar-me no colgio de Madame Colombier? Por quanto tempo?
Depende. Talvez trs meses.
E isso  tudo? No existem outras condies?
Nenhumas, absolutamente.  lgico que a senhora ir na qualidade de minha pupila e no poder
comunicar-se com os seus amigos. Sou obrigado a exigir sigilo completo durante esse perodo. A
propsito, a senhora  inglesa, no?
Sim.
Contudo, fala com ligeiro sotaque americano.
A minha melhor companheira, quando trabalhei no hospital, era uma pequena norte-americana.
Acho que da convivncia com ela me adveio o sotaque. Mas isto desaparece com um pequeno
esforo.
Ao contrrio, convm conserv-lo, pois assim torna-se-lhe mais fcil passar por americana. Mais
difcil talvez ser dar verosimilhana aos pormenores da sua vida na Inglaterra. Sim, penso que
seria muito melhor. Depois...
Um momento, Mr. Whittington! O senhor parece estar convencido de que aceitei a oferta.
Whittington mostrou-se surpreso.
Certamente a senhora no pensa em recusar, no ? Garanto que o colgio de Madame Colombier 
um estabelecimento dos mais austeros e de primeirssima classe. E as clusulas so as mais
vantajosas possveis.
Sem dvida disse Tuppence.  por isso mesmo. As clusulas so quase vantajosas demais, Mr.
Whittington.
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No consigo atinar com a maneira por que eu possa merecer o seu dinheiro.
No? inquiriu Whittington suavemente. Bem. eu lh direi. Sem dvida, poderia conseguir outra
pessoa por muito menos. Mas no me importo de pagar mais tratando-se de uma jovem com
suficiente inteligncia e presena de esprito para desempenhar bem o seu papel e tambm com a
necessria discrio para no fazer mais perguntas.
Tuppence esboou um sorriso. Sentiu que Whittington marcara um tento.
Outra coisa. At agora no se fez meno de Mr. Beresford. Em que cena entra ele?
Mr. Beresford?
 o meu scio disse Tuppence, com dignidade. O senhor viu-nos juntos, ontem.
Ah, sim. Parece-me que no necessitaremos dos servios dele.
Ento  assunto liquidado. Tuppence ergueu-se. Ou ns dois ou nenhum. Sinto muito, mas
no pode ser de outra maneira. Passe bem, Mr. Whittington.
Espere um momento. Vamos ver se  possvel fazer qualquer coisa. Torne a sentar-se, Miss... Fez
uma pausa, olhando-a interrogativamente.
Tuppence sentiu uma dorzinha na conscincia, ao lembrar o arcediago. Fisgou com aodamento o
primeiro nome que lhe veio  mente.
Jane Finndeclarou com precipitao. Depois calou-se, boquiaberta ante o efeito produzido por essas
duas palavras.
Toda a afabilidade se sumira do rosto de Whittington. Estava rubro de clera, as veias da fronte
entumescidas. E por trs disso tudo- dissimulava-se uma espcie de desapontamento incrdulo.
Debruou-se sobre a mesa e sibilou:
Ah, ento  esse o seu jogo, heim?
Tuppence, embora visivelmente embaraada, no perdeu a calma. No fazia a menor ideia sobre o
assunto a que se referia o homem, mas ficou naturalmente de esprito alerta
254
e julgou imprescindvel no entregar os pontos, como ela mesma dizia.
Whittington continuou:
Pelo que vejo, a menina esteve a brincar comigo todo este tempo, como o gato com o rato? Sabia
desde o comeo porque lhe fiz a proposta mas levou adiante a comdia. No  assim ? Recobrava a
serenidade. O rubor do rosto esmaecia. Fitava-a penetrantemente. Quem foi que deu com a lngua
nos dentes? No foi a Rita?
Tuppence meneou a cabea. No sabia at que ponto poderia sustentar aquele equvoco, mas
compreendeu a importncia de no arrastar para o caso uma Rita desconhecida.
No replicou, limitando-se a dizer a verdade. Rita nada sabe a meu respeito.
Os olhinhos do homem cravavam-se nela como verrumas.
At onde vai o seu conhecimento do assunto?gritou ele.
Sei muito pouca coisa, para usar de franqueza respondeu Tuppence, satisfeita por notar que a
inquietao de Whittington crescia em vez de abrandar. Se comeasse com bazfias de que sabia
muita coisa, despertaria duvidas no esprito do homem.
Seja como for rosnou WHITTINGTON sabia o bastante para vir aqui e desfechar esse nome.
Podia ser o meu verdadeiro nome sugeriu Tuppence. No  provvel que existam duas jovens com
um nome igual ?
Ou podia eu t-lo pronunciado por acaso continuou Tuppence, animada com os bons resultados que
colhia ao falar a pura verdade.
Mr. Whittington deu um murro na mesa.
No diga asneiras! Que sabe a senhora? E quanto quer? As trs ltimas palavras causaram
forte impresso 
fantasia de Tuppence, especialmente aps o magro breakfast e o jantar de brioches da vspera. A
sua posio agora era de aventureira a agir por conta prpria e no a servio de outrem, mas no
podia negar que se ofereciam possibili-
255
dades. Empertigou-se e sorriu com uns ares de quem tem toda a situao nas suas mos.
Meu caro Mr. Whittington disse coloquemos sem subterfgios as nossas cartas na mesa. E por favor no 
se
encolerize tanto. O senhor ouviu-me dizer ontem que estava disposta a viver da minha astcia. E parece-me
que agora provei possuir alguma astcia para dela viver! Admito que conheo um certo nome, mas os meus
conhecimentos talvez terminem a.
Sim; e talvez no regougou Whittington, furiosamente. Deixe-se de tolices e vamos ao assunto. No
pode fingir de inocente comigo. Sabe muito mais do que quer admitir.
Tuppence calou-se um momento para admirar a prpria sagacidade e depois falou com doura:
Eu no gostaria de o contradizer, Mr. Whittington.
E assim, chegamos  pergunta do costume: quanto ? Tuppence estava num dilema. At agora enganara
Whittington com todo o xito; mencionar, porm, uma soma flagrantemente impossvel despertaria 
suspeitas.
Uma ideia atravessou-lhe o crebro.
Que lhe parece um pequeno adiantamento agora, deixando para depois uma discusso mais
completa do assunto ?
Whittington lanou-lhe um olhar sinistro.
Chantagem, heim? Tuppence sorriu docemente.
Oh, no! Porque no diremos pagamento por conta de servios ?
Whittington soltou um grunhido.
--O senhor compreende explicou Tuppence, com a maior suavidade eu sou louca por dinheiro!
A senhora  quase incrvel, isso  que a senhora  resmungou Whittington, numa espcie de admirao
involuntria. Enganei-me redondamente a seu respeito. Julguei-a uma mera rapariguita, apenas com a
inteligncia suficiente para servir aos meus propsitos.
256
A vida sentenciou Tuppence  prdiga em surpresas.
Mesmo assim continuou Whittington algum deve ter falado. A senhora diz que no foi Rita.
Foi...? Oh, pode entrar!
O empregado, depois de. bater discretamente, entrou na sala e depositou uma folha de papel diante
do patro.
Um recado telefnico para o senhor. Whittington tomou o papel e leu-o. Enrugou a testa.
Est bem, Brown. Pode ir.
O empregado retirou-se, fechando a porta atrs de si. Whittington voltou-se para Tuppence.
Volte amanh  mesma hora. Estou ocupado agora. Aqui esto cinquenta libras para prosseguirmos.
Prontamente escolheu algumas notas e entregou-as a Tuppence por sobre a mesa; depois levantouse,
com sinais de impacincia para que ela se fosse embora.
A jovem contou o dinheiro, meteu-o na bolsa e levantou-se.
Passe bem, Mr. Whittington saudou com polidez. Ou talvez seja melhor dizer Au revoir.
Exactamente! Au revoir!Whittington parecia de novo quase amvel, numa transmutao que
inspirava a Tuppence vago temor. Au revoir, minha inteligente e encantadora jovem!
Tuppence desceu lentamente as escadas. Empolgava-a um sentimento de ardorosa altivez. Um
relgio das vizinhanas demonstrou-lhe que faltavam cinco minutos para o meio-dia.
Vou fazer uma surpresa a Tommy! murmurou Tuppence, e chamou um taxi.
O carro estacou junto  estao do metro, a cuja porta, exactamente, se encontrava Tommy. Os
olhos do rapaz arregalaram-se a mais no poder enquanto ele corria para ajudar Tuppence a descer.
Ela sorriu-lhe afectuosamente e observou, com ligeira afectao na voz:
Pague a corrida, sim, meu caro amigo? A menor nota que tenho  de cinco libras!
237
III-UM RETROCESSO
O momento no foi glorioso como devia. Para comear, os recursos existentes nos bolsos de
Tommy eram um tanto limitados. Por fim, a dama viu-se constrangida a reunir miserveis tostes a
fim de perfazer o preo da corrida. E o motorista, conservando ainda na mo a profusa variedade de
moedas, persuadiu-se a seguir adiante, no sem antes escutar uma ltima interpelao impertinente
do cavalheiro que indagava se o homem fora pago para ficar plantado ali...
Acho que voc lhe deu dinheiro demais, Tommydisse Tuppence, com uma intonao de inocncia
na voz. com certeza, ele quer devolver o excedente...
com toda a probabilidade, foi essa ltima observao que induziu o motorista a ir-se embora.
Bem disse Mr. Beresford, sentindo-se por fim capaz de relaxar a tenso. Por que cargas dgua teve
voc a esdrxula ideia de tomar um taxi?
Receei chegar atrasada, obrigando-o a esperar replicou Tuppence, gentilmente.
Receou... chegar... atrasada! Oh, Deus misericordioso! Esta  demais!
E  a pura verdade continuou Tuppence, abrindo muito os olhos, que no tenho nenhuma nota de
valor menor que cinco libras.
Voc representou a cena muito bem, mas, mesmo assim, o homem no acreditou na histria nem
por um momento!
No assentiu Tuppence, pensativa. Ele no acreditou.  o que h de curioso nesta questo de
falar a verdade.
232
Ningum acredita. Foi o que descobri esta manh. Agora, vamos almoar. Que me diz do Savoy? i
Tommy riu.
Porque no o Ritz?
Sem segundas intenes, prefiro o Piccadilly.  mais perto. No teremos necessidade de tomar
outro taxi. Vamos!
 um novo gnero de humorismo? Ou a sua cabea est deveras avariada? interrogou Tommy.
A sua ltima suposio  certa. Arranjei dinheiro e o choque foi demasiado forte para mim! Para
esse tipo de perturbao mental, um mdico eminente recomenda uso ilimitado de hors doevvre,
lagosta  lamricaine, frango  Neuburg e pssegos Melba! Vamos regalar-nos!
Tuppence, minha amiga, diga-me com seriedade o que lhe aconteceu?
Oh, uma coisa inacreditvel! Tuppence escancarou a bolsa com um repelo. Olhe para aqui, olhe
para aqui, olhe para aqui!
Deus do cu! Minha boa menina, no remexa assim nessas notas de libra!
No so de libra. So cinco vezes melhor que as de libra e esta aqui  dez vezes melhor!
Tommy soltou um gemido.
Acho que bebi demais! Estou a sonhar Tuppence, ou vejo de facto enorme quantidade de notas de
cinco libras agitadas de uma maneira perigosa diante de mim ?
Voc est a ver de facto! Agora, vamos almoar?
Irei a qualquer parte. Mas, diga-me, que fez voc? Assaltou um banco?
Tudo a seu tempo. Que lugar perigoso  Piccadilly Circus! L vem um autocarro enorme na nossa
direco. Seria por demais terrvel se atropelasse as notas de cinco libras!
Vamos ao grill room?perguntou Tommy, quando chegaram, sos e salvos, ao passeio do outro lado.
No outro salo gasta-se mais objetou Tuppence. ;
Apenas desperdcio intil e inquo. Desamos.
259
Tem a certeza de que l poderei encontrar tudo o que quero?
Que indigesto menu est voc a planear ? Est claro que encontrar o que quero e que voc gosta,
pelo menos.
E agora conte-mepediu Tommy, incapaz de conter por mais tempo a curiosidade represada, no
momento em que se abancaram faustosamente rodeados pelos inumerveis hors d'oeuvres dos
sonhos de Tuppence.
Miss Cowley narrou os acontecimentos.
E o mais interessante concluiu a rapariga  que eu na verdade inventei o nome de Jane Finn! No
quis usar o meu verdadeiro nome por causa de meu paina eventualidade de que me envolvesse em
algum assunto suspeito.
Como talvez o seja disse Tommy, lentamente. Mas voc no inventou o nome.
Como ?
No inventou. Fui eu quem lho disse. No se recorda que lhe disse ontem que ouvira dois sujeitos
conversarem a respeito de uma mulher chamada Jane Finn ? Por isso  que o nome lhe acudiu to
prontamente  memria.
com efeito, voc disse-me... Recordo-me agora. Que coisa extraordinria! Tuppence mergulhou
no silncio. De sbito, despertou. Tommy?
- Pronto!
Que aparncia tinham os dois homens que voc encontrou?
Um deles era um sujeito gordo e grande. Barba rapada, parece-me moreno.
Que me enforquem se no  ele! exclamou Tuppence, num grito pouco elegante.  Whittington! E o
outro homem como era?
No me lembro. No prestei muita ateno. A singularidade do nome  que me despertou interesse.
E h gente que diz que no acontecem coincidncias! Tuppence serviu-se dos pssegos Melba com
o rosto iluminado de felicidade.
Mas Tommv tornara-se sisudo.
240
Olhe Tuppence, minha amiga, que resultar disso?
Mais dinheiro replicou a rapariga.
Eu sei. Voc tem uma nica ideia na cabea. Quero referir-me ao passo seguinte. Como pretende
voc levar adiante a farsa?
Oh! Tuppence deixou cair a colher. Voc tem razo, Tommy, estou a fazer o papel de uma
impostora.
E, sobretudo, voc no poder iludi-lo indefinidamente. Mais cedo ou mais tarde, deixar-se-
apanhar. E, de qualquer maneira, no estou certo de que isto no seja passvel de aco judicial:
chantagem, voc sabe.
Tolice. Chantagem  quando algum recebe dinheiro para no contar certas coisas que sabe. No
caso presente, eu nada poderia contar porque em verdade nada sei.
Hum!fez Tommy, com ares de dvida. Bem, seja l como for, que deveremos fazer? Whittington,
esta manh, apressou-se em se livrar de voc, mas da prxima vez querer saber algo mais antes de
cair com o dinheiro. Exigir que voc conte o que sabe, onde obteve informaes e muitas outras
coisas que no poder dissimular. Que far voc ?
Tuppence enrugou a testa gravemente.
Temos de pensar. Pea um pouco de caf turco, Tommy. Estimular o crebro. Ah, meu caro, comi
como um lobo!
Voc quase ultrapassou os limites! O mesmo fiz eu, mas parece-me que fui mais sensato que voc
na escolha dos pratos. (Voltou-se para o criado). Dois cafs! Um turco e um francs.
Tuppence beberricou o seu caf com um ar de profunda reflexo e repreendeu Tommy quando este
lhe dirigiu a palavra.
Silncio. Estou pensando.
Achei! exclamou Tuppence por fim. Tenho um plano. Evidentemente, o que temos a fazer 
descobrir mais alguma coisa a respeito do caso.
Tommy aplaudiu, batendo palmas,
No zombe. O que pudermos descobrir ter de ser por intermdio de Whittington. Precisamos de
saber onde ele mora,
16 . VAMP. G. 1
241
o que faz, seguir-lhe a pista, em suma. Mas eu no me posso encarregar dessa tarefa porque ele conhece-
me;
no entanto, ele viu-o a si apenas por um minuto ou dois no Lyons. No  provvel que o reconhea. No fim 
de
contas um rapaz parece-se muito com outro rapaz.
Discordo formalmente do seu ponto de vista. Tenho a certeza de que as minhas feies simpticas e o meu
aspecto distinto me colocariam em destaque no meio de qualquer grupo.
O meu plano  o seguinte: prosseguiu Tuppence, com toda a calma. Irei sozinha, amanh. Hei de embair o
homem do mesmo modo que o fiz hoje. No importa que no obtenha mais dinheiio. Cinquenta libras 
duraro
alguns dias.
Ou mesmo mais!
Voc ficar rondando do lado de fora. Quando eu sair no lhe falarei, caso ele fique  espreita. Mas 
postarme-
ei nas proximidades, e quando ele sair do edifcio acenarei com o leno ou outro objecto qualquer e voc
entrar em aco.
Entrarei em aco... como?
Seguindo-o, naturalmente, seu ingnuo! Que tal acha a ideia?
 o tipo de episdio que se l em livros. Tenho o pressentimento de que na vida real a gente h-de ficar um
pouco com cara de asno ao permanecer na rua durante horas sem ter nada que fazer. Os passantes ho-
de
formular as suas conjecturas sobre as minhas ocultas intenes.
No no centro da cidade. Andam todos com tamanha pressa! O mais provvel  que nem dm pela sua
presena.
 a segunda vez que voc faz uma observao dessas. No importa, perdoo-lhe. De qualquer forma,  
apenas
brincadeira. Que pretende fazer esta tarde ?
Deixe verdisse Tuppence, pensativa. Estive a pensar em chapus! Ou talvez meias de seda! Ou talvez...
Calma! aconselhou Tommy.As cinquenta libras tm limites! Mas teremos um jantar e um teatro esta
noite, acontea o que acontecer.
ptimo.
!242
O dia decorreu agradvel. A noite ainda mais. Duas das notas de cinco libras acharam o seu fim
irreparvel.
Na manh seguinte, encontraram-se conforme haviam combinado na vspera e encaminharam-se
para o centro da cidade. Tommy conservou-se no passeio oposto enquanto Tuppence penetrava no
edifcio.
Tommy avanou a passos lentos at ao fim da rua, de onde retornou. Estava quase confrontando o
edifcio quando Tuppence irrompeu na rua.
Tommy!
Aqui estou. Que aconteceu?
O escritrio est fechado. Ningum me soube dar notcias.
 estranho.
No acha? Venha comigo e tentemos mais uma vez.
Tommy seguiu-a. Ao passarem pelo terceiro andar, encontraram um jovem empregado que saa de
um escritrio. O jovem hesitou um momento, depois dirigiu-se a Tuppence.
Procuram a Companhia Estnia?
Sim.
Est fechada. Desde ontem,  tarde. A companhia est em liquidao, ao que me disseram.
Pessoalmente, no ouvi nem li notcias alguma a esse respeito. Seja como for, a sala do escritrio
est para alugar.
Obr... obrigada gaguejou Tuppence. O senhor, por acaso, no sabe o endereo de Mr.
Whittington ?
Lamento mas no sei. Eles saram muito repentinamente.
Muitssimo obrigado disse Tommy. Vamos, Tuppence.
Mais uma vez desceram para a rua, onde se contemplaram mutuamente na maior confuso.
O plano frustrou-se- disse Tommy, por fim.
E eu nunca suspeitei istodeplorou Tuppence.
nimo, minha amiga! No se podia evitar tal coisa.
No importa! O pequenino queixo de Tuppence sobressaiu provocadoramente. Voc pensa
que isto  o fim? Se pensa, est enganado.  apenas o comeo!
243
O comeo de qu?
Da nossa aventura! Tommy, no compreende que se eles apanharam tamanho susto a ponto de
fugir,  porque essa histria de Jane Finn sem dvida envolve grossa maroteira ? Bem, chegaremos
ao mago desse problema. Vamos desmascar-los ! Vamos seguir as pistas encarniadamente!
Sim, mas no h pista nenhuma a seguir.
No. E por isso  que temos de recomear tudo, desde o princpio. Empreste-me esse lpis.
Obrigada. Espere um minuto e no me interrompa. Tome!Tuppence devolveu-lhe o lpis e
examinou, com satisfao, o pedao de papel em que estivera a escrever.
Que  isso?
Um anncio.
Ainda se interessa por isso depois do que houve?
No,  um anncio diferente. Entregou-lhe o papel. Tommy leu em voz alta:
PRECISA-se qualquer informao a respeito de Jane Finn. Dirigir-se a Y. A.
244
IV-QUEM  JANE FINN?
O dia imediato decorreu com lentido. Era necessrio encurtar os gastos. Poupadas cuidadosamente,
quarenta libras poderiam durar muito. Por felicidade, o tempo estava magnfico e caminhar 
barato, como dizia Tuppence. Um cinema de bairro proporcionava-lhes recreao  noite.
O dia da decepo fora uma quarta-feira. Na quinta, o anncio aparecera. Era de se esperar que na
sexta-feira as cartas comeassem a chegar  casa de Tommy.
Ele comprometera-se solenemente a no abrir a correspondncia que por acaso chegasse, devendo
encaminhar-se  Xatinnal Gallery, onde a sua colega o encontraria s dez horas.
Tuppence foi a primeira a chegar ao local do encontro. Afundou-se numa poltrona de veludo
vermelho e ficou a contemplar com olhar abstrato as telas de Turner at ao momento que viu o vulto
familiar do rapaz penetrar no salo.
E ento?
Tudo bemrespondeu Mr. Beresford, com uma calma irritante. Qual  o quadro da sua predileco?
No seja perverso. No veio nenhuma resposta? Tommy balanou a cabea com uma melancolia
profunda
e algo exagerada.
Eu no queria causar-lhe uma decepo, minha boa amiga, tocando directamente no assunto.  uma
desgraa! Dinheirinho atirado  rua. Suspirou. Sim,  isso mesmo. O anncio apareceu e...
chegaram apenas duas respostas!
~Tommy, demnio em figura de gente! disse Tuppence.
245
quase aos berros. D-me as cartas. Como pode ser to mesquinho!
Modere a linguagem, Tuppence, modere a linguagem! No soa bem na National Gallery. Isto  do
governo, voc sabe. Sendo filha de um sacerdote...
Devo falar como se estivesse no palco!concluiu Tuppence, com sarcasmo.
No digo isso. Mas se voc est certa que j experimentou a total sensao de alegria aps o
desespero que por bondade lhe porporcionei gratuitamente, abramos a nossa correspondncia, como
se costuma dizer.
Tuppence arrebatou-lhe das mos, sem cerimnia, os dois preciosos envelopes e examinou-os com
a maior ateno.
Papel encorpado, este. Parece provir de gente rica. Abramos o outro em primeiro lugar.
Tem razo. Um, dois e... trs!
O minsculo polegar de Tuppence rasgou o envelope e ela retirou o contedo.
Prezado Senhor,
com referncia ao seu anncio do jornal matutino de hoje, poderei ser-lhe til nalguma coisa. Talvez V. S.
possa visitar-me no endereo acima indicado amanh, s onze horas da manh.
Sinceramente,
A. Crter.
Carshalton Gardens, n. 27 disse Tuppence, aludindo ao endereo.Vai-se pela Gloucester Road.
Muito tempo se leva no metro para chegar at l!
Vou apresentar disse Tommy um plano de aco.  a minha vez de tomar a ofensiva. Conduzido 
presena de Mr. Carter, ele e eu desejamo-nos bons dias, como  da praxe. Ele diz ento: Tenha a
bondade de sentar-se Mister...? Ao que eu respondo, pronta e significativamente: Edward
Whittington! com isto, purpureia-se o rosto de Mr. Carter
246
que pergunta, arquejante: Quanto? Guardando no bolso as cinquenta libras da tabela, reno-me a
voc na rua e marchamos para o endereo seguinte, onde repetiremos a cena.
No seja absurdo, Tommy! Agora, a outra carta. Ol, esta vem do Ritz!
Nesse caso, cem libras em vez de cinquenta!
Vou ler:
Prezado Senhor,
com referncia ao seu anncio, muito gostaria que me fizesse uma visita, por volta da, hora do
almoo.
Sinceramente,
Julius P. Hersheimmer.
Hum! fez Tommy.No ser um boche? Ou apenas um milionrio americano de desgraada
ascendncia? Seja como for, a visita ser  hora do almoo.  divertido quase sempre, no fim da
palestra, dois almoarem de graa.
Tuppence concordou, com um aceno de cabea.
Agora, vamos ao Crter. Precisamos andar muito depressa.
Verificaram que Carshalton Terrace era um irrepreensvel renque de casas com fisionomia de
matronas, como as denominava Tuppence. Tocaram a campainha no nmero 270 uma impecvel
criada atendeu-os  porta. Tinha uns ares to respeitveis que Tuppence sentiu desfalecer-lhe o
corao. Tommy perguntou por Mr. Carter e a mulher introduziu-os num pequeno gabinete do
andar trreo, onde os deixou. No decorreu um minuto, entretanto, quando uma porta se abriu e um
homem alto, com uma chupada cara de falco e aspetto fatigado, penetrou na saleta.
Mr. Y. A. ? disse ele, sorrindo. O seu sorriso era francamente cativante. Sentem-se.
Obedeceram. O homem ocupou uma cadeira diante de Tuppence e olhou-a com um sorriso
encorajador. No seu sorriso
247
havia qualquer coisa que privava a jovem do seu desembarao habitual.
Uma vez que ele no parecia inclinado a dar incio  palestra, Tuppence foi obrigada a comear.
Ns precisamos saber... quer dizer, o senhor poderia ter a bondade de nos contar alguma coisa a
respeito de Jane Finn ?
Jane Finn? Ah! Mr. Carter pareceu reflectir. Bem, a questo : que sabe a senhora sobre o assunto ?
Tuppence empertigou-se.
No percebo o que  que uma coisa tem a ver com a outra.
No? Mas tem, pode crer que tem. Sorriu mais uma vez na sua maneira cansada, e continuou
reflexivamente: E assim, voltamos atrs. Que sabe a senhora sobre Jane Finn ?
Vamosprosseguiu, visto que Tuppence se mantinha em silncio. Deve saber alguma coisa,
seno porque teria publicado o anncio?Inclinou-se um pouco para a frente, com um acento de
persuaso na voz fatigada. Suponhamos que a senhora me conte...
Havia uma qualidade magntica na personalidade de Mr. Carter. Tuppence parecia ter-se
desenvencilhado dela com esforo, quando disse:
No podemos fazer isso, no , Tommy?
Mas, para sua surpresa, o rapaz no corroborou as suas palavras. Tinha os olhos fixos em Mr.
Crter, e quando falou foi num tom respeitoso que no lhe era peculiar.
Acredito que o pouco que sabemos no lhe ser de nenhuma utilidade, senhor. Mas isso no impede
que o relatemos, com prazer.
Tommy! bradou Tuppence, surpresa.
Mr. Crter voltou-se na sua cadeira. Transluzia nos seus olhos uma interrogao muda.
Tommy fez sinal afirmativo com a cabea.
Sim, reconheci-o num relance. Tive oportunidade de o ver na Frana, quando eu trabalhava para o
Servio Secreto. Mal o senhor penetrou nesta sala, conheci...
Mr. Crter ergueu a mo.
248
No mencione nomes, por obsquio. Aqui sou conhecido como Mr. Carter. Esta casa  de minha
prima, por sinal. Ela empresta-me a casa sempre que aparece um trabalho fora das normas
estritamente oficiais. Muito bem. Agora olhou para o rapaz e para a jovem qual dos dois me vai
contar a histria ?
Tem a palavra, Tuppence ordenou Tommy.-- o seu conto da Carochinha.
Sim, minha jovem, vamos ao caso.
Obediente, Tuppence comeou a falar, contando a histria toda, desde a fundao da empresa
Jovens Aventureiros, Lda. ate aos factos subsequentes.
Mr. Crter escutou em silncio, recaindo na sua maneira cansada. De quando em quando, passava a
mo pelos lbios, como a dissimular um sorriso. Quando a rapariga concluiu, abanou gravemente a
cabea.
No  muito. Mas  sugestivo. Muito sugestivo. Se me permitem a expresso, ambos constituem um
parzinho bastante curioso. O que no sei  se conseguiro triunfar onde outros tm fracassado... Eu
acredito na sorte,  bem de ver, mas...
Calou-se por um momento, depois continuou:
Enfim, que se poder fazer? Andam  cata de aventuras. Gostariam de trabalhar para mim? Tudo
absolutamente extra-oficial, entenda-se. Despesas pagas e um mdico salrio. Que dizem?
Tuppence mirou-o, a boca entreaberta, os olhos cada vez mais esgazeados.
E o que deveramos fazer?sussurrou ela. Mr. Carter sorriu.
Apenas prosseguir no que esto fazendo agora. Descobrir Jane Finn.
Sim, mas... quem  Jane Finn?
Mr. Carter abanou gravemente a cabea.
Sim, esto credenciados a saber, creio. Recostou-se na cadeira, cruzou as pernas, uniu as pontas
dos dedos e comeou, num tom de voz baixo e montono:
249
A diplomacia secreta (que, por sinal, est sempre muito prxima da pior poltica.) no lhes
interessa. Ser suficiente dizer que nos primeiros dias de 1915 comeou a existir um certo
documento. Era o projecto de um acordo secreto, um tratado chamem-no como quiserem. O
projecto, que estava pronto para receber a assinatura de vrios representantes, fora concludo na
Amrica que, na poca, era pas neutro. Foi remetido para a Inglaterra por um emissrio especial,
escolhido para essa misso, um rapaz chamado Danvers. Nutria-se a esperana de que o caso todo
se conservara to secreto que nada seria possvel transpirar. Esperanas como essa em geral causam
decepo. H sempre algum que fala!
Danvers viajou para a Inglaterra a bordo do Lusitnia, Conduzia os preciosos papis num pacote
de oleado que trazia junto  prpria pele. Precisamente nessa viagem, o Lusitnia foi torpedeado e
afundado. Danvers figurou na lista dos desaparecidos. Mais tarde o seu cadver deu  praia, sendo
identificado sem quaisquer possibilidades de engano. Mas o pacote de oleado desaparecera!
Surgiu, pois, a questo: algum lhe tirara os papis ou ele prprio os passara a outrem para os
salvar? Alguns incidentes corroboravam a possibilidade da ltima teoria. Depois que o torpedo
atingiu o navio, nos escassos instantes do lanamento dos escaleres, Danvers foi visto a conversar
com uma jovem americana. Ningum o viu realmente entregar qualquer coisa  jovem, mas 
possvel que o tenha feito. Parece-me muito provvel que ele tenha confiado os papis a essa jovem,
na crena de que ela, sendo mulher, teria maiores probabilidades de os conduzir a terra com
segurana.
Mas, se assim foi, onde se encontraria a jovem e que teria feito aos papis ? Um posterior aviso da
Amrica indicava que provavelmente Danvers fora seguido de perto durante toda a viagem. Dar-seia
o caso de que a jovem pactuasse com os inimigos ? Ou ela mesma, por seu turno, se vira
perseguida e induzida, pela astcia ou pela fora, a entregar o precioso pacote?
250
Encetmos o trabalho para descobrir a pista da rapariga. A tarefa apresentou dificuldades
invulgares. O seu nome era Jane Finn e, na devida forma, apareceu na lista dos sobreviventes, mas a
jovem em pessoa parecia haver-se sumido por completo. Os inquritos para apurar os seus
antecedentes pouco ajudaram. Era rf e dedicara-se ao mister de professora primria, como
dizemos aqui, numa pequena escola rural do Oeste. Ela tirou passaporte para Paris, onde ia trabalhar
num hospital. Oferecera voluntariamente os seus servios e, aps uma troca de correspondncia,
fora aceite. Uma vez que seu nome figurou na lista dos sobreviventes do Lusitnia, os dirigentes do
hospital ficaram muito surpreendidos, como  natural, por ela no aparecer, a fim de assumir o seu
posto e por no receberem notcia alguma a seu respeito.
Em suma, dispenderam-se todos os esforos para achar a jovemporm, tudo em vo. Procurmoslhe
a pista atravs da Irlanda, mas nenhuma notcia se conseguiu depois que ela ps os ps na
Inglaterra. No utilizaram para nada o projecto de tratadoComo o poderiam ter feito com a maior
facilidade e, em vista disso, chegmos  concluso de que Danvers, afinal, o havia destrudo. A
guerra entrou noutra fase, o seu aspecto diplomtico modificou-se concomitantemente e no se
pensou mais em refazer o projecto do tratado. Os boatos sobre a sua existncia foram enfaticamente
desmentidos. Esqueceu-se o desaparecimento de Jane Finn e o caso todo caiu no olvido.
Mr. Carter calou-se e Tuppence indagou:
Mas porque  que agora volta  baila? A guerra terminou.
As maneiras de Mr. Carter entremostraram sinais de vigilncia.
Porque parece que, apesar de tudo, os papis no foram destrudos e podem ressurgir hoje com um
significado novo e fatal.
Tuppence mirou o com assombro. Mr. Carter balanou a cabea.
Sim, h cinco anos, o projecto de tratado constitua
251
uma arma nas nossas mos; hoje,  uma arma contra ns. A ideia do tratado foi um erro palmar. Se
os seus termos viessem a pblico, seria um desastre... Era capaz de provocar , nova guerrano
contra a Alemanha, desta vez!  uma possibilidade remota, que eu mesmo no reputo plausvel,
mas o que rno padece dvida  que o documento compromete alguns dos nossos homens pblicos
aos quais no se pode permitir, sob nenhuma hiptese, que caiam em descrdito no actual momento.
Seria uma arma poltica de fora irresistvel em favor dos trabalhistas e, no meu entender, um
governo trabalhista na situao presente viria entravar o comrcio britnico, se bem que, isso valha
zero em face do verdadeiro perigo.
Fez uma pausa e depois disse mansamente:
Devem ter ouvido ou lido que h influncia bolchevista actuando por trs da presente agitao
trabalhista?
Tuppence fez afirmativamente um sinal de cabea.
Pois  a verdade. O ouro bolchevista derrama-se neste pas com o objectivo especfico de provocar
uma revoluo. E existe um certo homem, um homem cujo nome nos  desconhecido, que age na
sombra para atingir os seus prprios fins. Os bolchevistas acham-se por trs da agitao trabalhista
mas esse homem acha-se por trs dos bolchevistas. Quem  ele? No o sabemos. Sempre que a ele se
referem, usam o modesto ttulo de Mr. Brown. Uma coisa, porm,  certa: ele  o maior criminoso da 
nossa
poca. Dirige uma organizao maravilhosa. A maior parte da propaganda pacifista durante a guerra foi por
ele inspirada e financiada. Os seus espies esto em toda a parte.
 um alemo naturalizado?perguntou Tommy. Ao contrrio, tenho razes para acreditar que  ingls.
Foi partidrio dos Alemes como o poderia ter sido dos boers. Ignoramos o que ele pretende
conseguirtalvez o poder supremo para si, de uma forma sem paralelo na histria. No possumos
nenhuma pista que leve  sua verdadeira personalidade. A esse respeito, diz-se que mesmo os seus
sequazes nada sabem. Onde topamos com vestgios seus,
252
ele desempenhou sempre um papel secundrio. Algum outro se encarrega da parte principal. Mas no
fim descobrimos que havia um nfimo subalterno, um criado ou um empregado, que passava
despercebido no ltimo plano; e tambm que o esquivo Mr. Brown nos escapava mais uma vez.
Oh! Tuppence deu um pulo.Eu acho...
O qu?
Recordo-me do escritrio de Mr. Whittington. O empregado... ele chamou-o pelo nome de Brown.
O senhor no  de opinio que...
Pensativo, Mr. Carter inclinou a cabea.
 muito provvel. Uma particularidade curiosa  que o nome em geral  mencionado. Uma mania
pessoal. A senhora saber descrev-lo?
Para falar a verdade, no lhe prestei muita ateno. Era um tipo comum, exactamente igual a
qualquer outro.
Mr. Carter suspirou na sua maneira fatigada.
 a descrio invarivel de Mr. Brown! Levou um recado telefnico ao tal Whittington, no ? Viu
algum telefone na ante-sala?
Tuppence pensou,
-No, acho que no vi.
Perfeitamente. Esse recado foi o meio utilizado por Mr. Brown para transmitir uma ordem ao seu
subordinado. Ele escutou toda a conversa,  claro. Foi depois disso que Whittington lhe entregou o
dinheiro e lhe pediu que voltasse no dia seguinte?
Tuppence respondeu afirmativamente, com um sinal de cabea.
Sim, sem a menor dvida a est a mo de Mr. Brown. Mr. Carter calou-se.Pois bem. Posto isto,
percebem contra quem se vo lanar ? Talvez o criminoso de mais lcido intelecto da nossa poca.
Isto no me agrada nada, fiquem sabendo. So ambos criaturas jovens. Lamentaria muito se lhes
acontecesse alguma coisa.
Nada acontecergarantiu Tuppence, positivamente. Eu cuidarei dela, senhorprometeu Tommy.
253
E eu cuidarei de voc - retrucou Tuppence, abespinhada com a promessa de proteco masculina.
Bem, nesse caso cada qual cuidar do outro disse Mr. Carter, sorrindo. Agora, voltemos ao assunto
H um mistrio em relao a esse projecto de tratado que ainda no conseguimos sondar. Fomos
ameaados com ele em termos simples e inequvocos. Os elementos revolucionrios do a entender
que o tm em seu poder e que pretendem divulg-lo em determinado momento. Por outro lado,
percebe-se claramente que eles ignoram muitas das suas clusulas. O governo considera a ameaa
simples burla da parte dele e, certa ou erradamente, persiste na poltica de negativa absoluta. Eu
no estou to certo disso. Tm surgido indirectamente, aluses indiscretas, que parecem indicar que
a ameaa  verdadeira. A situao apresenta-se mais ou menos como se eles houvessem conseguido
um documento comprometedor que no conseguem ler por estar em cifra (mas sabemos que o
projecto de tratado no est em cifra), de sorte que, incapazes de se inteirar do seu contedo, os
papis para eles perderam o valor. Mas h alguma coisa. Naturalmente, a julgar pelo que sabemos,
Jane Finn talvez tenha morrido, mas tal no  a minha opinio. O que h de interessante no caso 
que eles tentam obter de ns informaes sobre a jovem!
Como ?
Sim. Um ou dois sinais denunciadores vieram  tona. E a sua histria, minha filha, confirma a
minha ideia. Eles sabem que andamos  procura de Jane Finn. Pois bem, apresentaro uma Jane
Finn inventada por eles e, digamos, num colgio de Paris. Tuppence abriu a boca, arquejante, e Mr.
Carter sorriu. Ningum sabe que aparncia a jovem possui, de sorte que tudo poder correr bem.
Industriada com uma histria fictcia a tarefa que lhe incumbe  obter de ns tantas informaes
quantas forem possveis. Compreende?
Ento o senhor quer dizer que era no papel de Jane Finn que eles precisavam de mim
para ir a Paris?
Mr. Carter sorriu, mais fatigado que nunca.
Eu acredito em coincidncias,  claro disse ele.
254
V-MR. JULIUS P. HERSHEIMMER
Simdisse Tuppence, voltando a siparece-me que, na verdade, no pcderia ser de outro modo.
Crter moveu a cabea.
Compreendo o que a senhora quer dizer. Sou supersticioso. Acredito na sorte. O destino parece ttla
escolhido para a envolver neste caso.
Tommy deu uma risadinha.
Por Deus! No me admira que Whittington tenha dado o cavaco quando Tuppence pronunciou
um nome como aquele! Eu faria o mesmo. Mas, Mr. Carter, estamos a roubar o seu precioso
tempo, O senhor no ter alguma informao confidencial para nos fornecer antes que nos
retiremos?
Creio que no. Os meus tcnicos, trabalhando com os seus mtodos imutveis, fracassaram. Vocs
daro  tarefa o influxo da imaginao e do crebro arejado que possuem. No desanimem se
mesmo assim no obtiverem resultados. A nica recomendao que lhes poderei fazer  apressarem
a marcha.
Tuppence franziu a testa, sem compreender.
Quando a senhora teve a entrevista com Whittington, eles dispunham de bastante tempo pela frente.
Chegaram-me informaes revelando que o grande coup estava marcado para princpios do
prximo ano. Mas o governo projecta uma legislao para se contrapor com eficcia  ameaa de
greve.  um assunto que entrar brevemente em debate, se no entrou j, sendo possvel que venha
a pr termo a este estado de coisas. Pessoalmente,  a minha esperana. De sorte que
255
quanto menos tempo eles tiverem para executar os seus planos, tanto melhor. Quero apenas prevenila
que no dispem de muito tempo pela frente e que no h motivo para ficarem abatidos em caso
de fracasso. A incumbncia no tem nada de fcil. Isto  tudo. Tuppence levantou-se.
Penso que devemos falar em termos de negcio. At que ponto, Mr. Carter, podemos contar com o
senhor?
Crisparam-se ligeiramente os lbios de Mr. Carter, mas ele replicou de modo sucinto:
Podem contar com numerrio, dentro de limites razoveis, com informaes detalhadas sobre
qualquer questo e nenhuma garantia oficial. Em outras palavras, se se virem em dificuldades com
a polcia, no poderei oficialmente prestar-lhes auxlio. Agiro por contra prpria.
Tuppence meneou a cabea prudentemente.
Compreendo-o. Redigirei uma lista das questes que preciso conhecer, quando tiver tempo para
pensar. E agora... a respeito de dinheiro...
Sim, Miss Tuppence. Quer dizer quanto?
No  bem isso. Temos o suficiente para as necessidades imediatas, mas quando precisarmos de
mais...
Estar  sua disposio.
Sim, mas... Sem pretender usar de desconsiderao para com o governo, a que o senhor est
vinculado, deve reconhecer quanto tempo se perde ao tratar de qualquer assunto junto s
reparties! E se tivermos de fazer um requerimento, encaminh-lo e, ao cabo de trs meses,
eles no-lo devolvem informando que  preciso mais um ou dois selos, e assim por diante... bem,
ser de pouca utilidade, no acha?
Mr. Carter riu com gosto.
No se preocupe, Miss Tuppence. A senhora formular um pedido pessoal a mim, para este
endereo, e o dinheiro, em moeda corrente, ser-lhe- remetido na volta do correio. No tocante ao
salrio, que lhe parecem trezentas libras por ano? E igual soma para Mr. Beresford, est visto.
256
A fisionomia de Tuppence iluminou-se.
Que maravilha! O senhor  muito bondoso. Sou maluca por dinheiro! Farei uma bela escriturao
das nossas despesas: o dbito e o crdito, o balano no lado direito, uma linha vermelha traada em
diagonal, com os totais idnticos em baixo. Eu, de facto, sei fazer tudo certinho, quando me resolvo
a isso.
-- Estou certo de que sabe. Pois ento, adeus e felicidades para ambos.
Apertaram-se as mos e, um minuto depois, o rapaz e a jovem desciam as escadas do n. 27 de
Garshalton Terrace, com a cabea a rodopiar.
Tommy! Diga-me sem mais demora quem  Mr. Carter?
Tommy murmurou um nome ao ouvido da rapariga.
Oh! exclamou Tuppence, impressionada.
E posso afirmar-lhe, minha filha, que  ele em pessoa!
Oh! tornou Tuppence. Depois acrescentou, pensativa:Gosto dele. E voc? Ele mostra-se to
espantosamente cansado e aborrecido e, no obstante, sob essa aparncia, percebe-se que ele 
como o ao, todo agudeza e penetrao. Oh!A moa deu um pulo. Belisque-me, Tommy, belisqueme!
No posso crer que isto seja real!
Mr. Beresford sentiu-se no dever de lhe satisfazer o pedido. Ai! Agora j chega! Sim, no estamos a
sonhar! Temos um emprego!
E que emprego! Os companheiros de faanhas na verdade comearam a fazer das suas.
 mais respeitvel do que o que eu imaginaradisse Tuppence, pensativa.
Por sorte, eu no tenho a sua inclinao para o crime! Que horas so? Vamos almoar... oh!
Um mesmo pensamento brotou no crebro de ambos. Tommy foi o primeiro a dar voz  ideia:
Julius P. Hersheirnmcr!
No falmos a Mr. Carter a respeito dele.
Sim. Mas no havia muita coisa para dizer, pelo menos
17 - VAMP. G. 1
257
at que vejamos o homem. Vamos!  melhor tomarmos um taxi.
Agora quem  que est a ser perdulrio?
Todas as despesas pagas, no se esquea. Entremos.
Em todo o caso, faremos melhor figura chegando neste carro observou Tuppence, recostando-se com
vaidade na almofada. Tenho a certeza de que os chantagistas nunca chegam de autocarro.
J no somos chantagistasadvertiu Tommy.
No estou muito convencida de que o tenha sido disse Tuppence, com certa melancolia.
Mr. Julius P. Hersheimmer era muito mais novo do que o haviam imaginado Tommy e Tuppence. A jovem
calculou que ele teria uns trinta e cinco anos. Era de altura mediana e de construo quadrada para 
combinar
com o queixo. Tinha um rosto belicoso mas simptico. Quanto  nacionalidade, ningum lhe atribuiria outra
seno a americana, embora falasse com muito leve sotaque.
Receberam o meu bilhete? Sentem-se e contem tudo o que sabem a respeito de minha prima.
Sua prima?
Sim. Jane Finn. .  sua prima?
- Meu pai e sua me eram irmo e irm explicou meticulosamente Mr. Hersheimmer.
Oh! exclamou Tuppence. Ento sabe onde ela est?
No! Mr. Hersheimmer deu um murro na mesa.
Diabos me levem se eu sei! E a senhora?
Ns publicmos o anncio para receber e no para prestar informaes replicou Tuppence, com
severidade.
No ignoro isso. Sei ler. Mas julguei que talvez fosse a sua histria passada que lhes interessasse e que
soubessem onde ela se encontra agora.
No fazemos questo de conhecer o passado dela disse Tuppence, cautelosa.
Mas Mr. Hersheimmer deu mostras de sbita desconfiana.
258
Escutem declarou. Isto aqui no  a Siclia! No me venham com exigncia de resgate ou com ameaas de
cortarem as orelhas da menina se eu recuso. Estamos nas Ilhas Britnicas. Assim, deixem-se de 
brincadeiras
seno grito por aquele belo e forte polcia britnico que estou vendo ali fora, no Piccadilly.
Tommy deu-se pressa em explicar.
No raptmos sua prima. Ao contrrio, fazemos esforos para a encontrar. Fomos contratados para isso.
Mr. Hersheimmer reclinou-se na cadeira.
Expliquem-sedisse lacnicamente.
Tommy conformou-se com o pedido e assim exps uma cauta verso do desaparecimento de Jane Finn e 
da
possibilidade de a jovem se ter envolvido inadvertidamente num caso poltico. Aludiu a Tuppence e a si
prprio como investigadores particulares encarregados de a encontrar e acrescentou que, em vista disso,
ficariam muito satisfeitos com qualquer detalhe que Mr. Hersheimmer lhes pudesse fornecer.
O cavalheiro fez um sinal de aprovao com a cabea.
Acho que est tudo muito certo. Fui apenas um pouco precipitado. Mas acontece que Londres me atordoa!
Conheo apenas a minha pequenina e amvel Nova York. Assim, faam as perguntas e responderei.
Por um instante, essas palavras imobilizaram os Jovens Aventureiros; porm, Tuppence, refazendo-se do
assombro, meteu-se ousadamente  tarefa com uma reminiscncia colhida numa histria policial.
Quando foi que o senhor viu pela ltima vez a falec... a sua prima, quero dizer?
Nunca a vi respondeu Mr. Hersheimmer.
Como? indagou Tommy, atnito. Hersheimmer voltou-se para o rapaz.
No, senhor. Como j disse, meu pai e sua me eram irmo e irm, como o poderiam ser o senhor e esta
jovem Tommy no corrigiu esta suposio sobre o seu parentesco com Tuppence mas nem sempre se
mantiveram unidos. E quando minha tia decidiu casar-se com Amos Finn, pobre
239
mestre-escola rural do Oeste, meu pai ficou furioso Declarou que se conseguisse acumular um
peclio, como era de crer ante as favorveis condies que se lhe ofereciam, a irm no veria um
centavo sequer do seu dinheiro. Sobreveio o eplogo quando a tia Jane seguiu para o Oeste e nunca
mais tivemos notcias dela.
O velho fez dinheiro. Meteu-se em negcios de petrleo, passando para os do ao, lidou um pouco
com caminhos de ferro e posso afirmar que fez Wal Street tremer! Silncio. Depois, ele faleceu no
Outono passado e eu fiquei rico. Pois bem, acreditem-me, a conscincia comeou a incomodar-me!
Batia  porta e dizia: Que  feito da tua tia Jane, l do Oeste ? Fiquei preocupado. Eu imaginava
que Amos Finn no teria progredido. No era homem para isso. Acabei por contratar um homem
para descobrir minha tia. Resultado: ela morrera, Amos Finn morrera, mas tinham deixado uma
filha Jane que naufragara no Lusitnia em viagem para Paris. Ela salvara-se mas deste lado do mar no
sabiam dar notcias do seu paradeiro. Desconfiei que no estavam a procur-la com muito afinco e resolvi 
vir
at c para acelerar a busca. Telefonei para Scotland Yard e para o Almirantado em primeiro lugar. O
Almirantado por pouco que no me mandou enforcar, mas na Scotland Yard foram mais corteses: 
declararam
que realizariam investigaes e mandaram um homem procurar-me esta manh para eu lhe dar uma 
fotografia
da desaparecida. Vou a Paris amanh, apenas para ver o que a perfeitura est fazendo. Acho que se eu os
espicaar constantemente, ho-de fazer alguma coisa!
A energia de Mr. Hersheimmer era tremenda. Tommy e Tuppence curvaram-se diante dela.
Digam-me agora concluiu ele no andam a procur-la por algum motivo especial ? Menosprezo s 
instituies
ou qualquer outra coisa britnica? Uma americana altiva pode achar enfadonhas as suas regras e 
regulamentos
em tempo de guerra e rebelar-se contra tudo isso. Se se trata de um caso assim e se neste pas existe 
algo
semelhante a suborno, saibam que estou pronto a pagar.
260
Tuppence tranquilizou-o.
Muito bem. Ento podemos trabalhar de comum acordo. Mas vamos almoar? Mamdo servir aqui ou
descemos at ao restaurante?
Tuppence manifestou preferncia pela ltima sugesto e Julius submeteu-se  deciso da rapariga.
Mal haviam as ostras cedido lugar ao linguado  Colbert, quando vieram apresentar um carto de
visita a Hersheimmer. O inspector Japp, do Departamento de Investigaes Criminais. De novo a
Scotland Yard. Mas desta vez  outro homem. Pensar ele que lhe poderei contar algo que no
tenha contado ao outro? Fao votos para que no tenham extraviado a fotografia. A casa do
fotgrafo do Oeste ardeu, todos os negativos foram destrudos, de maneira que aquela  a nica
cpia existente. Foi-me oferecida pela directora do colgio.
Um temor no manifesto passou por Tuppence.
O senhor... o senhor no sabe o nome do homem que veio esta manh?
Sim, sei. No, no sei. Um momento. Estava neste carto. Oh, descobri! Inspector Brown. Um
indivduo calado e despretensioso.
261
VI - UM PLANO DE CAMPANHA
Na Scotland Yard no conheciam ningum pelo nome de Inspector Brown. A fotografia de Jane
Finn, que seria do mais alto valor para a polcia na procura da jovem, perdera-se sem possibilidade
de recuperao. Mais uma vez Mr. Brown triunfara.
O resultado imediato deste contratempo foi efectuar um rapprochement entre Julius Hersheimmer e
os Jovens Aventureiros. Todas as barreiras desabaram com estrondo e Tommy e Tuppence
sentiram-se como se houvessem conhecido o rapaz americano toda a vida. Abandonaram a
reticncia discreta de investigadores particulares, revelaram a Julius a histria completa dos
companheiros de faanhas, ao que o rapaz declarou que a barriga lhe doa de tanto rir.
Voltou-se para Tuppence, finalizada a narrativa.
Sempre imaginei as jovens inglesas como algo anacrnico. Supunha-as antiquadas e ternas,
receosas de sair  rua sem a companhia de um lacaio ou de uma velha tia. Parece-me que estou um
pouco atrasado...
O remate dessas confidncias foi que Tommy e Tuppence transferiram o seu domiclio para o Ritz,
afim de. como referiu Tuppence, se conservarem em contacto com o nico parente vivo de Jane
Finn.
Num caso destesacrescentou ela a Tommy em tom confidencial ningum vacilaria em gastar mais
um pouco!
E o facto  que ningum vacilou...
E agora disse a rapariga na manh imediata  instalao no hotel mos  obra!
262
Mr. Beresford ps de lado o Daily Mail, que estava a ler, aplaudiu-a batendo palmas um tanto fortes
demais. com toda a polidez, a colega recomendou-lhe que no fosse idiota.
Tem de se convencer, Tommy, que precisamos fazer alguma coisa para merecer o dinheiro que
ganhamos.
Tommy suspirou.
Sim, suponho que nem mesmo o querido governo ser capaz de nos sustentar no Ritz em ociosidade
perptua.
Portanto, como j disse, devemos fazer alguma coisa.
Pois bem disse Tommy, pegando novamente no Dally Mail faa. No a deterei.
Voc compreende continuou Tuppence estive a pensar...
Foi interrompida por nova salva de palmas.
 muito interessante voc ficar a sentado a fazer gracinhas, Tommy, mas creio que no haveria
inconveniente em pr o seu fraco crebro a trabalhar tambm.
 por causa do meu sindicato, Tuppence, do meu sindicato! No me permite trabalhar antes das
onze da manh.
Tommy, quer que eu lhe atire alguma coisa acima?  absolutamente essencial que elaboremos sem
demora um plano de campanha.
Eu sei, eu sei!
Ento, mos  obra!
Por fim, Tommy ps de lado o jornal.
Em voc, Tuppence, nota-se aquela simplicidade dos intelectos verdadeiramente grandes. Tem a
palavra. Sou todo ouvidos.
Para comear disse Tuppence quais so os elementos de que dispomos?
Nenhum, absolutamente respondeu Tommy com ar divertido.
Engana-se!Tuppence agitou no ar um dedo enrgico. Contamos com duas pistas distintas.
Quais so?
Primeira pista: conhecemos um membro da quadrilha. Whittington?
265
Sim. Sou capaz de o reconhecer em qualquer parte. Hum fez Tommy, com ar de dvida no
considero isso propriamente uma pista. Voc no sabe onde o ir procurar e h uma possibilidade
entre mil de o encontrar por acaso.
Quanto a isso, no estou bem certa replicou Tuppence, pensativa. Tenho observado que as
coincidncias quando comeam a acontecer repetem-se da maneira mais extraordinria. Trata-se, ao
que suponho, de uma lei natural ainda no descoberta. Mas, como voc disse, no nos podemos fiar
em tal probabilidade. Entretanto, existem lugares em Londres onde toda a gente aparece, mais cedo
ou mais tarde. O Piccadilly Circus, por exemplo. Uma das minhas ideias era postar-me l o dia
inteiro com um tabuleiro de flores.
E porque no de comestveis?indagou o prtico Tommy.
Que homem! Que  que os comestveis tm que ver com o caso?
Muito. Neste momento voc acaba de sair de um copioso breakfast. Mas ningum possui melhor
apetite que voc, Tuppence, e, pela hora do ch, comear a comer as flores, alfinetes e o resto.
Honestamente, no deposito muita esperana nessa sua ideia.  possvel que Whittington no esteja
em Londres.
Tem razo. Sem embargo, acredito que a pista n. 2  mais prometedora.
Vamos a ela.
No  grande coisa. Apenas um nome de baptismo: Rita. Whittington mencionou-o naquele dia.
 sua inteno publicar um terceiro anncio: Precisa-se de uma mulher misteriosa chamada
Rita?
No. A minha inteno  raciocinar com lgica. O tal Danvers foi vigiado durante toda a viagem,
no  ? E  muito mais provvel que o tenha sido por uma mulher que por um homem...
No sei porqu, francamente.
Tenho a absoluta certeza de que foi uma mulher e bonita replicou Tuppence, com toda a calma.
264
Em pontos tcnicos como esse, submeto-me  sua deciso murmurou Mr. Beresford.
E  evidente que essa mulher, seja ela quem for, se salvou.
Como se chega a tal concluso?
De outro modo, como saberiam eles que Jane Finn recebeu os papis?
Tem razo. Continue, sr. Sherlock!
E assim resta uma mera probabilidade (admito que  uma probabilidade apenas) de que a mulher
seja Rita.
E se for?
Se for, procuraremos os sobreviventes do Lusitnia at a encontrarmos.
Nesse caso, antes de mais nada, temos que obter uma lista dos sobreviventes.
J a obtive. Organizei um rol das coisas que eu precisava saber e enviei-o a Mr. Carter. Recebi a
resposta hoje pela manh e entre os objectos enviados figura a relao oficial dos nufragos salvos
do Lusitnia. Merece boa nota a inteligncia da menina Tuppence?
Dou grau dez pela argcia, zero pela modstia. Mas o principal  saber se h alguma Rita na lista.
Isso  o que eu no seiconfessou Tuppence.
No sabe?
Sim. Olhe. Inclinaram-se ambos sobre a lista. Como voc v, h muito poucos nomes de baptismo.
Na maioria so sobrenomes precedidos de Mrs. ou Miss.
Isto vem complicar as coisasmurmurou o rapaz, pensativo.
Tuppence encolheu os ombros, na sua habitual sacudidela de cachorrinho.
Bem, temos de tirar isso a limpo. Comearemos na rea de Londres. Voc fique tomando nota de
todas as mulheres que residem em Londres e arredores enquanto ponho o chapu.
Cinco minutos aps o jovem par surgia em Piccadilly e, dentro de alguns segundos, um carro
conduzia-os aos Laurels, a Glendower Road n. 7, residncia de Mrs. Edgar
265
Keith, cujo nome figurava em primeiro lugar numa lista de sete que Tommy anotara na sua
caderneta de apontamentos. Laurels era o nome de uma casa arruinada, afastada do caminho, com
uns pavorosos arbustos que pretendiam dar a ideia de um jardim de frente. Tommy pagou o taxi e
acompanhou Tuppence at  porta. Ela estava para premir o boto quando o rapaz a impediu,
segurando-lhe o brao.
Que  que voc tenciona dizer?
Que tenciono dizer? Ora, vamos ver... Ah, meu caro, no sei!  muito desconcertante.
Bem, como eu pensava disse Tommy com satisfao. Veja o que  ser mulher! No prevem nada!
Fique a no seu canto e observe como um simples homenzinho domina a situao. Tocou 
campainha. Tuppence retirou-se para conveniente distncia.
Uma criada em desalinho, de cara suja em extremo e com um par de olhos desiguais, atendeu-os 
porta.
Tommy sacara do bolso a caderneta de apontamentos e um lpis.
bom dia! exclamou com vivacidade e bom humor.
Sou do Conselho Distrital de Hampstead. O novo registo de eleitores... Mrs. Edgar Keith mora aqui,
no?
Mora respondeu a criada.
Qual  o primeiro nome dela?perguntou Tommy, com o lpis pronto para entrar em aco.
Da patroa ? Eleanor Jane.
E-l-e-a-n-o-r soletrou Tommy.Tem filhos ou filhas maiores de vinte e um anos ?
-No.
Muito obrigado. Tommy fechou a caderneta com um forte estalo.Passe bem.
A criada permitiu-se fazer a sua primeira observao:
Pensei que o senhor vinha por causa da conta do gs
declarou veladamente e fechou a porta.
Tommy reuniu-se  sua cmplice.
Viu, Tuppence? observou.  uma brincadeira de crianas para um crebro de homem.
266
Admito-o, sem reservas, j que voc se saiu s mil maravilhas. Nunca me ocorreria um expediente
desses.
Boa piada, no ? E podemos repeti-la quantas vezes quisermos.
A hora do almoo veio encontrar o jovem par atacando com avidez um bife com batatas numa
hospedaria modesta. Haviam coligido uma Gladys Mary e uma Marjorie, sofreram uma decepo
com uma mudana de endereo e foram constrangidos a escutar comprida dissertao sobre o
sufrgio universal feita por uma exuberante senhora americana cujo nome de baptismo descobriram
que era Sadie.
Ah!fez Tommy, sorvendo um longo trago de cerveja. Sinto-me melhor. Quais os prximos
endereos?
A caderneta de apontamentos estava sobre a mesa, entre ele e a jovem. Tuppence abriu-a.
Mrs, Vandermeyer leu Tuppence South Audley Mansions, n. 20. Miss Wheeler, Clapington
Road, n. 20, Battersea. Esta  uma dama de companhia, se bem me lembro, sendo provvel que no
esteja em casa, e alm disso parece difcil que seja quem procuramos.
Ento a dama de Mayfair est claramente indicada para ser o primeiro porto de escala.
Tommy, estou desanimada.
nimo, minha amiguinha. Nunca ignormos que isto era uma possibilidade extrema. E, no fim de
contas, mal comemos. Se nada descobrirmos em Londres, abre-se para ns a perspectiva de uma
bela viagem pela Inglaterra, Irlanda e Esccia.
Tem razo disse Tuppence, recobrando o optimismo. E com todas as despesas pagas! Mas, Tommy,
eu gosto quando as coisas acontecem rapidamente. At agora, uma aventura sucedia a outra, porm,
esta manh um aborrecimento sucedeu a outro.
Voc precisa de acabar com esse gosto pelas sensaes vulgares, Tuppence. Lembre-se que se Mr.
Brown corresponde de facto ao retrato que dele pintam,  de estranhar que at
267
este momento no nos tenha levado  manso dos mortos. Esta frase  boa, possui um sabor
literrio.
Voc em verdade  mais pretensioso do que eue menos desculpvel! Sim, senhor! Mas, sem dvida,
causa espcie que Mr. Brown ainda no tenha exercido contra ns a sua vingana. (Veja que eu
tambm sei arredondar uma frase). Palmilhamos ilesos o nosso caminho...
Talvez ele nos considere muito insignificantes para que se preocupe connosco lembrou o rapaz com
simplicidade.
Tuppence acolheu a observao com muito desagrado.
Voc  horroroso, Tommy. Ento no valemos nada?
Desculpe, Tuppence. O que eu quis dizer  que ns trabalhamos como toupeiras no escuro e ele
nem suspeita dos nossos abominveis planos. Ah, ah!
Ah, ah! imitou -o Tuppence, com um ar de aprovao, ao levantar-se.
<South Audley Mansions era um edifcio de apartamentos de aspecto imponente, bem prximo de
Park Lane. O n. 20 situava-se no segundo andar.
J agora, Tommy demonstrava a desenvoltura que a prtica proporciona. Recitou a frmula de
apresentao  velhota que lhe abriu a porta, a qual parecia mais uma governanta do que criada.
Primeiro nome?
Margaret.
Tommy soletrou-o, mas a mulher interrompeu-o.
No, no  assim.  g-u-e.
Ah, sim. Marguerite.  maneira francesa, compreendo.
Calou-se e depois acrescentou de chofre, atrevidamente:
Ns havamos registado o nome de Rita Vandermeyer, mas acho que est errado...
 como lhe chamam, senhor, mas o nome dela  Marguerite.
Muito obrigado. O servio est feito. Passe bem.
Mal podendo conter a excitao que o invadiu, Tommy voou pelas escadas abaixo. Tuppence
esperava no canto do corredor.
268
Voc ouviu?
Sim. Oh, Tommy!
Tommy apertou-lhe o brao com simpatia.
Compreendo o seu entusiasmo, minha amiga. O mesmo sinto eu.
...  to bom a gente imaginar uma coisa... e depois acontecer realmente! -exclamou Tuppence
vibrante.
Tommy ainda prendia na sua mo a da rapariga quando chegaram ao vestbulo da entrada.
Perceberam rudos de passos na escada, acima deles, e vozes.
De sbito, para completa surpresa de Tommy, Tuppence arrastou-o para o pequeno espao ao lado
do elevador, onde a sombra era mais densa.
O que... ~-Pst!
Dois homens desceram a escada e transpuseram a porta. A mo de Tuppence apertou com mais
fora o brao de Tommy.
Depressa: siga-os. Eu no me atrevo. Ele talvez me reconhea. No sei quem  o outro, mas o mais
alto dos dois  Whittington.
269
VII-A CASA EM SOHO
Whittington e o seu companheiro caminhavam numa marcha regular. Tommy ps-se em
perseguio imediatamente, a tempo de os ver dobrar a esquina da rua. com as suas passadas
vigorosas, o rapaz poderia em breve aproximar-se deles e no momento em que, por sua vez,
alcanou a esquina, a distncia encurtara sensivelmente. As ruas da pequena Mayfair achavam-se
relativamente desertas e ele julgou prudente contentar-se com mant-los ao alcance da sua vista.
Os dois homens seguiam uma trajectria em ziguezague, escolhida para os levar com a maior
rapidez possvel a Oxford Street. A chegados, prosseguiram na direco do nascente e Tommy
acelerou um pouco a marcha. A pouco e pouco, acercou-se dos homens. No passeio regorjitante,
pouco provvel seria que eles dessem pela aproximao do rapaz, que ardia por captar uma ou duas
palavras da conversa. Este intento frustrou-se por completo: os homens falavam em voz baixa e as
suas palavras diluam-se totalmente no rumor do trfego.
Em frente da estao do metro de Dover Street, os homens atravessaram a rua, alheios  persistente
presena de Tommy no seu encalo, e entraram no Lyons. Subiram ao primeiro andar e sentaramse
a uma mesa pequena junto da janela. Era tarde e o movimento estava reduzido naquela
dependncia do estabelecimento. Tommy ocupou uma mesa ao lado da dos homens, sentando-se
exactamente por trs de Whittington afim de prevenir a eventualidade de ser reconhecido. Em com-
270
pensao, podia contemplar  vontade o outro homem e analis-lo com toda a ateno. Era louro,
com um rosto magro e antiptico e, ao que Tommy deduziu, de nacionalidade russa ou polaca.
Contava cinquenta anos presumveis, encolhia um pouco os ombros ao falar e os seus olhinhos
astutos estavam sempre em movimento.
Tendo almoado bem, Tommy contentou-se com pedir um caf e uma torrada com queijo derretido.
Whittington encomendou um almoo substancial para ele e para o seu companheiro; depois, quando
a garonnette se retirou, arrastou a cadeira mais para junto da mesa e comeou a falar com o
maior interesse, em voz baixa. O outro homem imitou-o. De ouvido  escuta, Tommy apenas
percebia uma ou outra palavra. Mas a essncia do dilogo parecia ser instrues ou ordens que o
homem alto transmitia ao companheiro e das quais o ltimo parecia discordar de quando em
quando. Whittington dava ao outro o nome de Boris.
Tommy captou a palavra Irlanda vrias vezes e tambm propaganda, mas no fizeram qualquer
meno de Jane Finn. De sbito, sobrevindo uma pausa no zunzum da sala, o rapaz apanhou uma
frase inteira. Era Whittington quem falava.
Ah, mas voc no conhece Flossie. Ela  uma maravilha. Um arcebispo juraria que ela era a sua
prpria me. Ela fala sempre com acerto e isso na realidade  o principal.
Tommy no ouviu a resposta de Boris mas, quando Whittington tornou a falar, julgou perceber
estas palavras:  claro... somente num caso de emergncia...
Tornou a perder o fio da conversa. A certa altura, porm, as frases tornaram-se ntidas mais uma
vez, ou porque os homens falassem mais alto ou porque o ouvido de Tommy se tornara mais
apurado, o que o rapaz no sabia ao certo. A verdade  que duas palavras exerceram o mais
estimulante efeito sobre o ouvinte. Saram dos lbios de Boris e eram: Mr. Brown.
Whittington pareceu censurar o companheiro, mas este limitou-se a rir.
271
Porque no, meu amigo?  um nome dos mais respeitveise dos mais corriqueiros. Ele no o
escolheu por esse motivo? Ah, eu gostaria de me encontrar com ele, com Mr. Brown.
A voz de WHITTINGTON. adquiriu um timbre metlico quando ele replicou:
Quem sabe? Talvez voc j o tenha encontrado.
Ora! retorquiu o outro. Isso  uma historieta infantil, uma fbula para a polcia. Sabe o que eu penso
s vezes? Que o homem  uma fbula inventada pelos chefes secretos, um fantasma para nos
amedrontar. Talvez seja isso.
E talvez no seja.
Eu fico a matutar... Ser possvel que ele ande connosco, no meio de ns, desconhecido de todos,
com excepo de uns poucos escolhidos? Se  assim, ele guarda bem o segredo. E a ideia  ptima,
sem dvida. Nunca estamos seguros. Contemplamo-nos mutuamente - um de ns  Mr. Brown;
mas qual ? Ele d ordensmas tambm as cumpre. Entre ns... no meio de ns... E ningum sabe qual
 ele...
com esforo, o russo abandonou os caprichos da fantasia. Consultou o relgio.
Sim disse WHITTINGTON. Podemos ir embora. Chamou a garonnette e pediu a conta.
Tommy fez o
mesmo e poucos minutos depois seguia os dois homens que desciam a escada.
Fora, Whittington fez sinal a um taxi e ordenou ao motorista que os levasse  estao de Waterloo.
Havia taxis em abundncia e antes que o de Whittington se pusesse em movimento, outro encostava
ao passeio em obedincia  chamada peremptria de Tommy.
Siga aquele taxidisse o rapaz ao motorista. No o perca de vista.
O homem no demonstrou o mnimo interesse. Limitou-se a soltar um grunhido e a recolher a
bandeirinha com o sinal livre. A corrida efectuou-se sem incidentes. O taxi de Tommy chegou 
plataforma da estao pouco depois do de Whittington. O rapaz colocou-se atrs de Whittington na
bilhe-
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teira. O homem comprou uma passagem simples de primeira classe para Bournemouth e Tommy
fez o mesmo. Quando Whittington se reuniu ao companheiro, Bons observou, relanceando um olhar
ao relgio:
Ainda  muito cedo. Voc ainda dispe de uma meia hora.
As palavras de Boris originaram outra ordem de ideias na mente de Tommy. Evidenciava-se que
Whittington viajaria s, enquanto o outro permanecia em Londres. Restava-lhe pois escolher qual
dos dois seguiria. Estava visto que no poderia seguir a ambos, a no ser que... Como Boris,
consultou o relgio e depois o quadro indicador do movimento dos comboios. O comboio para
Bournemouth partia s trs e meia. Eram trs e dez. Whittington e Boris passeavam de um lado para
o outro em frente do quiosque da estao. Tommy lanou-lhes um olhar indeciso e depois
precipitou-se para uma cabina telefnica contgua. No se arriscou a perder tempo tentando
comunicar com Tuppence. com toda a probabilidade, ela ainda se encontrava nas vizinhanas de
South Audley Mansions. Mas reatava outro aliado. Ligou para o Rilz e chamou Julius
Hersheimmer. Escutou um zumbido. Ah, se o rapaz americano no se encontrasse no quarto! Um
alo de sotaque iniludvel chegou por fim atravs do fio.
 voc, Hersheimmer ? Daqui fala Beresford. Estou na estao de Waterloo. Segui Whittington e
outro homem at aqui. Whittington parte para Bournemouth s trs e meia. Poder voc vir at c
antes dessa hora?
A resposta foi tranquilizadora.
Claro. Apressar-me-ei.
Tommy desligou com um suspiro de alvio. Na sua opinio, era notvel o dinamismo de Julius.
Pressentiu instintivamente que o americano chegaria a tempo.
Whittington e Boris estavam ainda no mesmo lugar. Se Boris ficasse para assistir  partida do
amigo, tudo estaria bem. Depois, Tommy, pensativo, mergulhou os dedos nas algibeiras. A despeito
de lhe haverem conferido carta branca, ainda no
18 - VAMP. G. 1
273
adquirira o hbito de trazer consigo uma soma considervel de dinheiro. A compra da passagem de
primeira classe para Bournemouth deixara-o apenas com alguns nqueis no bolso. Fazia votos para
que Julius no viesse to desprevenido.
Entrementes, escoavam-se os minutos: trs e quinze, trs e vinte, trs e vinte e sete. J acreditava
que Julius no chegaria a tempo. Trs e vinte e nove... Portas batiam. Tommy sentia ondas geladas
de desespero a percorrerem-lhe o corpo. Depois, uma mo pousou-lhe no ombro.
Aqui estou, rapaz. O seu trfego britnico  algo de indescritvel! Mostre-me os dois piratas.
Aquele  Whittington: o que est a embarcar, aquele moreno e alto. O outro  o tal estrangeiro com
quem ele conversa.
Vamos a isto. Qual dos dois me toca?
Tommy j reflectira sobre essa questo. 
Voc trouxe dinheiro?
Julius balouou a cabea e Tommy empalideceu.
Calculo que no tenho mais que trezentos ou quatrocentos dlares neste momento explicou o
americano.
Tommy soltou uma discreta exclamao de alvio. Ah, meu Deus! Vocs, milionrios... No falam a
mesma lngua dos outros! Embarque, embarque. Eis aqui a sua < passagem. Voc encarrega-se de
Whittington.
E encarrego-me de verdade! disse Julius em tom de ameaa. O comboio comeava a movimentar-se
quando ele se arremessou para uma carruagem:At breve, Tommy. O comboio deslizou para fora
da estao.
Tommy respirou fundo. Boris vinha ao longo da plataforma na sua direco. Tommy deixou-o
passar e depois retomou mais uma vez a perseguio.
Da estao, Boris seguiu no metropolitano at Piccadilly Circus. Da prosseguiu a p pela
Shaftesbury Avenue e por fim enveredou para o labirinto de ruelas ao redor do Soho. Tommy
seguia-o a prudente distncia.
Finalmente, chegaram a uma pequena praa em runas. As casas apresentavam um aspecto sinistro
com a sua imun-
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dcie e decadncia. Boris olhou em torno e Tommy refugiou-se sob a proteco de um prtico
providencial. O lugar estava quase deserto. Tratava-se de um beco sem sada e por consequncia
nenhum veculo transitava por ali. O modo furtivo por que o outro olhara em torno estimulara a
imaginao de Tommy. Do seu abrigo no vo da porta, viu-o subir os degraus de uma casa de
aspecto sinistro e bater incisivamente, com um ritmo peculiar,  porta. Abriram prontamente, o
homem disse uma palavra ou duas ao porteiro e entrou. A porta tornou a fechar-se.
Foi neste momento que Tommy perdeu a cabea. O que ele devia fazer, o que faria qualquer
homem em seu juzo perfeito, era permanecer com pacincia onde estava e aguardar que o homem
tornasse a sair. A atitude que assumiu foi inteiramente alheia ao bom senso sereno que sempre
constituiu a sua caracterstica principal. Ele teve a impresso, conforme o declarou, de que alguma
coisa lhe estalara no crebro. Sem um momento de pausa para reflexo, subiu tambm a escada e
imitou o melhor que pde o bater caracterstico.
Abriram a porta com a mesma prestreza de minutos antes. Um homem com cara de rufia, de cabea
rapada, surgiu no vo da porta.
Que deseja? rosnou.
Nesse instante, Tommy alcanou a compreenso exacta da loucura que estava cometendo. Mas no
se entregou a hesitaes. Lanou mo das primeiras palavras que lhe vieram  mente.
Mr. Brown?disse.
Para sua surpresa, o homem ps-se de lado.
L em cima explicou, sacudindo o polegar sobre o ombro do rapaz no segundo andar,  esquerda.
275
.! VIII-AS AVENTURAS DE TOMMY
Embora embaraado com as palavras do homem, Tommy no hesitou. Se a audcia o levara com
bom xito at ali, era de supor que o levaria do mesmo modo mais adiante. Silenciosamente
penetrou na casa e comeou a subir os degraus soltos da escada. Ali dentro reinava uma porcaria
indescritvel, O papel encardido que forrava as paredes, cujo desenho se tornara impossvel de
distinguir, pendia em festes frouxos em diversos lugares. Em todos os cantos se acumulava uma
massa cinzenta de teias de aranha.
Tommy avanava devagar. No momento em que atingia o topo da escada, percebeu que o homem l
de baixo desaparecia numa diviso das traseiras. Era evidente que no lhe adviera ainda qualquer
desconfiana. Chegar  casa e perguntar por Mr, Brown parecia com efeito um facto natural.
No alto da escada, Tommy parou para reflectir no passo seguinte.  sua frente, abria-se um
corredor estreito, com portas de um e de outro lado. De uma das portas mais prximas partia surdo
rumor de vozes. Era a diviso que o homem indicara. Mas o que lhe fascinou o olhar foi um
pequeno vo que lhe ficava imediatamente  direita meio dissimulado por uma cortina rasgada de
veludo. Defrontava directamente a porta da esquerda e, devido ao seu ngulo, tambm
proporcionava ntida viso da parte superior da escada. Era ideal como esconderijo para um ou, em
caso de apuros, dois homens, pois media cerca de dois ps de fundo por trs de largura. Exerceu
logo poderosa atraco sobre Tommy. O rapaz ponderou as coisas, com o seu raciocnio lento e
firme, e
276
concluiu que a referncia a Mr. Brown no servia para designar uma pessoa mas com toda a
probabilidade, era uma senha usada pela quadrilha. Empregando-a fortuitamente, Tommy
conseguira admisso. At agora no despertara suspeitas. Mas cumpria decidir com rapidez o passo
seguinte.
Considerou a hiptese de entrar ousadamente na sala  esquerda do corredor. Seria suficiente o
simples facto de haver conseguido acesso  casa ? Talvez exigissem nova senha ou at mesmo uma
prova de identidade. O porteiro por certo no conhecia de vista todos os membros da quadrilha, mas
ali em cima podia ser diferente. Em suma, a sorte ajudara-o bastante at aquele momento, mas no
convinha confiar demasiado nela. Entrar na sala seria um perigo colossal. No confiava em que
pudesse desempenhar o seu papel indefinidamente: mais cedo ou mais tarde trair-se-ia,
desperdiando uma extraordinria oportunidade em simples tolice.
Soaram mais uma vez na porta em baixo as pancadinhas convencionais e Tommy, j resolvido,
deslizou com rapidez para o vo e correu a cortina que o escondeu por inteiro. Havia numerosos
rasges e furos no pano velho da cortina, os quais lhe permitiam boa visibilidade. Assistiria ao
desenrolar dos acontecimentos e, no momento que julgasse oportuno, poderia reunir-se ao grupo,
modelando a sua conduta pela daquele recm-chegado.
O homem, que vinha subindo a escada num passo furtivo e vagaroso, era absolutamente
desconhecido de Tommy. No havia dvidas de que pertencia  escria da sociedade. A testa
saliente, o queixo de criminoso, a bestialidade de toda a fisionomia constituam uma novidade para
o rapaz, conquanto se tratasse de um tipo que a Scotland Yard reconheceria de relance.
O homem passou junto ao vo, respirando pesadamente. Deteve-se na porta fronteira onde repetiu o
bater convencional. Uma voz l dentro berrou qualquer coisa, o homem abriu a porta e entrou,
permitindo assim a Tommy uma vista momentnea do interior da sala. Calculou que havia quatro
ou cinco indivduos sentados em torno de uma mesa que
277-
ocupava a maior parte do espao, mas a sua ateno concentrou-se num homem alto, de cabelos
cortados rente, barba curta e ponteaguda como a de um marinheiro, o qual estava sentado 
cabeceira da mesa, tendo uns papis  sua frente. Lanou um olhar ao recm-chegado e, com
pronncia correcta mas estranhamente precisa, que chamou a ateno de Tommy, perguntou:
O seu nmero, companheiro?
- Catorze, chefe respondeu o outro.
 Est certo.
A porta tornou a fechar-se.
Se este sujeito no  alemo, eu sou holandsdisse Tommy de si para consigo. E os homens tm
nmeros que so anotados e verificados! Por sorte no tentei entrar na sala. Teria dado um nmero
errado e seria o diabo! No, o meu lugar  aqui mesmo. Ol, vem a outro conviva!
Este novo visitante diferia radicalmente do ltimo. Tommy percebeu logo que se tratava de um
membro do Sinn Fein, o partido revolucionrio irlands. Sem dvida, a organizao de Mr.
Brown era uma empresa de vasto raio de aco. O criminoso comum, o gentleman irlands, o
russo lvido e o eficiente mestre de cerimnias alemo! Na verdade, que bando estranho e sinistro!
Quem era o homem que fechava na sua mo a curiosa variedade de elos de uma cadeia
desconhecida ?
com o novo visitante repetiu-se a mesma cena. A batida na porta, a exigncia do nmero e a
resposta: Est certo.
Duas pancadas se repetiram em rpida sucesso na porta de baixo. O primeiro dos homens que
ento chegaram era de todo desconhecido de Tommy, que presumiu tratar-se de um empregado de
escritrio. Era um indivduo silencioso, de fisionomia inteligente, vestido com muita modstia. O
segundo pertencia  classe operria e o seu rosto pareceu vagamente familiar a Tommy.
Trs minutos depois chegou outro, um homem de aspecto autoritrio, vestido bizarramente,
evidenciando ser pessoa bem nascida. Mais uma vez, Tommy julgou que esta fisiono-
270
mia no lhe era estranha, embora de momento no pudesse recordar o nome da nova personagem.
A isto seguiu-se longo lapso de espera. Por tal motivo, Tommy concluiu que o grupo se completara;
e estava para emergir, com toda a cautela, do seu esconderijo, quando novas pancadas  porta o
fizeram recuar.
O novo recm-chegado subiu as escadas com tanta discreo que chegou quase ao p de Tommy
antes que o rapaz desse pela sua presena.
Era um homem alto, muito plido, com uns ares gentis, quase femininos. O ngulo dos malares
denunciava-lhe a ascendncia eslava, mas no havia qualquer outro sinal que lhe indicasse a
nacionalidade. Ao passar pelo esconderijo de Tommy, voltou a cabea vagarosamente. Os olhos, de
estranho brilho, pareciam chamejar atravs da cortina; Tommy mal podia crer que o homem
ignorasse a sua presena ali e, a seu pesar, teve um estremecimento. No era mais imaginativo que a
maioria dos rapazes ingleses, porm, no se pde furtar  impresso de que uma fora de
extraordinria potncia emanava do homem. Aquele indivduo lembrava-lhe uma serpente
venenosa.
Um instante depois a impresso confirmou-se. O recm-chegado bateu  porta do mesmo modo que
os outros, porm, a sua recepo foi diferente. Ao v-lo, o homem da barba levantou-se, no que foi
imitado por todos os demais. O alemo avanou para o receber com um aperto de mo. Bateu os
taces.
 uma honra para ns disse. Uma grande honra. Julguei que no seria possvel.
O outro respondeu em voz baixa e um pouco sibilante:
Surgiram dificuldades. Outra vez ser impossvel. Uma reunio, porm,  essencialpara
definir a minha poltica. Nada posso fazer sem Mr. Brown. Ele est c?
com perceptvel alterao no timbre de voz, o alemo respondeu aps ligeira hesitao:
Recebemos um recado. -lhe impossvel estar presente, em pessoa. Calou-se, dando a curiosa
impresso de haver deixado a frase incompleta.
279
Um sorriso lento distendeu o rosto do interlocutor. Olhou em torno e viu um crculo de fisionomias
inquietas.
Ah! Compreendo. Li algo sobre os seus mtodos. Ele age na sombra e no confia em ningum.
Mesmo assim,  possvel que ele esteja entre ns, agora... Olhou em torno mais uma vez; e mais
uma vez aquela expresso de susto se estampou no rosto dos homens. Cada um deles parecia mirar
o vizinho com desconfiana.
O russo bateu ao de leve na face.
Assim . Continuemos.
O alemo, ao que parecia, tambm estava abalado. Indicou o lugar que ocupara  cabeceira da mesa.
O russo ops objeces, mas o outro insistiu.
 o nico lugar possvel disse para o Nmero Um, O Nmero Catorze poder fechar a porta?
Instantes depois, Tommy tinha mais uma vez diante de si os painis da porta, de madeira nua, e as
vozes no interior declinavam para um murmrio indistinto. Tommy impacientou-se. com a conversa
que escutara recrudescera-lhe a curiosidade. Entendia que precisava de ouvir mais.
De baixo no vinha rumor algum e no parecia provvel que o porteiro subisse a escada. Depois de
escutar atentamente por um minuto ou dois, enfiou a cabea para fora da cortina. O corredor estava
deserto. Agachou-se, tirou os sapatos, colocou-os por trs da cortina e, conservando as meias nos
ps, avanou cautelosamente e, ajoelhando-se junto  porta fechada, encostou o ouvido  fresta.
com enorme espanto, no conseguiu ouvir quase nada; apenas uma palavra ocasional, aqui e ali,
quando uma voz se alteava, o que servia apenas para lhe exacerbar ainda mais a curiosidade.
Olhou para a maaneta da porta, pensando numa tentativa. Poderia rod-la aos poucos de maneira
to suave e imperceptvel que l dentro ningum o notasse? Convenceu-se de que, com muito
cuidado, poderia faz-lo. com a maior lentido, fez girar a maaneta, contendo a respirao. Um
pouco mais... mais um pouquinho ainda... nunca chegaria ao fim? Ah! Afinal, completou a volta.
280
Deteve-se por um ou dois minutos para respirar profundamente e fez leve presso para abrir. A
porta no se moveu. Tommy perturbou-se. Se empregasse muita fora era quase certo que
produziria um rangido. Esperou at que o rumor das vozes se fizesse mais intenso e realizou nova
tentativa. Nenhum resultado obteve, ainda dessa vez. Aumentou a presso. A maldita porta estaria
colada ? Por fim, em desespero, empurrou-a com toda a fora. Mas a porta permaneceu firme e s
ento descobriu a verdade. Estava fechada por dentro. Por instantes, a indignao impediu-o de
tomar qualquer outra iniciativa.
Ora!  de enlouquecer! disse. Que logro idiota! Serenada a clera, preparou-se para encarar a
situao. Era claro que a primeira coisa a fazer era repor a maaneta na primitiva posio. Se a
largasse de repente, os homens, l dentro, perceb-lo-iam; por isso, com a mesma penosa pacincia,
inverteu a tctica h pouco empregada. Tudo decorreu bem e. com um suspiro de alvio, o rapaz
ps-se de p. Tencionava escutar ainda o que discutiam na sala fechada. Se um plano falhara, cabialhe
descobrir outro.
Lanou um olhar em torno. Ao longo do corredor, havia outra porta  esquerda. Avanou para ela
em passadas silenciosas. Ficou  escuta por instantes, depois experimentou a maaneta. A porta
cedeu e ele entrou.
Achou-se numa sala desocupada, com moblia de quarto. Como tudo o mais, naquela casa, os
mveis estavam a cair aos pedaos.
Mas o que interessou Tommy foi encontrar ali o que esperava: uma porta de comunicao entre os
dois aposentos,  esquerda da janela. com todo o cuidado, fechou a porta do corredor atrs de si,
aproximou-se da outra e examinou-a atentamente. Estava fechada  chave. A fechadura, bastante
ferrugenta, indicava que estivera fora de uso por algum tempo. Num movimento muito suave, para
um e outro lado, Tommy conseguiu faz-la funcionar sem demasiado rudo. Depois, repetiu a
primitiva manobra com a maaneta desta vez com xito integral. Abriu a porta uma fresta, apenas,
mas o
281
suficiente para ouvir. Havia uma portire de veludo no lado interno da porta que o impedia de ver o
que se passava, mas podia reconhecer as vozes com razovel preciso. Falava o partidrio do Sinn
Fein. A tonalidade irlandesa da sua voz era inconfundvel.
Tudo isso est muito bem. Mas  preciso mais dinheiro. No havendo dinheiro, no h resultados!
Outra voz, que Tommy julgou ser a de Boris, replicou:
Voc garante que haver resultados?
Daqui a um msmais cedo ou mais tarde, conforme queiramhaver uma tal onda de terror na
Irlanda que abalar o Imprio Britnico.
Seguiu-se uma pausa e depois soaram as palavras macias e sibilantes do Nmero Um:
bom! Voc ter o dinheiro. Boris, providencie nesse sentido.
Boris formulou uma pergunta:
Por intermdio dos irlando-americanos e de Mr. Potter, como de costume?
Creio que sim! disse outra voz, com intonao transatlntica. Apesar de que eu gostaria de
avisar aqui e neste momento que as coisas esto a ficar difceis. J no contamos com a mesma
simpatia de outrora e acentua-se a tendncia de deixar os Irlandeses resolverem os seus prprios
assuntos, sem interferncia da Amrica.
Tommy presumiu que Boris encolhera os ombros ao responder:
Que importa, uma vez que o dinheiro s nominalmente vem dos Estados Unidos?
A dificuldade maior  o desembarque de muniesdisse o revolucionrio irlands. O dinheiro
transporta-se com bastante facilidade graas aqui ao nosso colega.
Outra voz, que Tommy calculou ser do homem alto com ares autoritrios, cujo rosto lhe parecera
familiar, disse:
Aluda aos sentimentos de Belfast, se eles o escutarem!
- Ento essa parte est resolvida disse a voz sibilante.
282
Agora, quanto  questo do emprstimo a um jornal ingls, voc arranjou tudo satisfatoriamente,
Boris?
Creio que sim.
Bem. Vir um desmentido oficial de Moscow, se for necessrio.
Mais uma pausa e depois a voz clara do alemo interrompeu o silncio:
Recebi instrues de Mr. Brown para apresentar ao senhor os resumos dos informes dos diversos
sindicatos. Esse dos mineiros  bastante satisfatrio. Temos de embaraar os caminhos de
ferro. Poder haver complicaes.
Por longo tempo reinou silncio, interrompido apenas pelo rumor dos papis e uma ocasional
palavra de explicao do alemo. Depois, Tommy ouviu o leve crepitar de dedos tamborilando na
mesa.
E... a data, meu amigo?perguntou o Nmero Um.
Dia 29.
Dir-se-ia que o russo estava a ponderar.
 muito cedo.
Eu sei, mas foi decidido pelos principais lderes trabalhistas e no convm dar a ideia de que
interferimos demais. Eles devem acreditar que o negcio  s deles.
O russo riu frouxamente, como que divertido.
Sim, sim declarou. Isso  verdade. No devem suspeitar que nos utilizamos deles para atingir os
nossos objectivos. So homens honestos e a  que reside o seu valor para ns.  interessante... mas
no se pode fazer uma revoluo sem homens honestos. O instinto do povo  infalvel.
Calou-se, e depois repetiu, como se a frase lhe agradasse: Toda a revoluo tem os seus homens
honestos. Depois, so depostos sem demora.
A sua voz tomara uma inflexo sinistra.
Clymes deve desaparecer. V longe demais. O Nmero Catorze cuidar disso.
Seguiu-se um murmrio rouco.
Muito bem, chefe. E, ao cabo de alguns instantes:
E se me apanharem?
283
Ter os advogados mais inteligentes empenhados na sua defesa replicou o alemo calmamente.
Mas, por via das dvidas, voc usar umas luvas que deixam as impresses digitais de um
conhecidssimo arrombador. No h motivo para receio.
Oh, no tenho medo, chefe. Tudo pela causa. O sangue correr nas ruas, disseram. Falou num
tom temvel. s vezes sonho com isso. Diamantes e prolas rolando na sarjeta para quem quiser
apanh-los!
Tommy ouviu arrastarem uma cadeira. O Nmero Um falou:
Ento, est tudo combinado. Podemos ter a certeza do sucesso
Eu... creio que sim. Mas o alemo falou com menos confiana que de costume.
A voz do Nmero Um adquiriu de sbito uma entonao perigosa:
Que se pode temer?
Nada, mas...
Mas... o qu?
Os lderes trabalhistas. Sem eles, nada podemos fazer. Se eles no declararem a greve geral no dia
29...
Porque no ho-de declar-la?
Como o senhor disse, so honestos. E, a despeito de tudo o que fizemos para desacreditar o governo
a seus olhos, no estou certo de que eles no possuam confiana nos governantes.
Mas...
Eu sei. Os abusos no cessam. Mas em geral, a opinio pblica pende para o lado do governo.
Mais uma vez, os dedos do russo tamborilaram na mesa. Vamos ao caso, meu amigo. Disseram-me
que h um certo documento cuja existncia nos garante o xito.
Assim . Exibindo-se o documento aos lderes, o resultado seria imediato. Eles divulg-lo-iam por
toda a Inglaterra e tomariam o partido da revoluo sem hesitao. O governo seria afinal
derrubado.
284
Ento, que mais quer?
Quero o documento respondeu o alemo bruscamente.
Ah! No est em seu poder? Mas sabe onde se encontra?
No.
Ningum sabe? -,
Uma s pessoa talvez.
Quem  essa pessoa? Uma rapariga.
Tommy continha a respirao.
Uma rapariga?A voz do russo adquiriu um tom de desprezo. E no a obrigaram a falar?
Este caso  diferente disse o alemo, soturno.
Como? Diferente? Calou-se um momento, depois prosseguiu: Onde se encontra a pequena
agora?
A pequena? ,
Sim. -Est...
Mas Tommy no pde ouvir mais. Uma forte pancada na cabea e tudo mergulhou na sombra.
285
IX-TUPPENCE EMPREGA-SE COMO CRIADA
Quando Tommy partiu na pista dos dois homens, Tuppence apelou para toda a sua capacidade de
autodomnio afim de se abster de o acompanhar. Todavia, conteve-se o melhor que pde,
consolando-se com a ideia de que os acontecimentos confirmavam os seus raciocnios. Os homens
haviam sem dvida sado do apartamento do segundo andar e aquele frgil indcio do nome Rita
colocara mais uma vez os Jovens Aventureiros na pista dos raptores de Jane Finn.
O problema agora consistia em descobrir o que convinha fazer. Tuppence odiava a inaco. Tommy
encontrara ocupao e, impossibilitada de se reunir a ele, a jovem sentia-se como uma alma perdida.
Voltou at ao vestbulo da entrada do edifcio de apartamentos. Ali encontrava-se agora o pequeno
do elevador, ocupado em polir as peas de lato.
O garoto relanceou um olhar a Tuppence, quando ela entrou. Talvez a jovem conservasse uns restos
do esprito infantil, mas o certo  que sempre se saa bem ao lidar com crianas. Dir-se-ia que um
vnculo de simpatia se estabelecia instantaneamente. Ela reflectiu que um aliado no campo do
inimigo, por assim dizer, no era para desprezar.
Ol, William disse alegremente. Isso est a ficar brilhante, hein?
O pequeno sorriu. Albert, miss corrigiu.
Albert, seja disse Tuppence. Olhou com uns ares de mistrio ao redor do vestbulo. Inclinou-se para
o garoto e falou em tom de segredo:
286
Preciso dizer-lhe uma coisa, Albert.
Albert interrompeu o servio e entreabriu a boca.
Olhe! Sabe o que  isto? com um gesto dramtico, abriu a aba esquerda do casaco e exibiu uma
pequena insgnia de metal. Era muito pouco provvel que Albert soubesse o que significava aquilo e
se o soubesse teria sido fatal para os planos de Tuppence, pois a insgnia em questo no passava de
um distintivo de um corpo de treino fundado pelo arcediago nos primeiros dias da guerra. A sua
presena no casaco de Tuppence devia-se ao facto de o utilizar para prender flores. Mas os olhos
aguados de Tuppence entreviram uma novela policial barata a emergir parcialmente de um bolso
de Albert e o seu imediato arregalar de olhos convenceu-a de que a tctica servia e que o
peixinho ia morder a isca.
Fora Americana de Detectives! ciciou a jovem. Albert deixou-se empolgar.
Deus do Cu! murmurou em xtase.
Tuppence fez um sinal de cabea para ele, com o ar de quem estabeleceu entendimento perfeito.
Sabe quem procuro? perguntou com a maior amabilidade.
Albert, ainda de olhos esgazeados, indagou sem flego:
Algum dos apartamentos?
Tuppence fez um sinal afirmativo com a cabea e apontou para as escadas.
Do n. 20. Chama-se Vandemeyer. Vandemeyer! Ah! Ah!
A mozita de Albert enterrou-se no bolso.
Uma ladra? perguntou com ansiedade.
Ladra? Sim... Rita Perigosa  como lhe chamam nos Estados Unidos.
Rita Perigosa repetiu Albert em delrio. Oh,  como no cinema!
Certamente. Tuppence era frequentadora assdua do cinema.
Annie afirma que ela  mcontinuou o rapaz.
Quem  Annie? perguntou Tuppence.
287
A criada. Ela vai-se embora hoje. Muitas vezes Annie me disse: Tome nota do que lhe digo, Albert
no me admiraria se a polcia viesse procur-la qualquer dia destes. Como veio a acontecer agora.
Mas quem olha para ela fica encantado.
Sim, ela  bonita declarou Tuppence descuidadamente.
Isso  de utilidade para os seus planos, voc compreende. A propsito, ela no tem usado umas
esmeraldas? ,
Esmeraldas? Umas pedras verdes, no ? , Tuppence acenou afirmativamente com a cabea. .,
Por isso  que andamos a procur-la. Conhece o velho Rysdale ?
Albert abanou a cabea.
Peter B. Rysdale, o rei do petrleo?
Parece que o nome no me  estranho.
So dele as pedras. A mais preciosa coleco de esmeraldas do Mundo. Vale um milho de dlares!
Ufa!foi a exclamao exttica de Albert. Cada vez se parece mais com o cinema.
Tuppence sorriu, satisfeita com o xito dos seus esforos.
Ainda no dispomos de provas concludentes. Mas estamos na pista da mulher. E piscou um olho
significativamente
creio que ela no escapar desta vez.
( Albert soltou outra exclamao de deleite.
Agora, tome cuidado, rneu pequeno disse Tuppence.
Sobre este assunto, nem uma palavra a ningum. No sei se fiz bem em lhe contar, mas nos Estados
Unidos conhecemos um rapaz inteligente ao primeiro olhar.
No direi uma slaba prometeu Albert com ardor.
E no haver alguma coisa que eu possa fazer? Espiar, talvez ?
Tuppence fingiu reflectir, depois abanou a cabea.
De momento, no. Mas, sendo preciso, no me esquecerei de si, filho. E a respeito da pequena que
voc disse que se vai embora?
Annie? com essa patroa as criadas no param. Como disse Annie, as criadas hoje em dia j so
algum e tm de ser
288
mais bem tratadas. E, como ela se encarrega de espalhar a m fama da patroa, no ser fcil arranjar
outra. No? disse Tuppence, pensativa. Eu acho...
Esboava-se-lhe uma ideia na mente. Pensou um ou dois minutos, depois bateu no ombro de Albert.
Olhe, meu filho! E se voc dissesse que tem uma prima que podia ocupar o lugar?
Por certo respondeu prontamente Albert. Deixe isso por minha conta, miss!
Voc tem qualidades! comentou Tuppence com um gesto de aprovao. Diga que a prima pode vir
imediatamente. Avise-me e, se tudo correr bem, virei amanh s onze.
E onde poderei avis-la?
Ritzreplicou Tuppence lacnicamente. Pelo nome de Cowley.
Albert contemplou-a com inveja.
Deve ser bom emprego, esse de detective.
Est visto que  disse Tuppence especialmente quando o velho Rysdale paga as despesas.
Mas no se aflija. Se isto correr bem, voc pisar o primeiro degrau.
com essa promessa, despediu-se do novo aliado e retirou-se de South Audley Mansions, bastante
satisfeita com o trabalho da manh.
Entretanto, no havia tempo a perder. Voltou ao Ritz e escreveu breves palavras a Mr. Carter.
Remetido o bilhete e uma vez que Tommy no regressara o que no a surpreendia resolveu sair para
fazer umas compras. Afora um intervalo para um ch com biscoitos, as lojas ocuparam-na at muito
depois das seis horas, quando voltou ao hotel, cansada mas satisfeita com as suas compras.
Comeando numa casa de artigos de vesturio baratos e passando por um ou dois estabelecimentos
de mercadorias em segunda mo, terminou o seu dia num conhecido cabeleireiro. A aquisio feita
nesse ltimo estabelecimento foi a que primeiro examinou, logo ao chegar ao quarto. Cinco minutos
depois, sorria satisfeita ao
19 - VAMP. G. 1
289
mirar a prpria imagem no espelho. com um lpis de actriz alteara ligeiramente a linha das sobrancelhas; e
isto, apreciado em conjunto com um novo e luxuriante chapu no alto da cabea, transformava-lhe de tal
maneira a fisionomia que estava certa de que mesmo encontrando Whittington frente a trente ele no a
reconheceria. Usaria sapatos com saltos mais altos e a touca e o avental constituiriam ainda disfarces 
mais
valiosos.
O jantar foi uma refeio solitria. Tuppence surpreendia-se um pouco com a demora de Tommy. Julius
ausentara-se tambm, o que, no entender de Tuppence, se explicava mais facilmente. As dinmicas
actividades do americano no se restringiam a Londres e os Jovens Aventureiros aceitavam-lhe as 
bruscas
aparies e desaparies como parte do trabalho dirio. No seria inadmissvel que Julius P. Hersheimmer
houvesse de repente seguido para Constantinopla se imaginara que l encontraria a pista da priminha
desaparecida. O enrgico rapaz j conseguira tornar a vida insuportvel a numerosos homens da Scotland
Yard e as telefonistas do Almirantado conheciam agora muito bem o seu familiar alo!, que as deixava em
pnico. Ele passara trs horas em Paris importunando a perfeitura e voltara a com a ideia de que a 
verdadeira
pista do mistrio se encontraria na Irlanda.
Suponho que ele agora partiu para l pensou Tuppence. Aqui estou eu transbordante de novidades e sem 
ter
ningum a quem possa cont-las! Tommy podia ter telegrafado. Onde teria ele ido ? De qualquer forma, 
com
certeza no perdeu a pista, como ele diz. Isto faz-me lembrar... E Miss Cowley interrompeu as suas
meditaes e chamou um garoto do hotel.
Dez minutos mais tarde a dama, que mergulhara confortvelmente no leito, fumava cigarros e absorvia-se 
na
leitura de Garnaby Williams, o menino detective que, com outros livros baratos de fico fantstica, 
mandara
comprar. Ela sentia, e com razo, que antes do esforo de tentar relaes mais intimas com Albert, 
convinha
munir-se de um bom sortido de cor local.
290
Pela manh, veio um bilhete de Mr. Carter:
Prezada Miss Tuppence:
A senhora fez um trabalho esplndido e apresento-lhe os meus parabns. Contudo, gostaria de lembrar os 
perigos a que
se expe, em especial se prosseguir no caminho que indicou. Aquela gente  incapaz de misericrdia ou 
piedade. J nos
proporcionou informaes de valor e se resolver retirar-se agora ningum a censurar. De qualquer modo, 
pense muito
bem no caso antes de decidir.
Se, apesar das minhas advertncias, resolver continuar, encontrar tudo arranjado. A senhora morou dois 
anos com Miss
Dujferin, da manso The Parsonage, em Llanelly,  qual Mrs. Vandemeyer pode dirigir-se para pedir 
referncias.
Permite-me uma ou duas palavras de conselho? Conserve-se to prxima da verdade quanto possvel, 
reduzir ao
mnimo o perigo de escorregadelas. Sugiro que diga ser o que de facto , uma ex-voluntria dos servios 
de guerra,
que escolheu os servios domsticos como profisso. H muitas em idntica situao no presente 
momento. E assim ser
explicvel qualquer incongruncia na conversa ou nas maneiras, o que de outro modo despertaria 
suspeitas.
Qualquer que seja a resoluo que tomar, aceite os meus votos de felicidades.
Seu amigo sincero,
Mr. Carter
O entusiasmo de Tuppence dilatou-se como mercrio. No deu apreo s advertncias de Mr.
Carter. Depositava demasiada confiana em si mesma para que desse ouvidos a conselhos.
com alguma relutncia, ps de lado o seu projecto de encarnar na vida real uma personagem da sua
prpria inveno, de acordo com a interessante histria que imaginara. Embora no tivesse a
mnima dvida quanto  sua capacidade de desempenhar o papel, dispunha de bom senso suficiente
para reconhecer a fora dos argumentos de Mr. Carter.
291
No chegara ainda nenhum recado de Tommy; mas, pela manh, o correio trouxera um postal
bastante sujo contendo as palavras: Tudo bem.
As dez e meia, Tuppence examinava com orgulho um ba de folha, contendo os seus novos
pertences. A caixa estava artisticamente amarrada com uma corda. Foi com leve rubor que tocou a
campainha e ordenou que colocassem o ba num taxi. Seguiu no carro para a estao de Paddington
e deixou a caixa no depsito de bagagens. Depois, com uma maleta na mo, encaminhou-se para o
lavabo das senhoras. Dez minutos depois, uma Tuppence metamorfoseada abandonava gravemente
a estao e tomava o nibus.
Eram onze e dez quando Tuppence entrou mais uma vez no vestbulo de South Audley Mansions.
Albert estava de atalaia, cumprindo as suas obrigaes de forma um pouco irregular. No
reconheceu Tuppence imediatamente. Quando percebeu de quem se tratava, no disfarou o
assombro.
Macacos me mordam se a conheci! Isto  um colosso!
Alegra-me que voc tenha gostado replicou Tuppence
modestamente. E que me diz: sou sua prima ou no?
At a voz modificou! exclamou o rapazinho extasiado. Nem parece americana! No, disse que um
conhecido meu tinha uma amiguinha. Annie no gostou muito. Ela resolveu ficar na casa at hoje.
Diz ela que por obrigao, mas no  seno para lhe falar mal da patroa.
Bela pequena disse Tuppence. Albert no percebeu a ironia.
 uma pequena elegante e sabe mostrar os dentes, mas, c para mim, no tem muito bom gnio. A
senhora vai l agora, miss? Levo-a no elevador. N. 20, no? E o garoto piscou os olhos.
Tuppence admoestou-o com um olhar severo e entrou no elevador. Ao tocar a campainha no n. 20,
percebeu os olhinhos de Albert a descerem lentamente sob o nvel do soalho.
Uma rapariga veio abrir a porta.
Vim para tratar do emprego disse Tuppence.
 um emprego pavoroso declarou a rapariga sem hesi-
292
tao. O demnio da velhota implica com tudo. Acusou-me de bisbilhotar as cartas dela. Eu! Mas
retirou o insulto, em parte. E nunca mais deixou nada no cesto de papis: queima tudo. Traja bem,
mas no  uma pessoa distinta. A cozinheira sabe qualquer coisa a respeito dela, mas no diz nada
morre de medo. E como  desconfiada a velha! No perde de vista uma empregada que esteja a falar
com algum. Posso garantir-lhe...
Mas Tuppence no estava destinada a saber o que quer que fosse que Annie ia contar, pois nesse
momento uma voz clara, com um caracterstico timbre metlico, chamou:
Annie!
A esperta rapariga pulou como se lhe houvessem dado um tiro.
Pronto, patroa. 
com quem est a falar?
 a pequena que veio tratar do emprego, patroa.
Nesse caso, quero v-la. Imediatamente.
Pois sim, patroa.
Conduziu Tuppence a uma sala  direita do comprido corredor. De p, junto  lareira, estava uma
mulher. J passara h muito da primeira juventude e a beleza que inegavelmente possua tornara-se
spera e grosseira. Na mocidade fora com certeza deslumbrante. Os cabelos de ouro plido
desciam-lhe em caracis at ao pescoo; os olhos, de um penetrante azul, pareciam possuir a
faculdade de perfurar a alma da pessoa que fitavam. Envolvia-lhe a delicada figura um maravilhoso
vestido cor de anil. E todavia, apesar da sua graa embaladora, da beleza quase etrea do seu rosto,
sentia-se instintivamente a presena de algo inflexvel e ameaador.
Pela primeira vez Tuppence sentiu medo. No o sentira em presena de Whittington, mas com esta
mulher o caso era diferente. Como que fascinada, fitava a linha longa e cruel daquela boca vermelha
e sinuosa, e mais uma vez experimentou a mesma sensao de pnico. A habitual confiana em si
mesma abandonou-a. Vagamente, sentia que ludibriar esta mulher seria muito diverso do que
ludibriar Whittington. Veio-lhe  mente a advertncia de Mr, Carter. Aqui, com efeito, no poderia
esperar misericrdia.
Dominando a sensao de pnico que lhe aconselhava a voltar as costas e pr-se em fuga sem
demora, Tuppence enfrentou o olhar da dama, firme e respeitosamente.
Como que satisfeita com o primeiro exame a que submeteu a jovem, Mrs. Vandemeyer indicou uma
cadeira.
Sente-se. Como soube que eu precisava de uma criada ?
Por intermdio de um amigo que conhece o rapaz do elevador deste edifcio. Ele achou que o
emprego me serviria.
Mais uma vez, os olhinhos de pedra pareciam penetr-la.
Voc fala como uma rapariga de boa educao. com bastante fluncia, Tuppence discorreu sobre a
sua carreira imaginria, conforme as linhas gerais sugeridas por Mr. Carter. Teve a impresso, no
decorrer da narrativa, que afrouxava a tenso na atitude de Mrs. Vandemeyer.
Compreendoobservou por fim a mulher. H algum a quem eu possa escrever solicitando
referncias?
Ultimamente, morei com Miss Dufferin, da manso The Parsonage, em Llanelly. Estive l dois
anos.
Ento suponho que vem para Londres com a inteno de ganhar mais ? Bem, quanto a isso no me
importo. Pagar-lhe-ei cinquenta libras... ou sessenta... o que quiser. Pode comear imediatamente?
Hoje mesmo, se a senhora quiser. O meu ba est na estao de Paddington.
V busc-lo num taxi, ento. O servio no  muito. Passo fora de casa boa parte do tempo. A
propsito, como se chama ?
Prudence Cooper.
Muito bem, Prudence. V buscar a sua bagagem. Almoarei fora. A cozinheira lhe
mostrar o lugar das coisas.
Obrigada, patroa.
Tuppence retirou-se. A esperta Annie no estava  vista. No vestbulo de baixo, um imponente
porteiro relegara Albert para um plano inferior. Tuppence nem sequer olhou para ele ao sair com
toda a humildade.
A aventura comeara, mas ela sentia-se menos entusiasmada do que pela manh. Atravessou-lhe a
mente a ideia de que, se a desconhecida Jane Finn cara nas mos de Mrs. Vandemcyer, sem dvida
padecera bastante.
295
X - APARECE SIR JAMES PEEL EDGERTON
Tuppence no se mostrou desajeitada nos seus novos deveres. As filhas do arcediago eram bem
adestradas nas tarefas domsticas.
Tuppence, por conseguinte, pouco receava de se revelar ineficiente. A cozinheira de Mrs.
Vandemeyer deixava-a intrigada. Evidentemente, a mulher tinha um medo pnico da patroa. Mrs.
Vandemeyer esperava um hspede para o jantar e Tuppence preparou a reluzente mesa para dois.
Entretanto formulava as suas conjecturas sobre quem seria o visitante. com forte probabilidade,
talvez fosse WHITTINGTON. Conquanto se sentisse muito confiante de que ele no a
reconheceria, ficaria mais satisfeita se o conviva fosse absolutamente estranho.
Pouco depois das oito, retiniu a campainha da porta da frente e Tuppence foi abrir. Foi um alvio
verificar que o visitante era o segundo dos dois homens que Tommy se dispusera a seguir.
Deu o nome de Conde Stepanov. Tuppence anunciou-o e Mrs. Vandemeyer ergueu-se do div em
que se sentava, com um ligeiro murmrio de satisfao.
Que prazer, Boris Ivanovitch! disse ela.
Prazer maior  v-la, madame! Inclinou-se sobre a mo da dama.
Tuppence voltou para a cozinha.
O Conde Stepanov, ou outro que tal-observou e, afectando uma curiosidade franca e ingnua:
Quem  ele ?
Um cavalheiro russo, creio.
396
Vem aqui muitas vezes?
De quando em quando. Porque deseja saber?
Imaginei que ele talvez estivesse apaixonado pela patroa, nada maisexplicou a rapariga,
acrescentando, com mau humor aparente:Como voc  nervosa!
No estou muito tranquila a respeito do souffl explicou a outra.
Tu sabes alguma coisa pensou Tuppence consigo mesma; mas em voz alta disse apenas: Ponho no
prato agora? Muito bem.
Enquanto servia, Tuppence no perdia uma palavra da conversa. Lembrava-se de que aquele
homem era um dos que Tommy comeara a seguir da ltima vez que o vira. Agora, embora no o
quisesse admitir, principiava a preocupar-se por causa do scio. Onde estaria ele? Porque no
recebera dele uma palavra sequer ? Deixara instrues no Ritz para enviarem por mensageiro
especial todas as cartas e recados a uma papelaria das redondezas, onde Albert ia com frequncia.
Na verdade, fora apenas na vspera pela manh que se separara de Tommy e ela dizia consigo
mesma que seria absurda qualquer ansiedade sobre o procedimento do rapaz. Contudo, estranhava
que ele no lhe mandasse nem uma palavra.
Escutava o que podia, mas a palestra no oferecia pista alguma. Boris e Mrs. Vandemeyer
conversavam sobre assuntos triviais: peas de teatro que haviam visto, novas danas e os ltimos
mexericos da sociedade. Aps o jantar, dirigiram-se para o minsculo boudoir, onde Mrs.
Vandemeyer, estirada no div, parecia mais perversamente bela que nunca. Tuppence levou-lhes o
caf e os licores e retirou-se. Ao sair, ouviu Boris perguntar:
 nova aqui, no?
Veio hoje. A outra era um demnio. Esta pequena parece atilada.
Tuppence demorou-se mais um pouco junto  porta que, de propsito, no chegara a fechar por
completo, e ouviu-o dizer: . ,,
No haver perigo com ela?
297
Na verdade, Boris, voc chega a ser absurdo de to desconfiado. Parece-me que ela  prima do
porteiro do edifcio ou coisa que o valha. E ningum sonha sequer que eu tenha ligao com o nosso
amigo comumMr. Brown.
Pelo amor de Deus, tenha cuidado, Rita. Aquela porta no est bem fechada.
Pois ento feche-a riu-se a mulher. Tuppence movimentou-se com toda a velocidade.
No ousou afastar-se mais das traseiras da casa, mas levantou a mesa e lavou a loua com a
diligente rapidez adquirida no hospital. Depois, deslizou furtivamente para a porta do boudoir. A
cozinheira ocupava-se ainda na cozinha e, dando pela ausncia da outra, suporia apenas que ela
andava a passar revista aos quartos.
Oh! A conversa no interior do aposento mantinha-se num tom baixo demais para permitir que ela
ouvisse algo. No se atrevia a reabrir a porta. Mrs. Vandemeyer sentava-se quase defronte e
Tuppence respeitava a capacidade de observao dos olhos de lince da patroa.
Sem embargo, sentia-se disposta a pagar bom preo s para ouvir o dilogo. Talvez, se algo
imprevisto ocorrera, pudesse obter notcias de Tommy. Por momentos reflectiu desesperadamente;
depois o seu rosto iluminou-se. Avanou lpidamente pelo corredor at ao quarto de Mrs.
Vandemeyer, o qual possua portas que abriam para uma sacada que corria a todo o comprimento
do apartamento. Chegando  sacada, Tuppence agachou-se e arrastou-se sem rudo at alcanar a
janela do boudoir, a qual, como previra, estava entreaberta; assim, as vozes l dentro tornavam-se
claramente audveis.
Tuppence escutou com a maior ateno, mas no mencionaram nada que se pudesse relacionar com
Tommy. Mrs. Vandemeyer e o russo pareciam divergir em algum assunto e, por fim, o ltimo
exclamou amargamente:
com os seus descuidos persistentes, voc acabar por nos arruinar!
Ora!riu-se a mulher. A notoriedade da decncia 
298
o melhor meio de desarmar as suspeitas. Voc compreender isso talvez mais cedo do que pensa!
E, entrementes, voc vai a toda a parte com Peel Edgerton. Ele no  somente o mais famoso advogado da
Inglaterra! Tem especial predileco pela criminologia!  uma loucura!
A sua eloquncia tem salvo muita gente da forca disse Mrs. Vandemeyer com a maior calma. Talvez venha 
a
necessitar dos servios dele, nesse particular. Se tal acontecer, ser uma sorte contar com um amigo 
desses
para me defender.
Boris comeou a andar de um lado para o outro. Estava muito agitado.
Voc  uma mulher inteligente, Rita; mas, ao mesmo tempo,  tola! Guie-se por mim e ponha de lado Peel
Edgerton.
Mrs. Vandemeyer abanou a cabea, suavemente.
Creio que no.
Recusa?Havia um acento sinistro na voz do russo.
Sim.
Por Deus rosnou o russo. Veremos...
Mas Mrs. Vandemeyer tambm se ps de p, de olhos fuzilantes.
Voc esquece-se, Boris disse ela de que no estou subordinada a ningum. S recebo ordens de Mr. 
Brown.
O outro ergueu os braos, em desespero.
Voc  impossvelmurmurou. Impossvel! Talvez j seja tarde demais. Dizem que Peel Edgerton  capaz de
descobrir um criminoso pelo cheiro! Como saberemos o que se esconde por trs do seu repentino
interesse por voc ? Talvez ele j alimente suspeitas. Ele desconfia...
Mrs. Vandemeyer olhou-o com desdm.
Asseguro-lhe, meu caro Boris, de que ele de nada suspeita. Fugindo ao seu habitual
cavalheirismo, voc parece esquecer que me tm na conta de uma mulher bonita. Asseguro-lhe que
 s isso o que interessa a Peel Edgerton.
Boris abanou a cabea com ar de dvida.
299
Ele estudou o crime como nenhum outro homem neste reino. Voc pensa que o engana? -. , - ,
Mrs. Vandemeyer cerrou os olhos.
Se ele  tudo o que voc diz, gostaria imenso de experimentar!
Por Deus, Rita...
Alm dissoacrescentou Mrs. Vandemeyerele  extremamente rico. No sou das que desprezam
dinheiro. As foras da guerra, como voc sabe, Boris!
Dinheiro, dinheiro! Isso  um perigo, Rita. Voc venderia a alma por dinheiro. Acredito... Calou-se
e depois, num tom de voz baixo e sinistro, disse lentamente:s vezes, acredito que voc nos
venderia!
Mrs. Vandemeyer sorriu e encolheu os ombros.
O preo, em todo o caso, teria que ser enorme disse ligeiramente. Estaria alm das possibilidades
de pagamento de qualquer um, excepto um milionrio.
Ah! rosnou o russo. V que eu tinha razo?
Meu caro Boris, voc no entende um gracejo?
Era gracejo?
Claro,
Ento, tudo o que posso dizer  que as suas ideias de humor so bastante peculiares, minha prezada
Rita.
Mrs. Vandemeyer sorriu.
Deixemo-nos de discusso, Boris. Toque a campainha. Vamos beber qualquer coisa.
Tuppence bateu em retirada. Deteve-se um momento para se mirar no enorme espelho de Mrs.
Vandemeyer e certificou-se de que tudo estava bem na sua aparncia. Depois atendeu gravemente 
chamada.
A palestra que ouvira, apesar de interessante por comprovar sem margem de dvida a cumplicidade
de Rita e Boris, projectava bem pouca luz sobre as preocupaes do momento. Nem sequer se
haviam referido a Jane Finn.
Na manh seguinte, breves palavras trocadas com Albert informaram-na de que nada havia para ela
na papelaria. Parecia incrvel que Tommy, se tudo correra bem, no lhe
300
mandasse nem uma palavra. Sentiu como que uma mo de gelo apertar-lhe o corao... Quem
sabe...? Sufocou com bravura os seus temores. No devia preocupar-se. Mas pulou de contente com
uma oportunidade que lhe ofereceu Mrs. Vandemeyer.
Qual  habitualmente o seu dia de folga, Prudence?
Sempre foi  sexta-feira, patroa.
Mrs. Vandemeyer ergueu as sobrancelhas.
E hoje  sexta-feira! Mas no creio que voc queira sair hoje, visto que chegou ontem.
Eu ia pedir-lhe para sair, patroa.
Mrs. Vandemeyer olhou-a por um momento e depois sorriu.
Eu gostaria que o Conde Stepanov ouvisse isto. Ele ontem  noite fez uma sugesto a seu respeito.
O seu sorriso tornou-se mais largo, felino. O seu pedido  bastante tpico. Estou satisfeita. Voc no
compreende nada disto, mas pode sair hoje. No me faz diferena, porque no jantarei em casa.
Muito obrigada, patroa.
Tuppence experimentou uma sensao de alvio quando se viu livre da presena da mulher. Mais
uma vez reconhecia que tinha medo, um medo horrvel, da bela mulher dos olhos cruis.
Estava a limpar as pratas quando ouviu tocar a campainha da porta da frente e foi ver quem
chegava. Desta vez o visitante no era Whittington nem Boris, mas um homem de aspecto notvel.
De estatura pouco acima de mediana, dava sem embargo a impresso de um homem bastante alto.
No rosto escanhoado e estranhamente mvel estampava-se uma expresso de poder e fora muito
acima do comum. O magnetismo parecia irradiar-se dele.
Por instantes, Tuppence ficou sem saber se seria um actor ou um advogado, mas as dvidas
dissiparam-se quando ele declinou o nome: Sir James Peel Edgerton.
A jovem coutemplou-o com renovado interesse. Ento era
301
este o famoso causdico cujo nome era popular em toda a Inglaterra!
Tuppence, pensativa, voltou  copa. O grande homem impressionara-a. Compreendia a agitao de
Boris. Peel Edgerton no seria homem fcil de enganar.
Cerca de um quarto de hora depois, a campainha tilintou e Tuppence correu ao hall afim de
acompanhar o visitante. Antes de sair, ele dirigiu  jovem um olhar perscrutador.
- Ao alcanar-lhe o chapu e a bengala, percebeu que os olhos do homem a examinavam
cuidadosamente. Quando abriu a porta o homem parou no umbral.
Est aqui h pouco tempo, no?
Tuppence ergueu os olhos, atnita. Notou que no olhar do homem transparecia bondade e algo mais
difcil de penetrar.
Ele meneou a cabea como se a rapariga houvesse respondido.
Ex-voluntria, acossada pelas dificuldades, no  assim?
Mrs. Vandemeyer contou-lhe?perguntou Tuppence desconfiada.
No, minha filha. O seu olhar  que me contou.  bom o servio aqui?
Muito bom, obrigada, senhor.
Ah, mas h muitos bons empregos hoje em dia. Uma mudana, s vezes, no faz mal a ningum.
O senhor quer dizer... ?comeou Tuppence.
Mas Sir James j se encontrava na escada. Volveu para a jovem os olhos bondosos e perspicazes.
Apenas uma ideia disse ele. Eis tudo. Tuppence voltou para a copa, mais pensativa que nunca.
302
XI - JULIUS CONTA UMA HISTRIA
Trajada adequadamente, Tuppence saiu para gozar a sua tarde de folga. Como Albert no estava
de servio quela hora, Tuppence foi pessoalmente  papelaria para se certificar de que nada
chegara para ela. Verificado esse ponto, correu para o Ritz. A fez indagaes e soube que Tommy
no voltara ainda. Era a resposta que esperava, mas no deixava de ser mais um prego no esquife
das suas esperanas. Resolveu apelar para Mr. Carter, contando-lhe onde e quando Tommy iniciara
as suas pesquisas e pedindo-lhe para fazer algo no sentido de descobrir o rapaz. A perspectiva do
auxlio de Mr. Carter restituiu-lhe o nimo expansivo e, a seguir, perguntou por Julius P.
Hersheimmer. Em resposta, disseram-lhe que o americano regressara ao hotel cerca de meia hora
antes, mas tornara a sair em seguida.
Tuppence reanimou-se ainda mais. Ver Julius j seria alguma coisa. Talvez ele tivesse um plano
para descobrirem o que era feito de Tommy. Escreveu o bilhete a Mr. Carter na sala de estar de
Julius e estava a met-lo no envelope quando a porta se abriu bruscamente.
Que diabo!... comeou Julius, mas conteve-se abruptamente. Desculpe, Miss Tuppence. Aqueles
idiotas l de baixo disseram-me que Beresford no est... que no aparece desde quarta-feira. 
verdade?
Tuppence fez um sinal afirmativo com a cabea.
Voc no sabe onde  que ele est?perguntou ela com desnimo.
303
Eu ? Como posso saber ? No recebi uma nica palavra dele, embora lhe tenha telegrafado ontem
pela manh.
Creio que o seu telegrama se encontra intacto na portaria.
Mas onde est ele?
No sei. Julguei que voc soubesse.
J lhe disse que no recebi uma s palavra dele, desde que nos separmos na estao, quarta-feira.
Qual estao?
Waterloo. Linha de Londres e Sudoeste. Waterloo?fez Tuppence, franzindo a testa. < Sim. Ele no
lhe contou nada?
No o vi maisreplicou Tuppence, impaciente. Continue a falar sobre a estao. Que faziam l
?
Ele chamou-me pelo telefone. Pediu-me para ir l depressa. Disse que estava a seguir dois
piratas.
Oh!exclamou Tuppence, arregalando os olhos. Compreendo. Continue.
Sa a toda a pressa. Beresford estava l. Mostrou-me os dois tratantes. Encarreguei-me de seguir o
mais alto, o sujeito que voc ludibriou. Tommy meteu-me uma passagem na mo e mandou-me
embarcar. Ele perseguiria o outro patife. Julius fez uma pausa. Eu tinha como certo que voc sabia
de tudo isto.
Juliusdisse Tuppence com firmeza. Pare com essas caminhadas de l para c. Deixa-me aturdida.
Sente-se naquela poltrona e conte-me a histria toda com o mnimo possvel de rodeios.
Mr. Hersheimmer obedeceu.
Clarodisse ele. Por onde devo comear?
De onde partiu. Waterloo. !
Bem principiou Julius. Alojei-me num dos antiquados compartimentos de primeira classe. A
composio comeava a movimentar-se. A primeira coisa que me aconteceu  que veio um guarda
informar-me com a maior polidez de que no podia fumar. Dei-lhe meio dlar e as coisas
arranjaram-se. Olhei para o corredor e na carruagem seguinte,
304
Whittington l estava muito lampeiro. Quando vi o malandro, com a sua cara gorda e lisa, e
imaginei a pobrezinha da Jane nas suas garras, senti no levar o revlver comigo. Teria dado cabo
do patife.
Chegmos sem novidade a Bournemouth. Whittington tomou um carro e deu o nome de um hotel.
Fiz o mesmo e chegmos com trs minutos de diferena um do outro. Alugou um quarto e eu outro.
At agora tudo correra com facilidade. Ele no tinha a mais remota noo de que algum o seguia.
Conservou-se no hall do hotel, a ler jornais at  hora do jantar. No revelava pressa ou
preocupao.
Pensei que ele viajasse apenas por motivos de sade, mas recordei que o homem no mudara de
fato para o jantar, embora o hotel se considerasse de primeira ordem, e julguei bastante provvel
que planeasse sair logo em seguida para tratar do assunto que na realidade o levara ali.
com toda a calma, s nove horas, pouco mais ou menos, ele saiu. Tomou um carro que atravessou
a cidade e depois pagou a corrida e comeou a andar ao longo dos pinheiros no topo do penhasco.
Eu seguia-o,  claro. Caminhmos, talvez, durante meia hora. Passmos por muitas casas de campo
no caminho, as quais gradativamente se tornavam mais afastadas umas das outras e, no fim,
chegmos a uma que parecia a ltima. Era uma casa grande, cercada de pinheiros.
A noite estava muito escura e o carreiro que levava  casa estava envolvido em completa
escurido. Eu podia ouvir o homem  minha frente, embora no o pudesse ver. Dobrei uma curva e
vi-o tocar a campainha e entrar na casa. Comeou a chover e dentro em pouco achava-me ensopado
como um pinto. O frio tornava-se cruel. Whittington no voltara a aparecer e, aos poucos, fui-me
impacientando e comecei a caminhar pelas redondezas. Todas as janelas do pavimento trreo se
achavam bem trancadas, mas no primeiro andar (a casa era de dois andares) notei uma janela
iluminada, cujas gelosias no estavam descidas.
Em frente da janela erguia-se uma rvore. Esta ficava
20. VAMP. G. 1
303
talvez a uns trinta ps distante da casa, e veio-me  cabea a ideia de que se eu trepasse  rvore
poderia enxergar o interior da sala iluminada.  claro que eu no via razo para que Whittington se
encontrasse exactamente naquela sala e no noutra qualquer o mais certo, na verdade,  que ele
estivesse numa das salas de visitas. Comecei a subir.
No era fcil a proeza! A chuva tornara os galhos muito escorregadios e encontrava com muita
dificuldade um lugarzinho para firmar o p. Mas aos poucos, muito devagar, fui trepando, at
chegar ao nvel da janela.
Mas fiquei desapontado. O ponto em que me colocara ficava muito desviado para a esquerda. Eu
s podia olhar obliquamente para a sala. Um pedao de cortina e uma jarda de papel de parede era
tudo o que eu enxergava. De nada me valera o sacrifcio, e j estava prestes a desistir e descer
ignominiosamente ,quando algum se moveu no interior da sala e projectou a sua sombra no trecho
de parede ao alcance dos meus olhos e, com todos os diabos, era Whittington!
Depois disso, o meu sangue correu mais depressa. Notei, ento, que havia um galho comprido que
se prolongava para a direita. Se eu conseguisse arrastar-me at  metade do galho, o problema
estaria resolvido. Mas no tinha muita certeza de que resistisse ao meu peso. Resolvi arriscar-me.
com o maior cuidado, polegada a polegada, rastejei ao longo do galho, que estalou e oscilou de uma
maneira bastante desagradvel, mas consegui chegar so e salvo ao ponto que queria alcanar.
A sala era de tamanho mdio, mobilada de maneira sbria e higinica. Ao centro, havia uma mesa
com uma lmpada, junto da qual se sentava Whittington. Conversava com uma enfermeira. Ela
estava sentada com as costas voltadas para mim e no lhe podia ver o rosto. Embora as gelosias se
achassem levantadas, os vidros da janela estavam fechados, no me permitindo apanhar uma s
palavra do que diziam. Ao que parecia, era Whittington quem falava e a mulher limitava-se a
escutar. De quando em quando, inclinava a fronte ou abanava a cabea, como que a responder a
perguntas. Ele
306
parecia muito enftico: uma ou duas vezes bateu com o punho na mesa. A chuva cessara e o cu 
principiava a
clarear, de maneira repentina, como s vezes acontece.
Julguei que a conversa chegava ao fim. Whittington ergueu-se e a mulher imitou-o. Ele avanou para a
janela e perguntou qualquer coisa  mulher suponho que indagou se ainda chovia. O certo  que ela 
tambm
se aproximou e olhou para fora. Nesse instante, a lua surgia numa aberta das nuvens. Receei que a mulher 
me
visse, pois o luar batia-me em cheio. Tentei recuar um pouco. O movimento que fiz foi muito forte para
aquele galho velho e podre. com um ruidoso estalo, o galho veio abaixo e com ele a pessoa de Julius P.
Hersheimmer!
Oh, Julius! exclamou Tuppence. sensacional! Continue.
Bem, por sorte mergulhei num canteiro de terra macia, mas mesmo assim era o bastante para me pr fora 
de
aco por algum tempo. Depois disso, a primeira coisa que recordo  que dei por mim num leito, com uma
enfermeira (no aquela de Whittington) ao meu lado e um homenzinho de barba negra e culos de aros de
ouro, o tipo acabado de mdico, do outro lado. Ele esfregou as mos e ergueu as sobrancelhas, ao fitar-
me.
Ah! disse ele. O nosso amiguinho est a voltar a si. ptimo. ptimo.
Manifestei o espanto de estilo. Perguntei: Que aconteceu? Onde estou? Mas sabia muito bem a 
resposta
 ltima pergunta. No havia teias de aranha na minha cabea.
Creio que no necessito de si de momento disse o homenzinho, e a enfermeira saiu do quarto de um
modo lesto. Mas percebi que ela me dirigia um olhar de intensa curiosidade ao transpor a porta.
O olhar dela sugeriu-me uma ideia.
Agora, doutor disse, e tentei sentar-me no leito, mas sobreveio-me uma dor no p direito.
Uma pequena luxaoexplicou o mdico. Nada de srio. Em poucos dias estar bom.
307
Como aconteceu isto? tornei a perguntar. Ele respondeu secamente:
O senhor caiu sobre um dos meus canteiros de flores.
Gostei do homem. Parecia possuir senso de humor. Fiquei certo de que ele pelo menos era um sujeito
decente.
Est bem doutordisse, lamento muito os estragos na rvore e receio que as suas flores venham a brotar-
me
no corpo. Talvez o senhor gostasse de saber o que eu fazia no seu jardim?
Creio que os factos reclamam uma explicao replicou o mdico.
Bem. Para comear, eu no estava com um gro na asa. Ele sorriu.
Foi a minha primeira teoria. Mas logo a abandonei. Uma coisa: o senhor  americano, no ? Disse-lhe o
meu nome.
E o senhor ?
Sou o dr. Hall e, como o senhor sabe sem dvida, estamos no meu sanatrio particular.
Eu no sabia, mas no o deixei perceber. Fiquei-lhe grato pela informao. Gostava do homem e sentia 
que
ele era decente, mas no quis revelar-lhe a verdadeira histria. Se o fizesse, ele no acreditaria.
Reflecti com a maior rapidez.
Bem, doutor disse-lhe, creio que pratiquei rematada tolice, mas no pense que me meti numa aventura de
Bill Sikes.
Depois continuei, tecendo uma histria a a respeito de uma pequena. Introduzi na fbula um tutor feroz,
arranjei um esgotamento nervoso para a menina e expliquei, por fim, que presumira haver reconhecido a
jovem entre as doentes do sanatrio e da as minhas aventuras nocturnas.
Era o gnero de histria que ele esperava.
Muito romntico disse com amabilidade, quando conclu.
Agora, doutor continuei, o senhor vai usar de franqueza para comigo. No est, ou no esteve em qualquer
poca, internada aqui uma jovem chamada Jane Finn?
308
Ele repetiu o nome, pensativo.
Jane Finn? disse. No.
Fiquei desolado e julgo que o demonstrei.
Tem a certeza?
Certeza absoluta, Mr. Hersheimmer.  um nome pouco vulgar e no seria provvel que o
esquecesse.
Bem, eram palavras categricas. Foi o que me pareceu por alguns momentos. Chegava ao termo a
esperana de resultados na pesquisa.
 isso disse eu, por fim. Agora, outro assunto. Quando me encontrava abraado quele malfadado
galho, julguei reconhecer um velho amigo meu a conversar com uma das suas enfermeiras.
De propsito, no mencionei nomes, pois Whittington, poderia ser conhecido ali por outro apelido,
mas o mdico respondeu prontamente:
Mr. Whittington, talvez?
 ele respondi. Que fazia aqui? No me diga que ele tambm est com os nervos desarranjados!
O dr. Hall riu-se.
No. Ele veio visitar uma das minhas enfermeiras, a enfermeira Edith, que  sua sobrinha.
Quem o diria! exclamei. Ele ainda se encontra aqui?
No, voltou para a cidade logo em seguida.
Que lstima! queixei-me. Mas talvez eu pudesse falar com a sobrinha, a enfermeira Edith no
 assim que ela se chama ?
O mdico abanou a cabea.
Tambm  impossvel. A enfermeira Edith foi-se embora esta noite.
Parece-me muita falta de sorte observei. O senhor tem o endereo de Mr. Whittington na cidade?
Gostaria de o visitar.
No sei qual  o endereo dele. Posso escrever  enfermeira Edith nesse sentido, se o senhor
quiser. - - -
Manifestei os meus agradecimentos.
309
Mas no diga quem  que deseja saber o endereo. Gostaria de lhe proporcionar uma surpresa.
Era tudo o que eu podia fazer no momento. Naturalmente, se a jovem era de facto sobrinha de
Whittington, seria de sobejo inteligente para que casse na armadilha, mas valia a pena tentar. Em
seguida, mandei um telegrama a Beresford informando onde me encontrava, contando que estava de
cama com um p torcido e pedindo que fosse at l, se no se achasse muito ocupado. Tive que usar
de reserva. Contudo no recebi notcias dele. O meu p ficou bom dentro em pouco. E assim, disse
hoje adeus ao bom do doutorzinho, pedi-lhe que me mandasse um bilhete se recebesse notcias da
enfermeira Edith e voltei directamente para a cidade. Que h, Miss Tuppence ? A senhora est to
plida!
 por causa de Tommy declarou Tuppence. Que lhe ter acontecido?
No se preocupe; ele deve estar bem. Talvez tenha ido ao estrangeiro com o seu perseguido.
Tuppence abanou a cabea.
No poderia ir sem passaporte. Acresce que, depois disso, eu vi o homem. Jantou ontem com Mrs.
Vandemeyer.
Mrs. Van... o qu?
Tinha-me esquecido.  claro que voc nada sabe a este respeito.
Sou todo ouvidos disse Julius. V contando... Tuppence relatou os acontecimentos dos ltimos
dois dias.
Julius no podia esconder o assombro e a admirao.
Esta  das boas! Imagine! Voc, criada... Ah! Ah! Depois acrescentou com seriedade: Mas,
isso no me agrada, Miss Tuppence. Voc  to destemida como eles, mas eu gostaria de a ver
fora do alcance dessa gente. So bem capazes de a liquidar.
Pensa que eu tenho medo?disse Tuppence, com um ar indignado.
J disse que voc  muito destemida. Mas isso no altera os factos.
Oh, no me aborrea! disse Tuppence com impa-
310
cincia. Pensemos no que pode ter sucedido a Tommy. Escrevi a Mr. Carter a esse respeito
acrescentou; e exps a Julius o contedo da carta.
Julius abanou a cabea gravemente.
Foi boa ideia. Mas, quanto a ns, temos que agir prontamente, fazer qualquer coisa.
Que podemos fazer?perguntou Tuppence, recobrando nimo.
Creio que o melhor  continuar na pista de Boris. Voc disse que ele costuma aparecer em casa da
sua patroa. Ele no tornar a ir l?
Talvez. Na verdade, no sei.
Compreendo. Bem, penso que o mais acertado  comprar um automvel, dos melhores, fardar-me
de motorista e postar-me nas proximidades da casa. Se Boris aparecer, voc far um sinal e eu
segui-lo-ei. Que diz?
Explndido, mas ele talvez leve semanas sem aparecer.
Esperaremos. Alegra-me que tenha gostado do plano. Ergueu-se.
Aonde vai?
Comprar o carro, naturalmente respondeu Julius, surpreso. Qual o tipo que prefere? Creio que
ter oportunidade de passear nele...
Oh! disse Tuppence timidamente. Eu prefiro os Rolls-Royces, mas...
Muito bem concordou Julius. Seja! Vou comprar um.
Mas no o conseguir! exclamou Tuppence. H pessoas que esperam sculos.
Isso no acontece com Julius afirmou Mr. Hersheimmer. No se preocupe. Voltarei dentro de
meia hora.
Voc  estupendo, Julius. Mas no posso evitar o pressentimento de que isso  uma esperana v.
Na realidade, deposito a minha confiana em Mr. Carter.
Eu no o faria.
Porqu ?
 c uma ideia minha, apenas.
311
Oh, mas ele deve fazer alguma coisa. No h outro processo. A propsito, esqueci-me de lhe
contar um curioso caso que aconteceu esta manh.
E narrou-lhe o encontro com Sir James Peel Edgerton. Julius interessou-se.
Que quereria esse sujeito? perguntou.
No sei bem respondeu Tuppence, pensativa. Mas creio que tentava advertir-me de uma forma
ambgua, legal.
E porqu?
No sei confessou Tuppence. Mas ele possui um olhar bondoso e  de uma inteligncia
extraordinria. Eu seria capaz de o procurar e de lhe contar tudo.
Julius ops-se com deciso  ideia.
Olhe disse ele, no precisamos meter advogados nesta histria. Esse sujeito no nos poder
ajudar em nada.
Pois bem, acredito que poderia reiterou Tuppence, teimosa.
Tire isso da ideia. At logo. Voltarei dentro de meia hora.
Trinta e cinco minutos haviam decorrido quando Julius voltou. Travou do brao de Tuppence e
levou-a  janela.
-Ei-lo!
Oh! exclamou Tuppence, com uma nota de reverncia na voz, ao contemplar o automvel.
Um devorador de distncias, afirmo-lhe disse Julius complacentemente.
Como o conseguiu ? murmurou Tuppence.
O vendedor estava a mandar lev-lo a casa de um sujeito importante.
E ento?
Fui a casa do tal sujeito importante disse Julius. Declarei-lhe que pelos meus clculos um carro
assim valia vinte mil dlares. Depois disse-lhe que para mim valeria cinquenta mil dlares, uma vez
que ele desistisse do carro.
E ento?disse Tuppence, aflita.
Ento retorquiu Julius, ele desistiu, eis tudo.
312
XII - UM AMIGO EM APUROS
Sexta-feira e sbado decorreram sem novidade. Tuppence recebeu lacnica resposta ao seu apelo a
Mr. Carter. Dizia o homem que os Jovens Aventureiros haviam encetado o trabalho por sua conta
e risco, no lhes faltando advertncias quanto aos perigos. Se algo acontecera a Tommy, lamentava
profundamente, mas nada podia fazer.
Frgido consolo. Sem Tommy, ia por gua abaixo o sabor da aventura e pela primeira vez Tuppence
duvidou do triunfo. Tudo comeara como uma pgina de romance. Agora, desfeito o encantamento,
transformava-se em realidade terrvel. Tommy era s o que importava. Muitas vezes, durante o dia,
Tuppence contivera resolutamente as lgrimas.
O tempo passava e nada de vestgios de Boris.
Ele no mais voltou ao apartamento, e Julius e o automvel esperavam em vo. Tuppence entregouse
a novas reflexes. Conquanto admitindo a verdade das objeces de Julius, no abandonara
inteiramente a ideia de apelar para Sir James Peel Edgerton. Na verdade, j se dera ao cuidado de
procurar o seu endereo no guia telefnico. Ele quisera preveni-la naquele dia? Em caso afirmativo,
porqu? Sem dvida, assistia-lhe ao menos o direito de pedir uma explicao. O homem olhara-a
com tanta bondade! Talvez o advogado revelasse algo a respeito de Mrs. Vandemeyer, que
conduzisse a uma pista do paradeiro de Tommy.
De qualquer modo, Tuppence decidiu, com a habitual sacudidela de ombros, que valia a pena tentar.
Domingo  tarde estaria de folga. Encontraria Julius, convert-lo-ia
313
ao seu ponto de vista e iriam ambos enfrentar o leo na prpria caverna.
Chegado o dia, Julius no se deixou convencer seno  fora de copiosos argumentos. No nos
trar nenhum prejuzorepetia ela sempre. Por fim, Julius capitulou e seguiram para Carlton House
Terrace.
Um mordomo impecvel abriu a porta. Tuppence sentia-se um pouco nervosa. Resolveu no
perguntar se Sir James estava em casa; mas adoptou uma atitude mais pessoal.
Poder perguntar a Sir James se poderei falar-lhe por alguns instantes? Tenho um recado
importante para lhe transmitir.
O mordomo afastou-se e voltou pouco depois.
Sir James espera-a. Queira acompanhar-me.
E dizendo isto conduziu-os a uma biblioteca. Tuppence observou que as estantes de toda uma
parede eram dedicadas a obras sobre crime e criminologia. Viam-se vrias poltronas de couro, de
estofo macio, e uma lareira de estilo antigo. Perto da janela, o dono da casa sentava-se diante de
uma enorme escrivaninha de tampa, juncada de papis.,
Ergueu-se quando os visitantes entraram.
Tem um recado para mim ? Ah! reconheceu Tuppence com um sorriso.  a senhora? Trouxe
um recado de Mrs. Vandemeyer, no?
No exactamente disse Tuppence. Para falar a verdade, referi-me ao recado somente para
ter a certeza de que seria recebida. Oh, por falar nisso, apresento-lhe Mr. Hersheimmer, Sir James
Peel Edgerton.
Muito prazer disse o americano, apertando a mo do outro.
No querem sentar-se ? perguntou Sir James. Colocou duas cadeiras perto da escrivaninha.
Sir James disse Tuppence, ferindo o assunto audaciosamente,creio que  um atrevimento vir  sua
presena desta forma. Porque, na verdade, o senhor nada tem a ver com o caso e, alm disso, o
senhor  uma pessoa muito importante,
314
ao passo que Tommy e eu somos gente sem importncia. Calou-se para tomar flego.
Tommy?indagou Sir James, dirigindo um olhar ao americano.
No, esse  Juliusexplicou Tuppence. Estou um pouco nervosa e por isso falo atarantadamente.
O que eu de facto desejo saber  o significado das palavras que o senhor me dirigiu h dias. O
senhor quis prevenir-me contra Mrs. Vandemeyer, no foi?
Minha prezada senhora, recordo-me que apenas me referi  existncia de outros bons empregos e
noutros lugares.
Bem sei. Mas foi uma insinuao, no?
Talvez admitiu Sir James com gravidade.
Pois desejo saber mais. Quero saber porque  que o senhor fez tal insinuao.
Sir James sorriu ante a energia da moa.
E se a sua patroa me mover um processo por difamao ?
Compreendo disse Tuppence. Bem sei que os advogados so sempre muito cautelosos. Mas no
poderamos falar sem prevenes e dizer o que queremos ?
Pois bem disse Sir James, ainda a sorrirento, sem prevenes, declararei que se eu tivesse uma
irm jovem, necessitada de trabalhar para seu sustento, no gostaria de a ver ao servio de Mrs.
Vandemeyer. No  lugar para uma jovem inexperiente.  tudo o que lhe posso dizer.
Compreendo disse Tuppence, pensativa. Muito obrigada. Na realidade, porm, no sou to
inexperiente como o senhor pensa. Sabia muito bem que ela no era boa pessoa quando fui para l
na verdade, justamente por saber  que fui... Interrompeu-se, ao notar o espanto que se estampava
na fisionomia do advogado, e prosseguiu: Creio que o melhor  contar-lhe toda a histria,
Sir James. Que acha voc, Julius ?
No ponto a que a coisa chegou, o melhor  ir logo aos factos respondeu o americano, que at ento
se conservara em silncio.
315
Sim, conte-me tudo disse Sir James. Quero saber quem  Tommy.
Assim encorajada, Tuppence mergulhou na sua histria, que o advogado escutou com profunda
ateno.
Muito interessante disse, quando a jovem terminou. Grande parte do que contou, minha filha, j
eu sabia. Concebi certas teorias a respeito dessa Jane Finn. At agora, tm agido
extraordinariamente bem, mas  de lamentar que Mr. Carter haja metido duas criaturas to
jovens num caso dessa espcie. Uma coisa: como  que Mr. Hersheimmer ingressou no caso ? A
senhora esclareceu esse ponto ?
Sou primo de Jane em primeiro grau explicou Julius correspondendo ao olhar penetrante do
advogado.
-Ah!
Oh, Sir James irrompeu Tuppence, que pensa o senhor que tenha acontecido a Tommy?
Hum. O advogado ergueu-se e comeou a andar lentamente de um lado para o outro.
Quando a senhora chegou, eu estava justamente a preparar-me para ir  Esccia,  pesca.
Entretanto, h diversas espcies de pescaria. Tenho bons motivos para ficar; tentarei descobrir a
pista do seu jovem amigo.
Oh! exclamou Tuppence, unindo as mos, exttica.
Mesmo assim, como j disse,  de lamentar que... Mr. Carter haja metido duas crianas num
caso desses. E no se ofenda Miss...?
Cowley. Prudence Cowley. Mas os meus amigos chamam-me Tuppence.
Pois bem, Miss Tuppence. No se ofenda por lhe dizer que a senhora  muito jovem. A juventude
s  defeito quando se prolonga at  idade madura... Agora, no que diz respeito ao seu amigo
Tommy... as coisas no parecem muito boas para ele. Andou a meter-se nalgum lugar onde
no foi chamado. Quanto a isso, no tenho dvidas. Mas no perca a esperana.
E o senhor pode de facto ajudar-nos? A est, Julius! Ele no queria vir comigoacrescentou,  guisa
de explicao.
316
Hummurmurou o advogado, fustigando Julius com outro olhar perfurante. E porqu?
Calculei que no ficaria bem incomod-lo com um caso to insignificante.
Compreendo. Calou-se por um momento. Este caso insignificante, como o senhor diz, baseia-se
directamente noutro maior, muito maior talvez do que o senhor ou Miss Tuppence imagina. Se o
rapaz est vivo, talvez tenha informaes sobremodo valiosas para nos dar. Portanto, precisamos
encontr-lo.
Sim, mas como ? exclamou Tuppence. Tentei pensar em tudo...
Sir James sorriu.
E, no entanto, existe uma pessoa bem ao seu alcance que com toda a probabilidade sabe onde ele est 
ou, de
qualquer forma, onde  provvel que esteja.
Quem ? perguntou Tuppence intrigada.
Mrs. Vandemeyer.
Sim, mas ela nunca nos dir.
Ah, essa  a parte que me toca. Julgo que serei capaz de fazer com que Mrs. Vandemeyer me diga tudo o 
que
eu quero.
Como ? interrogou Tuppence, esbugalhando os olhos.
Oh, fazendo umas perguntinhas retorquiu Sir James sossegadamente.  como se costuma fazer.
Tamborilou com os dedos na mesa e Tuppence mais uma vez sentiu o intenso poder que irradiava do 
homem.
--E se ela no disser ? perguntou Julius, de novo.
Creio que dir. Tenho uma ou duas alavancas poderosas. E, em ltimo caso, resta sempre a possibilidade 
do
suborno.
Claro! E essa  a parte que me toca! berrou Julius, dando um murro na mesa. O senhor pode contar 
comigo!
Pode dispor de um milho de dlares!
Sir James sentou-se e submeteu Julius a um exame atento.
Mr. Hersheimmer disse por fim isso  uma soma muito grande.
Mas no poder ser menos. A essa espcie de gente no se podem oferecer tostes.
317
Ao cmbio actual, eleva-se a muito mais de duzentas e cinquenta mil libras.
Sim. Talvez o senhor pense que isto  basfia, mas posso entrar com o dinheiro e ainda sobrar
bastante para os seus honorrios.
Sir James corou um pouco.
No h questo de honorrios, Mr. Hersheimmer. No sou um detective particular.
Desculpe. Creio que fui um pouco precipitado, mas s vezes fico contrariado com essa questo do
dinheiro. Quis oferecer uma gratificao a quem desse notcias de Jane, h alguns dias, mas a
vetusta Scotland Yard desaprovou a ideia. Considerou-a prejudicial.
E provavelmente tinha razodisse Sir James secamente.
Mas no tenha dvidas sobre a fortuna de Julius esclareceu Tuppence. Tem dinheiro aos montes.
O velho legou-mo em larga escala explicou Julius. Agora, vamos ao que interessa. Qual  a sua
ideia?
Sir James meditou por instantes.
No h tempo a perder. Quanto mais cedo lanarmos o ataque, melhor. Voltou-se para Tuppence.
Sabe se Mrs. Vandemeyer janta fora hoje ?
Sim, creio que sim, mas no voltar muito tarde. De contrrio, teria levado a chave do
trinco.
bom. Irei visit-la s dez horas. A que horas pensa que ela voltar?
Entre as nove e meia e as dez, mas eu poderia voltar mais cedo.
No deve faz-lo, de forma alguma. Despertaria suspeitas se no permanecesse fora at  hora
habitual. Volte pelas nove e meia. Chegarei s dez. Mr. Hersheimmer aguardar c em baixo, talvez
num taxi.
Ele comprou um Rolls-Royce novo disse Tuppence, com orgulho.
Tanto melhor. Se a sua patroa nos revelar o endereo, iremos imediatamente, levando Mrs.
Vandemeyer connosco, se necessrio. Compreende?
318
Sim. Tuppence ergueu-se, pulando de contente. Oh, sinto-me muito melhor!
No fique esperanosa demais, Miss Tuppence. V sossegada.
Julius voltou-se para o advogado.
Escute. Posso vir busc-lo s nove e meia. Concorda?
Ser o melhor, por certo. Eliminar a necessidade de ficarem dois carros  espera. Agora, Miss
Tuppence, o meu conselho  que v saborear um bom jantar. E evite pensar nos prximos
acontecimentos.
Apertou a mo dos visitantes que saram em seguida.
No  uma maravilha?perguntou Tuppence, extasiada, ao descer saltitante a escadaria. Oh, Julius,
no  simplesmente uma maravilha?
Reconheo que o homem arranjou as coisas da melhor maneira. E eu equivoquei-me ao julgar que
seria intil recorrer a ele. Bem, voltamos ao Ritz ?
Creio que devo caminhar um pouco. Sinto-me to entusiasmada. Deixe-me no parque, sim? A no
ser que voc queira vir comigo...
Julius abanou a cabea.
Tenho de comprar gasolina explicou, E enviar um ou dois cabogramas.
Muito bem. Encontrar-nos-emos no Ritz, s sete. Jantaremos l em cima. No quero exibir-me
nestes trapos.
Combinado. At logo.
Tuppence olhou para o relgio. Eram seis horas aproximadamente. Caminhou at Kensington
Gardens e depois voltou devagar sobre os seus passos, sentindo-se muito melhor com o ar fresco e o
exerccio. No era fcil seguir o conselho de Sir James e alijar da mente os possveis
acontecimentos da noite.  medida que se aproximava da esquina de Hyde Park, a tentao de
voltar a South Audley Mansions tornava-se quase irresistvel.
Em todo o caso pensou no haveria prejuzo algum em ir apenas contemplar o edifcio. Talvez
assim se resignasse a esperar com pacincia at s dez horas.
319
South Audley Mansions oferecia o mesmo aspecto de sempre. Tuppence estava prestes a voltar
quando ouviu um assobio estrdulo e o fiel Albert saiu a correr do edifcio para se reunir a ela.
Tuppence franziu a testa. No fazia parte do programa chamar a ateno para a sua presena nas
vizinhanas, mas Albert estava rubro de entusiasmo.
Miss! Ela vai-se embora!
Quem? perguntou Tuppence, com mpeto.
A ladra. Rita Perigosa. Mrs. Vandemeyer. Arranjou as malas e mandou-me chamar um taxi.
Qu ? Tuppence segurou o brao do garoto.
 verdade, miss. Julguei que nada soubesse a tal respeito.
Albert exclamou Tuppence voc  um colosso! Se no fosse voc, ela teria escapado!
Albert enrubesceu de satisfao.
No h tempo a perder disse Tuppence, atravessando a rua. Temos de det-la. Custe o que custar,
preciso retardar-lhe a partida at que... Interrompeu-se. Albert, h um telefone aqui, no?
O garoto abanou a cabea.
A maioria dos apartamentos tm os seus prprios telefones, miss. Mas h uma cabina na esquina.
V at l, ento, e ligue para o Hotel Ritz. Pergunte por Mr. Hersheimmer e diga-lhe que v buscar
Sir James e venham imediatamente porque Mrs. Vandemeyer est tentando uma retirada.
Se no conseguir comunicar com Mr. Hersheimmer, telefone para Sir James Peel Edgerton.
Encontrar o nmero na lista. Conte-lhe o que est a acontecer. No esquecer os nomes?
Albert repetiu-os fluentemente.
Tenha confiana em mim, miss. Tudo sair bem Mas, e a senhora? No tem medo de enfrentar a
ladra sozinha?
No, no, pela minha parte nada h que temer. V e telefone. Depressa.
Depois de respirar fundo, Tuppence entrou no edifcio e subiu a correr at  porta do n. 20. Como
poderia deter
320
Mrs. Vandemeyer at  chegada dos dois homens, no o sabia, mas tinha de fazer alguma coisa e
cumpria-lhe realizar sozinha a tarefa. Que teria ocasionado esta partida precipitada? Mrs.
Vandemeyer desconfiaria de Tuppence?
Suposies eram ociosas. Tuppence comprimiu com firmeza o boto da campainha. Poderia saber
algo por intermdio da cozinheira.
Ningum veio atender e, ao cabo de alguns minutos de espera, Tuppence tornou a tocar a
campainha, conservando o dedo no boto demoradamente. Por fim, ouviu rudo de passos l dentro
e pouco depois Mrs. Vandemeyer em pessoa abriu a porta. Ergueu as sobrancelhas ao ver a jovem.
-Voc?
Deu-me uma dor de dentes disse Tuppence fluentemente. Assim, julguei melhor voltar para casa,
para ter uma noite de descanso.
Mrs. Vandemeyer nada disse, recuou e deixou que Tuppence entrasse no hall.
Que falta de sorte, a sua disse com frieza.  melhor ir para a cama.
Oh, na cozinha estarei bem. A cozinheira...
A cozinheira saiu disse Mrs. Vandemeyer, um pouco aborrecida. Mandei-a sair. Assim, bem v que
o melhor  ir para a cama.
De sbito, Tuppence teve medo. A voz de Mrs. Vandemeyer adquirira um timbre que a inquietava.
Alm disso, a mulher impelia-a lentamente para o corredor. Tuppence voltou-se no vo da janela.
No quero...
Ento, num relance, um cano de ao frio tocou-lhe a tmpora e a voz de Mrs. Vandemeyer ergueuse,
glida e ameaadora:
Idiota! Pensa que eu no sei? No, no responda. Se lutar ou gritar, mat-la-ei como um co!
A presso do cano de ao tornou-se mais forte.
Portanto, avanteprosseguiu Mrs. Vandemeyer. Por aqui... l para o meu quarto. Depois de eu lhe
dar o trata-
21 - VAMP. G. 1
321
mento adequado, ir para a cama quando eu mandar. E voc dormir... sim, minha espiazinha, voc
vai dormir muito!
Havia nas ltimas palavras uma espcie de falsa amabilidade que bastante afligiu Tuppence. No
momento, nada podia fazer e caminhou obedientemente para o quarto de Mrs. Vandemeyer. A
pistola conservou-se sempre apontada  sua fronte. O quarto encontrava-se num estado de terrvel
desordem, roupas espalhavam-se para um lado e outro, vendo-se uma mala de vestidos e uma caixa
de chapus, ainda no fechadas, no meio do soalho.
Tuppence cobrou nimo, com esforo. A voz tremeu-lhe um pouco, mas falou com nimo.
Ora, vamos! disse. Isto  ridculo. A senhora no me pode dar um tiro. Todos no edifcio ouviriam
o estampido
Arrisco-me a isso respondeu vivamente Mrs. Vandemeyer. Mas se voc no tentar gritar por
socorro, no haver necessidade de medidas extremas e no creio que voc queira fazer asneiras. 
uma rapariga inteligente. Voc enganou-me com perfeio. No desconfiava de voc! Assim, no
tenho dvidas de que compreende muito bem que me encontro agora em situao de superioridade
em relao a voc. Portanto, sente-se na cama. Ponha as mos sobre a cabea e, se tem amor  vida,
no se mexa.
Tuppence obedeceu passivamente. O bom senso dizia-lhe que nada mais lhe restava fazer seno
aceitar a situao. Se bradasse por socorro, haveria escassas probabilidades de que algum a ouvisse
e abundantes probabilidades de que Mrs. Vandemeyer atirasse. Nesse meio tempo, cada minuto de
demora que ganhasse seria valioso.
Mrs. Vandemeyer deps o revlver na borda do lavatrio, ao alcance da mo e, ainda fitando
Tuppence com olhos de lince para o caso de que a jovem se mexesse, retirou um pequeno frasco de
vidro e deitou um pouco do seu contedo num copo que acabou de encher de gua.
Que  isso?perguntou Tuppence, num mpeto.
Uma coisa que faz dormir profundamente. Tuppence empalideceu um pouco.
322
A senhora quer envenenar-me?perguntou num sussurro.
Talvez respondeu Mrs. Vandemeyer, sorrindo com agrado.
Ento no beberei disse Tuppence com firmeza. Prefiro que me d um tiro. No quero que me
matem em silncio, como um cordeiro.
Mrs. Vandemeyer bateu com os ps no cho.
No seja idiota! Se tem um pouco de senso, compreender que o envenenamento no me livraria de
culpabilidade.  um hipntico, nada mais. Voc despertar amanh de manh, sem o mnimo
distrbio. Quero apenas poupar-me o incmodo de a amarrar e amordaar.  a alternativa que lhe
resta e voc no gostar nada, posso garantir! Sou bastante grosseira quando quero. Assim, beba
isto como uma boa menina e no sofrer o menor prejuzo.
No ntimo, Tuppence acreditou. Os argumentos da mulher tinham visos de verdade. Era um mtodo
simples e seguro de se desembaraar dela pelo tempo necessrio. Contudo, a jovem no aceitou de
bom grado a ideia de se deixar adormecer docilmente antes de resistir em prol da sua libertao.
compreendia que se Mrs. Vandemeyer escapasse, estaria perdida a derradeira esperana de
encontrar Tommy.
Tuppence raciocinara com celeridade. Todas essas reflexes lhe passaram pela mente num relance
e, ao perceber que restava uma esperana, alis bem problemtica, resolveu arriscar tudo num
esforo supremo.
Dessa forma, pulou da cama inopinadamente e caiu de joelhos aos ps de Mrs. Vandemeyer,
agarrando-lhe a barra da saia num frenesi.
No acredito soluou.  veneno... eu sei que  veneno. Oh, no me obrigue a beb-lo a voz
converteu-se num grito agudo no me obrigue a beb-lo!
Mrs. Vandemeyer, de copo na mo, baixou os olhos e franziu os lbios diante deste colapso.
Levante-se, idiota! No posso saber como teve coragem
323
para desempenhar o seu papel da maneira como o fez. Levante-se, j disse.
Mas Tuppence continuou agarrada  mulher, soluante, intercalando entre os soluos incoerentes
pedidos de misericrdia. Cada minuto ganho era uma vantagem. Alm disso, de rojo no cho,
movia-se imperceptivelmente para perto do seu objectivo.
Mrs. Vandemeyer soltou aguda exclamao de impacincia e ergueu a rapariga, que ficou de
joelhos.
Bebe sem demora! Autoritariamente, comprimiu o copo contra os lbios da jovem.
Tuppence deu um ltimo gemido de desespero.
A senhora jura que isto no me vai causar mal algum ?
contemporizou.
 claro que no causar mal nenhum. No seja tola. A senhora jura ?
Sim, simdisse a mulher, impaciente. Juro.
Tuppence ergueu a mo esquerda para o copo.
Muito bem. Abriu a boca com humildade. ->. Mrs. Vandemeyer deu um suspiro de alvio,
afrouxando avigilncia por um momento. Ento, rpida como um raio, Tuppence sacudiu o copo no
ar com quanta fora pde. O lquido espalhou-se pelo rosto de Mrs. Vandemeyer; e, aproveitando o
estupor momentneo da mulher, Tuppence estendeu a mo direita e tirou o revlver da borda do
lavatrio. No momento seguinte recuara um passo, o revlver apontado directamente ao peito de
Mrs. Vandemeyer, sem qualquer vacilao na mo que o empunhava.
No instante do triunfo, Tuppence deixou-se arrastar por uma vanglria pouco leal.
Agora, quem  que est em situao de superioridade?
exclamou com jactncia.
O rosto da mulher convulsionou-se de clera. Por instantes, Tuppence pensou que a mulher ia
agredi-la, o que teria colocado a jovem em desagradvel dilema, pois s em caso extremo pretendia
disparar o revlver. Todavia, Mrs. Vande-
324
meyer conteve-se, com um esforo, e, por fim, um sorriso lento e perverso distendeu-lhe os
msculos do rosto.
No  tola, ento, no fim de contas! Agiu bem, menina! Mas voc vai pagar tudo isto... Ah! Vai
pagar! Tenho boa memria!
Tuppence contemplou-a, pensativa, por instantes. Recordava vrias coisas. As palavras de Boriss
vezes, acredito que voc nos venderia!e a respostaO preo, em todo o caso, teria de ser
enorme... Fora uma resposta em tom de brincadeira, sem dvida, mas no teria um substrato de
verdade? Muito antes, Whittington no perguntara: Quem  que deu com a lngua nos dentes? No
foi Rita? Talvez Rita fosse o ponto vulnervel na armadura de Mr. Brown.
Conservando os olhos fixos com firmeza no rosto da outra, Tuppence respondeu calmamente:
Sobre dinheiro...
Mrs. Vandemeyer sobressaltou-se. Evidentemente, no esperava por aquela resposta. Que quer
dizer?
Explicarei. Voc acabou de me dizer que tem boa memria. Uma boa memria no tem nem a
metade da utilidade de uma boa bolsa! Suponho que fica mais tranquila ao imaginar mil e um
castigos para me infligir, mas isso tem utilidade prtica? Vingana  coisa bem pouco satisfatria.
 o que todos dizem sempre. Mas o dinheiro... Bem, com respeito ao dinheiro, nada h de
insatisfatrio, no  assim?
Voc pensa disse Mrs. Vandemeyer com desdmque eu perteno  classe de mulheres que vendem
os seus amigos?
Sim respondeu Tuppence prontamente se o preo for suficiente.
Umas miserveis centenas de libras, mais ou menos! Nocontrariou Tuppence. Eu diria: cem mil
libras! Uma onda de rubor subiu ao rosto de Mrs. Vandemeyer.
Que diz voc?perguntou, os dedos a brincarem nervosamente com um alfinete que ostentava no
peito. Naquele instante, Tuppence compreendeu que o peixe mordera a isca
e, pela primeira vez, horrorizou-se do seu prprio amor ao dinheiro. .
Cem mil librasrepetiu Tuppence.
Apagou-se o brilho nos olhos de Mrs. Vandemeyer. Reclinou-se na cadeira.
Ora! disse. Voc no tem esse dinheiro.
No admitiu Tuppence. No tenho... mas conheo algum que tem.
-Quem ?
Um amigo meu.
Deve ser milionrio observou Mrs. Vandemeyer, incrdula.
Na verdade,  milionrio.  um americano. Ele pagar essa importncia sem pestanejar. Pode ter a
certeza de que lhe fao uma proposta perfeitamente garantida.
Mrs. Vandemeyer tornou a empertigar-se.
Estou inclinada a dar-lhe crditodeclarou em voz lenta. Reinou silncio entre as duas, por certo
tempo; depois, Mrs. Vandemeyer ergueu os olhos.
E que deseja ele saber, esse seu amigo?
Tuppence travou momentnea luta ntima, mas como o dinheiro era de Julius, os interesses dele
estavam em primeiro lugar.
Quer saber onde est Jane Finn disse ousadamente. Mrs. Vandemeyer no demonstrou surpresa.
No sei ao certo onde ela se encontra no presente momento respondeu.
Mas poderia descobrir o seu paradeiro?
Sim retorquiu Mrs. Vandemeyer, descuidadamente. Quanto a isso, no haveria dificuldade.
Depoisa voz de Tuppence tremeu um pouco h o caso de um rapaz, um amigo meu. Receio que
alguma coisa lhe haja acontecido, por obra do seu amigo Boris.
Como se chama ele ? Tommy Beresford.
Nunca tinha ouvido falar nesse nome. Mas perguntareiao Boris. Ele me dir o que souber.
326
- Obrigada. Tuppence sentia-se animada. O sucesso impelia-a a esforos mais audaciosos. H ainda outra
coisa.
-Que ?
Tuppence inclinou-se para a frente e baixou o tom de voz:
Quem  Mr. Brown ?
Os seus olhos sagazes perceberam o repentino empalidecer do rosto formoso. com um esforo, Mrs.
Vandemeyer dominou-se e tentou retomar a primitiva atitude. Mas a tentativa resultou em simples pardia.
Encolheu os ombros.
Voc no est muito bem informada a nosso respeito se ignora que ningum sabe quem  Mr. Brown...
--Voc sabe disse Tuppence com calma.
Mais uma vez o rosto da mulher perdeu a cor.
Em que se baseia para dizer tal coisa?
No sei disse a jovem. Mas tenho a certeza.
Mrs. Vandemeyer ficou por longo tempo a olhar com espanto para a interlocutora.
Simdisse roucamente eu sei. Eu era muito bonita, voc compreende... muito bonita...
Ainda disse Tuppence, com admirao. Mrs. Vandemeyer sacudiu a cabea. Que estranho brilho 
irradiavam
aqueles olhos de um azul elctrico!
Bonita mas no o bastante declarou numa voz de perigosa mansido. Bonita... mas no o bastante! Nos
ltimos tempos, tenho tido medo s vezes...  perigoso saber demais! Debruou-se sobre a mesa. Jure 
que o
meu nome no ser envolvido nisto que nunca ningum ficar sabendo.
Juro. E, uma vez que ele seja capturado, voc no correr mais nenhum perigo.
Um olhar aterrador luziu na fisionomia de Mrs. Vandemeyer.
No? Nunca mais?Agarrou o brao de Tuppence. Tem a certeza quanto ao dinheiro?
Certeza absoluta.
Quando o receberei? No pode haver demora.
327
O meu amigo no tardar a chegar. Ele pode enviar cabogramas ou coisa que o valha.
Masno demorar nada; ele  de um dinamismo terrvel,
Mrs, Wandermeyer tinha um olhar resoluto,
Estou resolvida,  uma grande soma e alm disso um sorriso curioso distendeu-lhe os
lbiosno  prudente deixar escapar uma mulher como eu!
Por alguns momentos continuou a sorrir, batendo ao de leve com os dedos na mesa. De
repente sobressaltou-se; o seu rosto tornou-se lvido.
Que  isto?
No ouvi nada,
Mrs. Vandemeyer esbugalhou os olhos e olhou em torno, atemorizada.
Se algum estivesse a escutar-nos...
Tolice. Quem poderia ser?
At as paredes s vezes tm ouvidos murmurou a mulher. Confesso que estou com medo. Voc no
o conhece!
Pense nas cem mil librasdisse Tuppence com doura.
Mrs. Vandemeyer passou a lngua pelos lbios secos.
Voc no o conhece repetiu em voz rouca,Ele,,. Ah!
com um grito agudo de terror ergueu-se de um salto. A mo estendida apontava para a
cabea de Tuppence. Depois cambaleou e caiu ao cho com uma sncope.
Tuppence olhou para ver o que a assustara.
No umbral da porta estavam Sir James Peei Edgerton e Julius Hershemmer.
328
XIII - A VIGLIA
Sir James passou por Julius e inclinou-se pressurosamente sobre a mulher desfalecida.
 o coraodisse vivamente. Aguardente... depressa!
Julius precipitou-se para o lavatrio.
A no disse Tuppence por cima do ombro. No licoreiro da sala de jantar, segunda porta do
corredor.
Sir James e Tuppence ergueram Mrs. Vandemeyer e conduzram-na para o leito. Borrifaram-lhe o
rosto, mas sem resultado. O advogado tomou-lhe o pulso.
Muito fraco...murmurou. Espero que esse rapaz se apresse com a aguardente.
Nesse momento, Julius entrou no quarto com um copo que entregou a Sir James. Enquanto
Tuppence soerguia a cabea da mulher, o advogado tentava introduzir um pouco da bebida entre os
lbios fechados. Por fim, a mulher abriu os olhos dblmente. Tuppence levou-lhe o copo aos
lbios.
Mrs. Vandemeyer aquiesceu. A aguardente devolveu-lhe a cor s faces lvidas e reanimou-a de
maneira admirvel. Tentou sentar-se depois tornou a cair, com um gemido, a mo pendente de um
lado.
 o meu corao murmurou. No devo falar.
Deitou-se de costas, com os olhos fechados.
Sir James continuou a tomar-lhe o pulso por mais uns instantes, depois soltou-o e meneou a cabea.
Est bem, agora.
Afastaram-se os trs e conservaram-se juntos conversando em voz baixa.
329
Tuppence relatou como Mrs. Vandemeyer manifestara vontade de desvendar a identidade de Mr.
Brown e como comsentira em descobrir e revelar-lhes o paradeiro de Jane Finn. Julius apresentou
congratulaes  jovem.
Muito bem, Miss Tuppence. Explndido! Creio que cem mil libras parecero to apetecveis pela
manh  dama como o foram  noite. No h motivo para preocupao. Ela no falaria a no ser por
dinheiro, aposto!
Havia uma certa dose de bom senso nessas palavras e Tuppence sentiu-se mais confortada.
O que o senhor diz  verdade concordou Sir James, pensativo. Devo confessar, entretanto, que eu
desejaria que no houvssemos causado uma interrupo no momento em que chegmos. No posso
evitar esta queixa, se bem que agora  s questo de esperar at ao amanhecer.
Contemplou a figura inerte sobre o leito. Mrs. Vandemeyer jazia em atitude de inteira passividade,
os olhos cerrados. O advogado abanou a cabea.
Bem disse Tuppence, numa tentativa de jovialidade devemos esperar at ao amanhecer, eis tudo.
Mas creio que no devemos abandonar o apartamento.
E se deixssemos de guarda o inteligente rapazinho de que nos falou?
Albert? E se ela se reanimar e lhe pregar uma pea? Albert no poderia det-la.
Creio que ela no seria capaz de renunciar aos dlares prometidos.
Talvez. Ela pareceu-me muito apavorada com o tal Mr. Brown.
Qu? Ter mesmo muito medo dele?
Sim. Olhou ao redor e disse que at as paredes tm ouvidos.
Miss Tuppence tem razo declarou Sir James calmamente. No devemos abandonar o apartamento,
e no s por causa de Mrs. Vandemeyer.
Julius encarou-o com espanto.
330
O senhor pensa que ele poderia vir procur-la? Mas como poderia ele saber?
O senhor esquece a hiptese de um dictafone respondeu Sir James secamente. Temos um
adversrio formidvel. Acredito que, se exercermos a devida vigilncia, se oferecer excelente
oportunidade para ele nos cair nas mos. Mas no podemos negligenciar nenhuma precauo.
Temos uma testemunha importante, mas deve ser salvaguardada. Eu sugeriria que Miss Tuppence
se recolhesse para dormir, ficando eu e o senhor, Mr. Hersheimmer, de viglia
alternadamente.
Tuppence ia protestar, mas ao olhar por acaso para o leito viu Mrs. Vandemeyer de olhos semiabertos,
com uma tal expresso no rosto, misto de temor e malevolncia, que as palavras lhe
morreram nos lbios.
Por um momento imaginou se o desmaio e o ataque de corao no seriam um formidvel embuste,
mas recordou a palidez mortal que muito dificilmente se poderia simular. Ao olhar mais uma vez, a
expresso desaparecera como por encanto e Mrs. Vandemeyer jazia inerte e imvel como antes. Por
instantes, a jovem imaginou que aquilo com certeza fora sonho. Sem embargo, decidiu ficar alerta.
Ento disse Julius creio que o melhor  a gente sair daqui.
Os outros aceitaram a sugesto. Sir James mais uma vez tomou o pulso de Mrs. Vandemeyer.
Perfeitamente satisfatriodisse em voz baixa a Tuppence. Estar completamente boa
depois do repouso da noite.
A jovem hesitou um momento ao p do leito. A intensidade da expresso que surpreendera na
fisionomia da mulher causara-lhe forte impresso. Mrs. Vandemeyer ergueu as plpebras. Parecia
fazer esforos para falar. Tuppence curvou-se sobre ela.
No... saia... no teve foras para continuar, murmurando apenas mais umas palavras que Tuppence
julgou ser: com sono. Depois fez nova tentativa.
331
Tuppence inclinou-se mais ainda. A voz era apenas um sopro.
Mr. B... Brown...A voz emudeceu.
Mas os olhos semicerrados pareciam ainda enviar uma mensagem angustiosa.
Movida por um impulso repentino, a jovem disse rapidamente :
No sairei do apartamento. Ficarei aqui toda a noite. Uma centelha de alvio luzia-lhe sob as
plpebras que se
fecharam mais uma vez. Na aparncia, Mrs. Vandemeyer dormia. Mas as suas palavras causaram
nova inquietao a Tuppence. Que pretendera ela dizer com aquele dbil murmrioMr. Brown?
Tuppence deu por si a olhar nervosamente por cima do ombro. O enorme guarda-roupa erguia-se
com um aspecto sinistro diante dos seus olhos. Havia espao de sobra para um homem se ocultar
ali... Um pouco envergonhada de si mesma, Tuppence abriu-o de inopino e olhou para dentro.
Ningumnaturalmente! Agachou-se e olhou para baixo da cama. No havia outro esconderijo
possvel. Tuppence deu a habitual sacudidela de ombros. Era absurdo ceder assim aos nervos!
Lentamente saiu do quarto. Julius e Sir James conversavam em voz baixa. Sir James voltou-se para
ela.
Feche a porta por fora, Miss Tuppence, e tire a chave. No devemos deixar qualquer possibilidade
de algum penetrar nesse quarto.
Escutem disse Julius de sbito temos ainda o inteligente garoto de Tuppence. Acho que convm
descer at l e tranquiliz-lo.
Como entraram aqui?indagou Tuppence de repente. Esqueci-me de perguntar.
Albert explicou-me tudo muito bem pelo telefone. Fui em busca de Sir James e viemos logo.
O rapaz estava de atalaia,  nossa espera, e bastante preocupado com o que lhe teria acontecido a si.
Escutou  porta do apartamento, mas no conseguiu ouvir nada. O facto  que ele sugeriu
transportar-nos no elevador de servio em lugar de tocar a campainha.
332
E, com a maior segurana fomos ter  cozinha e da directamente  sala em que voc se encontrava.
Albert ainda est l em baixo e a esta hora deve estar doente de ansiedade. Dizendo isto, Julius saiu
abruptamente.
Miss Tuppence disse Sir James a senhora conhece melhor a casa que eu. Onde sugere que
estabeleamos o nosso acantonamento ?
Tuppence reflectiu por instantes.
Creio que o boudoir de Mrs. Vandemeyer  a sala que oferece mais conforto disse por fim.
Sir James olhou em derredor, com ares de aprovao.
Aqui ficaremos muito bem. E agora, minha prezada senhora, recolha-se e durma um pouco.
Tuppence sacudiu a cabea com resoluo.
No posso, Sir James. Sonharia com Mr. Brown toda a noite!
Mas est cansada, minha filha.
., No, no quero. Prefiro ficar acordada de facto. O advogado no insistiu.
Julius reapareceu ao cabo de poucos minutos, depois de tranquilizar Albert e recompens-lo
fartamente pelos seus servios. No conseguindo, por seu turno, convencer Tuppence a ir dormir,
disse com ar decidido:
Em todo o caso, voc pode arranjar algo para comer. Onde  a despensa?
Tuppence ensinou-lhe o caminho e o americano voltou dentro de poucos minutos com um pastel
frio e trs pratos.
Depois de uma refeio reconfortante, a jovem sentiu-se inclinada a lanar ao desprezo as fantasias
de meia hora antes. A fora do dinheiro no poderia falhar.
E agora, Miss Tuppence disse Sir James queremos ouvir as suas aventuras.
Outro tanto digo euconcordou Julius. Tuppence narrou as suas aventuras com um pouco de
modstia. Julius de quando em quando exclamava com admirao :
Esta  boa!
335
Sir James nada disse at ao final, quando o seu Muito bem, Miss Tuppence deixou a jovem
corada de satisfao.
Uma coisa no compreendi muito bemdisse Julius. Porque  que ela resolvera ir-se embora?
No sei confessou Tuppence.
Sir James bateu no queixo, pensativo.
O quarto encontrava-se em grande desordem. Parece indicar que a partida no fora premeditada.
Dir-se-ia que ela recebeu um aviso inopinado de algum.
De Mr. Brown, suponho disse Julius, num ar de mofa. O advogado contemplou-o deliberadamente
por um ou dois minutos.
Porque no?disse. Lembre-se que o senhor mesmo foi vencido por ele uma vez.
Julius corou, vexado.
Quase enlouqueo quando penso que lhe entreguei como um cordeiro a fotografia de Jane. Ah,
se eu tornar a pr as mos no retrato, agarrar-me-ei a ele como... como o diabo!
Essa , com toda a probabilidade, uma contingncia remota disse o advogado secamente.
Creio que o senhor tem razo respondeu Julius com franqueza. E, de qualquer modo,  o original
que eu procuro. Onde pensa o senhor que ela esteja, Sir James ?
O advogado abanou a cabea.
Impossvel dizer. Mas tenho uma ideia sobre onde ela esteve.
O senhor? Onde? Sir James sorriu.
O cenrio das suas aventuras nocturnas, o sanatrio de Bournemouth.
L? Impossvel. Eu perguntei.
No, meu jovem. O senhor perguntou se algum, de nome Jane Finn, l estivera. Mas se internaram
a pequena no estabelecimento, foi com certeza com um nome suposto.
Esta  ptima! exclamou Julius. Nunca pensei nisso!
Era bvio declarou o outro.
334
Talvez o mdico tambm esteja implicado no caso lembrou Tuppence.
Julius abanou a cabea.
No sou dessa opinio. Impossvel que me tenha enganado com ele. No, tenho absoluta certeza de
que o dr. Hall  um homem s direitas.
Hall, foi o que o senhor disse?perguntou Sir James.  curioso.
Porqu?inquiriu Tuppence.
Porque acontece que eu me encontrei com ele hoje pela manh. Mantivemos relaes de cortesia
por alguns anos e esta manh esbarrei com ele em plena rua. Disse-me que est no Metrpole.
Voltou-se para Julius. Ele no lhe disse que pretendia vir  cidade?
Julius fez um sinal afirmativo com a cabea.
 curioso cismou Sir James. O senhor no me falou nele esta tarde, seno eu recomendaria que lhe
fosse solicitar maiores informaes, levando um carto meu de apresentao.
Desconfio que sou um parvo disse Julius com excepcional humildade. Eu devia ter pensado no
truque do nome falso.
Como pensar seja em que for depois de cair de uma rvore ? disse Tuppence. Estou certa de
que qualquer outra pessoa teria feito o mesmo.
Enfim, creio que isso agora j no interessa disse Julius. Temos Mrs. Vandemeyer presa por
uma corda e  tudo quanto necessitamos.
Simdisse Tuppence, mas no com muita convico. Reinou silncio no pequeno grupo. A pouco e
pouco, omistrio da noite principiou a exercer influncia sobre eles. Ouviam-se repentinos estalos
nos mveis, imperceptveis sussurros nas cortinas. De sbito, Tuppence deu um pulo e ps-se de p
com um grito.
No o posso evitar! Sei que Mr. Brown se encontra neste apartamento. Sinto-o!
Ora, Tuppence, como poderia ele estar aqui? Esta porta
335
abre para o hall. Ningum poderia entrar pela porta da frente sem ser visto ou ouvido por ns.
No o posso evitar. Sinto que ele se encontra aqui! Contemplou Sir James como num apelo e o
advogado respondeu gravemente:
com o devido respeito aos seus pressentimentos, Miss Tuppence (e tambm aos meus, nesse
caso), no compreendo como seja humanamente possvel que algum se encontre neste
apartamento sem nosso conhecimento.
A jovem ficou mais confortada com essas palavras.
Passar a noite sem dormir causa sempre depresso confessou.
Sim disse Sir James. Estamos em condies idnticas as das pessoas que se acham numa sesso
esprita. Se contssemos com a presena de um mdium, talvez consegussemos resultados
prodigiosos.
O senhor acredita no espiritismo ? perguntou Tuppence abrindo desmesuradamente os olhos.
O advogado encolheu os ombros.
A doutrina possui o seu contedo de verdade, no resta dvida. Mas a maior parte do que afirmam a
tal respeito no resiste a provas testemunhais.
Escoavam-se as horas. Aos primeiros e tnues clares da madrugada, Sir James descerrou as
cortinas. Contemplaram um espectculo que poucos londrinos presenciam a lenta ascenso do Sol
sobre a cidade adormecida. De certo modo, depois que a luz surgiu, as apreenses e ideias
fantsticas da noite passada pareciam absurdas. O nimo de Tuppence voltou ao normal.
Ora! disse ela. Vamos ter um dia bonito. E encontraremos Tommy. E Jane Finn. E tudo ser
maravilhoso.
s sete horas, Tuppence resolveu preparar um pouco de ch. Voltou com uma bandeja contendo um
bule e quatro chvenas.
Para quem  a quarta chvena?perguntou Julius.
Para a prisioneira,  claro. No acha que podemos acord-la ?
336
Parece-me justo dar-lhe um pouco de ch declarou Julius, pensativo.
Sim admitiu Tuppence. Talvez queiram vir tambm, para o caso que ela me agrida ou cometa outra
inconvenincia. No sei com que disposio ela vai despertar.
Sir James e Julius acompanharam-na at  porta.
Onde est a chave? Ah, tenho-a comigo,  claro. Tuppence meteu a chave na fechadura, f-la girar e
deteve-se.
E se, depois de tudo, ela fugiu?--murmurou.
Absolutamente impossvel replicou Julius com confiana.
Sir James, porm, nada disse.
Tuppence respirou fundo e entrou. com um suspiro de alvio viu Mrs. Vandemeyer deitada no leito.
bom dia . - saudou com vivacidade. - Trouxe-lhe um pouco de ch.
Mrs. Vandemeyer no respondeu. Tuppence deps a chvena sobre a mesa de cabeceira e afastou-se
para abrir as cortinas. Quando voltou, Mrs. Vandemeyer continuava deitada sem fazer o menor
movimento. Sentindo um repentino aperto no corao, Tuppence precipitou-se para junto do leito.
A mo que ergueu entre as suas estava fria como gelo... Agora, Mrs. Vandemeyer nunca mais
falaria...
O grito de Tuppence atraiu os homens. Bastaram poucos instantes. Mrs. Vandemeyer morrera havia
j algumas horas. Evidentemente, morrera em pleno sono.
 a mais cruel infelicidade! urrou Julius, em desespero.
O advogado conservou-se mais calmo, mas em seus olhos luzia um brilho singular.
J  falta de sorte replicou. Quase que leva a pensar que... mas no,  de todo impossvel que
algum tenha entrado aqui.
No disse o advogado. No vejo como algum pudesse entrar. E, no entanto, quando ela
estava a ponto de atraioar Mr. Brown... morre de repente. Ser mero acaso?
22 VAMP. G. 1
337
Mas de que maneira...
Sim, de que maneira?!  o que temos de descobrir. Ficou de p, em silncio. Temos de
descobrir disse, calmamente, e Tuppence sentiu que se ela fosse Mr. Brown no gostaria do tom
daquelas simples palavras.
Julius olhou para a janela.
A janela est aberta observou. No ser o caso... Tuppence abanou a cabea.
A sacada prolonga-se apenas at ao boudoir. E ns estvamos l.
Ele poderia ter deslizado... sugeriu Julius. Sir James, porm, interrompeu-o.
Os mtodos de Mr. Brown no so to simples. Devemos chamar um mdico; antes, porm, no
ser conveniente ver se existe neste quarto alguma coisa de utilidade para ns?
Rapidamente, lanaram-se os trs  busca. Um amontoado de restos carbonizados na grade da
lareira indicava que Mrs. Vandemeyer queimara papis na vspera da fuga. No sobrou nada de
importncia, embora eles estendessem a busca aos demais aposentos da casa.
Aquilo ali disse Tuppence de sbito, apontando para um cofre pequeno e antigo embutido na
parede.  o guarda-jias, ao que me parece, mas talvez contenha mais alguma coisa.
A chave encontrava-se na fechadura e Julius abriu a porta do cofre e examinou-lhe o interior.
Demorou-se um pouco nesse trabalho.
E ento?perguntou Tuppence, impaciente.
Reinou um instante de silncio antes que Julius respondesse; depois, retirou a cabea do interior do
cofre e fechou a porta.
Nada disse.
Em cinco minutos chegou um mdico jovem e vivaz, chamado com urgncia. Mostrou-se muito
atencioso paracom Sir James, a quem logo reconheceu.
Colapso cardaco ou talvez uma superdose de algum
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soporfero. Farejou o ambiente. Ainda h no arum cheiro de cloral.
Tuppence lembrou-se do copo que derramara. E outro pensamento impeliu-a para o lavatrio.
Encontrou o pequeno frasco de que Mrs. Vandemeyer tirara algumas gotas.
O frasco ficara com dois teros do contedo. E agora... estava vazio.
339
XIV-UMA CONSULTA
Nada foi mais surpreendente e desnorteante para Tuppence do que a facilidade e simplicidade com
que tudo se arranjou, graas  habilidade de Sir James. O mdico aceitou sem rebuo a teoria de que
Mrs. Vandemeyer tomara por descuido uma dose excessiva de cloral. No acreditava que fosse
necessria uma investigao judicial. Mas se fosse, notificaria Sir James. Foi-lhe explicado que
Mrs. Vandemeyer se achava em vsperas de partida para o estrangeiro, j tendo despedido os
criados. Sir James e os seus jovens amigos tinham ido visit-la; ela fora acometida de um mal sbito
e os visitantes resolveram passar a noite no apartamento, receando deix-la sozinha. Sabiam se ela
tinha parentes? No sabiam, mas Sir James referiu-se ao procurador de Mrs. Vandemeyer.
Pouco depois chegou uma enfermeira para tomar conta do caso, e os demais abandonaram aquela
casa de mau agouro.
E agora?perguntou Julius, com um gesto de desespero. Creio que tudo se foi por gua abaixo.
Sir James bateu no queixo, pensativo.
No respondeu com calma. Resta ainda a possibilidade de que o dr. Hall nos possa dizer alguma
coisa.
Tem razo.
A possibilidade  mnima, mas nem por isso devemos desprez-la. Parece-me que j contei que ele
est hospedado no Metrpole. No meu entender, devemos fazer-lhe uma visita o mais breve
possvel. Talvez depois do banho e do pequeno almoo.
Ficou combinado que Tuppence e Julius voltariam ao Ritz,
340
indo depois buscar Sir James no automvel. O programa foi executado fielmente e, pouco depois
das onze horas, apeavam-se os trs em frente do Metrpole. Perguntaram pelo dr. Hall e um
empregado saiu  procura do homem. Poucos minutos depois, o doutorzinho correu pressuroso ao
encontro dos visitantes.
Pode conceder-nos uns instantes de ateno, dr. Hall? perguntou Sir James, afvel. Deixe-me
apresentar-lhe Miss Cowley. Mr. Hersheimmer, se me no engano, o senhor j conhece.
Um brilho zombeteiro cintilou nos olhos do mdico ao apertar a mo de Julius.
Ah, sim, o meu jovem amigo do episdio da rvore! O tornozelo j est bom ?
Est curado graas ao seu eficiente tratamento, doutor.
E o sofrimento do corao? Ah! Ah!
Continuo a procura rretorquiu Julius, lacnicamente.
Quanto ao motivo que aqui nos traz, poderamos falar-lhe em particular? perguntou Sir James.
Sem dvida. Ao que me parece, h aqui uma sala onde no seremos perturbados.
Ps-se em marcha e os outros acompanharam-no. Chegados  saleta, sentaram-se e o mdico fitou
Sir James interrogativamente.
Dr. Hall, estou muito ansioso por encontrar uma certa jovem com o fim de conseguir um
depoimento dela. Tenho razes para supor que ela esteve algum tempo internada no seu
estabelecimento de Bournemouth. Creio que no transgredirei a tica profissional ao fazer-lhe
perguntas sobre o assunto...
Trata-se de depoimento para fins judiciais ?
Sir James hesitou um momento; depois respondeu:
Sim.
Terei muito prazer em lhe fornecer qualquer informao que esteja ao meu alcance. Como se chama
ela? Mr. Hersheimmer falou-me, recordo...Voltou-se para Julius.
O nome disse Sir James bruscamente interessa muito
341
pouco.  quase certo que ela foi internada sob um nome suposto. Eu gostaria de saber, porm, se o
senhor mantm relaes com Mrs. Vandemeyer.
Mrs. Vandemeyer, de South Audley Mansions, n. 20.? Conheo-a vagamente.
No sabe o que aconteceu?
A que se refere?
No sabe que Mrs. Vandemeyer morreu?
Meu Deus, no tinha a menor ideia a esse respeito! Quando foi?
< Tomou uma superdose de cloral a noite passada.
Propositadamente ?
Por descuido, supomos. Pela minha parte, no posso garantir. Seja como for, encontraram-na morta
esta manh.
Lamentvel. Uma mulher de singular beleza. Penso que era pessoa de sua amizade, uma vez que o
senhor sabe de todos esses pormenores.
Sei todos os pormenores porque... bem, fui eu quem a encontrou morta.
No me diga!fez o mdico, num sobressalto.
Sim respondeu Sir James, batendo no queixo, pensativo.
So notcias bem tristes, mas no compreendo qual a relao que o assunto tem com o seu inqurito.
Relaciona-se do seguinte modo: no  verdade que Mrs. Vandemeyer confiou uma parenta jovem
aos seus cuidados ?
, Julius inclinou-se para a frente com ansiedade.
,  verdade respondeu o mdico, com toda a calma.
E a jovem chamava-se...?
Janet Vandemeyer. Disseram-me que era sobrinha de Mrs. Vandemeyer.
Quando  que a levaram para o sanatrio?
Se bem me recordo, em Junho ou Julho de 1915.
Era um caso de perturbao mental?
A jovem no era uma alienada, se  isso o que o senhor quer saber. Mrs. Vandemeyer referiu-me
que a jovem se
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encontrava no Lusitnia quando o malogrado navio foi a pique, e sofreu em consequncia um
choque fortssimo.
Estamos no caminho certo, no?Sir James lanou um olhar aos companheiros.
Como j disse, sou um parvo! retorquiu Julius. O mdico contemplou os trs com curiosidade.
O senhor declarou que deseja um depoimento da jovemdisse. E no caso de ela o no poder
prestar?
Qu? O senhor no acabou de nos dizer que ela se encontra em seu juzo perfeito?
Sim. No entanto, se o senhor quiser dela um depoimento relativo a qualquer acontecimento anterior
a 7 de Maio de1915, ela no estar em condies de o prestar.
Todos fixaram o homenzinho, atnitos. Ele abanou a cabea, com satisfao.
 uma pena declarou.  uma pena, em especial porque, pelo que vejo, o assunto se reveste de
importncia. Mas a verdade  que ela no ser capaz de lhe dizer nada.
Mas porqu, homem? Deixe-se de rodeios e responda: porqu ?
O homenzinho dirigiu um olhar benevolente ao irritado rapaz americano.
Porque Janet Vandemeyer sofre de uma perda total da memria.
-O qu?
Exactamente. Um caso interessante, um caso muito interessante. E no to espordico como
poderiam pensar. H inmeros paralelos, muito conhecidos.  o primeiro caso do gnero
que tive sob a minha observao pessoal e devo admitir que -
o achei de um interesse absorvente. Havia qualquer coisa de vampiresco na satisfao do
homenzinho.
E ela no se lembra de nada?perguntou Sir James em voz arrastada.
Nada anterior a 7 de Maio de 1915. Depois dessa data, a sua memria  to boa como a sua ou a
minha.
Qual , ento, a primeira coisa que recorda?
O desembarque com os sobreviventes. Antes disso,  tudo
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como uma pgina em branco. Ela no sabia sequer o prprio nome, de onde vinha ou onde se
encontrava. No podia mesmo falar a lingua materna.
Mas, com toda a certeza, um caso assim no  nada comum observou Julius.
Engana-se, meu caro jovem. Nas circunstncias em que ocorreu,  perfeitamente normal. Choque
muito forte para o sistema nervoso. A perda da memria sobrevm quase sempre com as mesmas
caractersticas. Eu,  bem de ver, sugeri o concurso de um especialista. H em Paris um brilhante
colega realiza estudos sobre casos dessa natureza mas Mrs. Vandemeyer ops-se ante a ideia
da publicidade que talvez resultasse de tal procedimento.
Compreendo a atitude dela disse Sir James com ironia.
Concordei com ela. Casos assim adquirem sempre certa notoriedade. E a rapariga era muito jovem
dezanove anos, presumo. Seria de lamentar que a sua enfermidade se convertesse em objecto de
comentrios, ameaando assim arruinar-lhe o futuro. Alm disso, no existe um tratamento especial
para seguir em tais casos. O nico remdio  esperar.
Esperar ?
Sim. Mais cedo ou mais tarde a memria voltar, to repentinamente como se foi. Mas com toda a
probabilidade a jovem esquecer por completo o perodo intermedirio e recomear a vida normal
no ponto em que a interrompeu : no afundamento do Lusitnia.
E quando acontecer isso, na sua opinio? O mdico encolheu os ombros.
No sei dizer. s vezes  questo de meses, outras vezes chega a levar vinte anos! No raro, outro
choque produz a cura. Um restaura o que o outro destruiu.
Outro choque, no?disse Julius, pensativo.
Sim. Registou-se um caso no Colorado... A conversa do homenzinho enveredou por esse rumo,
volvel, num entusiasmo comedido.
Julius parecia no escutar. Mergulhara nos seus pensamentos e tinha um vinco na testa. De repente,
emergiu da
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funda concentrao mental e o seu punho golpeou a mesa com um murro estrepitoso que fez todos
pularem, o mdico mais que todos.
Achei! Doutor, peo a sua opinio profissional para o plano que Vou expor. Suponhamos que Jane
mais uma vez cruze o oceano e que se repitam os mesmos acontecimentos. O submarino, o
afundamento do navio, a corrida para os escaleres e assim por diante. Isto no provocaria o choque?
No seria um poderoso golpe sobre o ego subconsciente, que faria recuperar o funcionamento
normal?
Uma lucubrao muito interessante, Mr. Hersheimmer. Na minha opinio, teria o mais completo
xito.  pena que no haja possibilidade de se repetirem as condies conforme o senhor sugere.
No por meios naturais, talvez, doutor. Mas eu refiro-me  repetio do facto por meios artificiais.
Artificiais?
Sim. Porque no? Qual  a dificuldade? Aluga-se um paquete de carreira...
Um paquete! murmurou o mdico, em voz desfalecida.
Contratam-se alguns passageiros, aluga-se um submarino essa  a nica dificuldade, no meu
entender. Os governos costumam esconder muito as suas mquinas de guerra. No vendero uma ao
primeiro que aparecer. Mesmo assim, pode levar-se a cabo o empreendimento. O senhor j ouviu
falar na palavra suborno? Pois com suborno arranja-se tudo. Acredito que no haver necessidade
de lanar um torpedo de verdade. Se toda a gente simular agitao, berrando com todas as foras
que o navio est a afundar-se, isso deve ser o suficiente para uma jovem inocente como Jane. No
mesmo instante, ela equipa-se com um cinto salva-vidas e ser impelida para um escaler, enquanto
uma equipa de actores se encarregar de produzir um alarido histrico no convstudo porque ela
deve recomear no ponto em que se encontrava em Maio de 1915. Que acham deste resumido
plano?
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O dr. Hall dirigiu um olhar a Julius. Tudo o que ele no momento foi incapaz de dizer se exprimiu
com eloquncia naquele olhar.
Nodisse Julius, em resposta ao olhar do mdico. No estou louco. A coisa  perfeitamente
possvel. Nos Estados Unidos, coisas assim fazem-se todos os dias para o cinema. No tem visto
colises de comboios na tela ? Que diferena existe entre comprar um comboio e comprar um
navio? Conseguindo os elementos necessrios, estar tudo arranjado!
O dr. Hall recuperou a voz.
Mas, e as despesas, meu caro jovem!A sua voz tornou-se mais intensa. As despesas! Seriam
colossais!
Dinheiro no me preocupa explicou Julius com simplicidade.
O dr. Hall voltou-se como num apelo para Sir James, que sorriu ligeiramente.
Mr. Hersheimmer  muito rico... muito rico, na verdade. Voltando-se para Julius, o olhar do mdico
adquirira umaqualidade nova e subtil. J no se tratava de um rapaz excntrico, com o hbito de cair
das rvores. Os olhos do mdico manifestavam a deferncia devida a um homem verdadeiramente
rico.
O plano  notvel. Muito notvel murmurou. O cinema, os filmes  claro! Muito interessante. Creio
apenas que ns, ingleses, estamos ainda um pouco atrasados nos nossos mtodos. E o senhor
pretende de facto executar o seu notvel plano ?
O senhor pode apostar o seu derradeiro dlar em como o executarei.
O mdico acreditou na afirmativa do rapaz prestava assim uma homenagem  sua nacionalidade. Se
fosse um ingls a sugerir semelhante coisa, no teria dvidas em diagnosticar um caso de loucura.
No posso garantir que com isso a jovem se restabelea declarou. Devo deixar isto bem claro.
Sim, no h dvidadisse Julius. Entregue-me Jane e deixe o resto por minha conta.
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-Jane?
Ou Miss Janet Vandemeyer. Podemos telefonar para o Seu sanatrio pedindo que a mandem para
c. Ou  melhor irmos at l para a trazer no meu automvel?
O mdico fitou-o com espanto.
Desculpe, Mr. Hersheimmer. Pensei que o senhor havia compreendido.
Compreendido o qu?
Que Miss Vandemeyer j no se encontra sob os meus cuidados.
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XV  TUPPENCE PEDIDA EM CASAMENTO
Julius deu um pulo. O qu?
Pensei que o senhor tinha percebido...
Quando foi que ela partiu?
Deixe ver. Hoje  segunda-feira, no? Foi, se no me engano, na quarta-feira passada...
interessante... sim. foi na mesma noite em que o senhor caiu da minha rvore...
Naquela noite? Antes ou depois?
Deixe ver... Ah, sim, depois. Chegou um recado urgentssimo de Mrs. Vandemeyer. A jovem e a
enfermeira que tratava dela partiram pelo comboio da noite.
Julius caiu para trs na sua cadeira.
A enfermeira Edith... partiu com uma doente... eu lembro-memurmurou. Meu Deus, dizer que ela
esteve to perto de mim!
O dr. Hall fitou-o com espanto.
No compreendo. A jovem no se encontra em companhia da tia?
Tuppence sacudiu a cabea. Ia falar quando um olhar de advertncia de Sir James a obrigou a deterse.
O advogado ergueu-se.
Fico-lhe muito obrigado, Hall. Muito grato por tudo o que nos contou. Estamos de novo em posio
de seguir as pegadas de Miss Vandemeyer. E a enfermeira que a acompanhou? No sabe onde ela se
encontra?
O mdico abanou a cabea.
No recebemos notcias da enfermeira Edith. Creio que
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deve ter ficado com Miss Vandemeyer por algum tempo. Mas que pode ter acontecido? Por certo, a
jovem no foi raptada.
Isso  o que resta ver disse Sir James com gravidade. O mdico hesitou.
Acha que devo comunicar  polcia?
No, no. com toda a probabilidade, a jovem acha-se na companhia de outros parentes.
O mdico no ficou muito satisfeito, mas percebeu que Sir James no estava disposto a dizer mais
nada e compreendeu que tentar obter maiores informaes do famoso advogado seria desperdcio
intil de tempo. Assim, apertou a mo aos visitantes, que deixaram o hotel. Poucos instantes depois,
os trs conversavam junto do automvel.
 de enlouquecer exclamou Tuppence. Pensar que Julius esteve de facto com ela sob o mesmo
tecto, por algumas horas.
Sou um idiota chapado murmurou Julius com tristeza.
Voc no podia saber consolou-o Tuppence. Podia ? Apelou para Sir James.
Aconselho-o a que no se preocupe disse com bondade o advogado. No adianta chorar sobre o
leite entornado, como sabe.
O que importa  saber o que faremos em seguida acrescentou Tuppence, prtica.
Sir James encolheu os ombros.
Pode publicar-se um anncio chamando a enfermeira que acompanhou a jovem.  s o que posso
sugerir e confesso que no deposito nisso muita esperana. Nada mais se pode fazer.
Nada?perguntou Tuppence, confusa. E... Tommy?
Devemos esperar pelo melhor disse Sir James. Sim, devemos continuar a esperar.
Mas, por cima da cabea curvada da rapariga, os olhos do advogado encontraram os de Julius e,
quase imperceptivelmente, Sir James balouou a cabea. Julius compreendeu. O advogado
considerava o caso sem esperanas. O rosto
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do rapaz americano tornou-se grave. Sir James tomou a mo de Tuppence.
Deve comunicar-me tudo que venha a saber. As cartas sero sempre expedidas para onde eu estiver.
Tuppence encarou-o, confusa.
O senhor vai viajar?
J lho disse. No se recorda ? Para a Esccia.
Sim, mas eu pensei... Hesitou. Sir James encolheu os ombros.
Minha prezada jovem, nada mais posso fazer, sinto diz-lo. Todas as nossas pistas se desfizeram no
ar. Dou-lhe a minha palavra em como nada mais resta fazer. Se surgir alguma novidade, ficarei
muito satisfeito se me avisar como puder.
As suas palavras causaram a Tuppence um sentimento de extraordinria desolao.
Acho que o senhor tem razodisse ela. De qualquer modo, agradeo-lhe muito por haver tentado
ajudar-nos. Adeus!
Julius encontrava-se junto do automvel. Momentnea compaixo transluziu nos olhos penetrantes
de Sir James ao contemplar o rosto deprimido da jovem.
No fique to desconsolada, Miss Tuppence disse em voz baixa. Recorde-se de que as frias nem
sempre servem apenas para divertimentos. s vezes, servem tambm para trabalhar.
O tom em que falou fez com que Tuppence levantasse os olhos vivamente. O homem abanou a
cabea com um sorriso.
No, no direi mais nada.  grave erro falar demais. Lembre-se disso. Nunca conte a ningum tudo
o que sabe nem mesmo  pessoa que melhor conhea. Compreende? Adeus!
Afastou-se. Tuppence ficou a contempl-lo. Comeava a compreender os mtodos de Sir James. J
uma vez, anteriormente, ele lhe fizera uma insinuao da mesma maneira cautelosa. Repetia-se o
caso agora? Que sentido se ocultaria por trs daquelas breves palavras? Quereria ele dizer que,
350
apesar de tudo, no abandonara o caso; que, em segredo, continuaria a trabalhar, enquanto...
Julius interrompeu-lhe as reflexes, convidando-a a entrar no automvel.
Voc parece muito pensativa observou o rapaz, ao partirem. O homem disse mais alguma coisa?
Tuppence abriu a boca num impulso, depois tornou a fech-la. Soaram-lhe ao ouvido as palavras de
Sir James: Nunca conte a ningum tudo o que sabe nem mesmo  pessoa que melhor conhea. E,
como um relmpago, veio-lhe  mente outra lembrana: Julius diante do cofre, no apartamento, a
pergunta dela e o silncio do rapaz antes de responder: Nada. No haveria de facto nada? Ou ele
encontrara alguma coisa que desejava guardar para si? Se ele se permitia uma tal reserva, o mesmo
poderia ela fazer.
Nada de extraordinrio replicou.
Sentiu, mais do que viu, Julius lanar-lhe um olhar de soslaio.
Vamos dar um giro pelo parque?
Como quiser.
Por alguns momentos o carro deslizou sob as rvores e eles conservaram-se em silncio. O dia
estava bonito. A ardente vibrao do ar restituiu o bom humor a Tuppence.
Escute, Miss Tuppence, acha que encontrarei Jane algum dia?
Julius falou com voz desanimada. Era nele uma atitude to estranha que Tuppence se voltou e o
contemplou surpresa. Ele abanou a cabea.
 isso. Estou descorooado. Sir James hoje no deu qualquer esperana, como pude perceber. No
gosto dele nem sempre as nossas opinies coincidem mas  muito inteligente e acho que ele no
desistiria se vislumbrasse qualquer possibilidade de xito, no acha?
Tuppence sentiu um pouco de remorsos, mas, persuadida de que Julius ocultara dela alguma coisa,
ficou firme.
Ele sugeriu o anncio para encontrar a enfermeira lembrou.
351
Sim, com um acento de derradeira esperana na voz! No. J estou farto. Estou quase resolvido a
regressar imediatamente aos Estados Unidos.
Oh, no! exclamou Tuppence. Temos de descobrir Tommy.
Ora, esquecia-me de Beresfor ddisse Julius, arrependido. Com efeito. Temos de o encontrar. Mas
depois... bem, eu tenho andado a sonhar de olhos abertos desde que comecei esta viagem... e esses
sonhos nada valem. Vou abandon-los. Escute, Miss Tuppence, gostaria de lhe perguntar uma
coisa.
-Sim?
Voc e Beresford. Que h entre ambos? ,
No o compreendo replicou Tuppence, com dignidade, acrescentando de modo muito incoerente: E,
seja como for, voc est enganado!
No h uma espcie de sentimento afectuoso entre um e outro?
Claro que nodisse Tuppence com calor. Tommy e eu somos amigos, nada mais.
Creio que todos os parzinhos de namorados dizem a mesma coisa observou Julius.
Tolice exclamou Tuppence. Voc acha que eu sou o tipo de rapariga que se apaixona por todos os
homens que encontra?
Voc no. Voc  o tipo de rapariga que pode fazer muitos homens apaixonarem-se!
Oh!fez Tuppence, reclinando-se na almofada. Creio que  um galanteio?
Por certo. Agora, vamos ao caso. Suponha que no torna a encontrar Beresford e... e...
Muito bem... diga! Tenho foras para enfrentar os factos. Suponha que ele... morreu! No  isso?
E, assim, termine toda esta complicao. Que faria voc?
No sei disse Tuppence, desolada.
Ficaria numa triste solido, pobre pequena.
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Ficarei muito bem exclamou Tuppence, com o seu habitual ressentimento ante qualquer espcie de
piedade que lhe votassem.
E a respeito de casamento?perguntou Julius. No tem opinio sobre o assunto?
Pretendo casar-me,  claro replicou Tuppence. Isto , no caso de... calou-se, afastou um
momentneo desejo, e depois descarregou as suas armas com bravura: Posso encontrar um homem
bastante rico para valer a pena... Bastante franqueza, no acha? Creio que voc me desprezar por
isto.
Jamais desprezo o instinto comercial disse Julius. Que tipo especial tem voc em mente?
Tipo?perguntou Tuppence, intrigada. Voc quer dizer alto ou baixo?
No. Refiro-me ao dinheiro  renda.
Oh, eu... eu ainda no me dei ao trabalhe de meditar nisso.
Que acha de mim?
-Voc?
-Claro.  
Oh, para mim seria impossvel!
Porqu?
Afirmo-lhe que seria impossvel.
Mais uma vez: porqu?
Pareceria muito desleal.
No vejo nada de desleal no caso. Vejo apenas franqueza da sua parte. Admiro-a imensamente,
Miss Tuppence, mais do que a qualquer outra jovem que tenha conhecido.  muito valorosa. Nada
mais quero do que proporcionar-lhe uma vida na verdade agradvel e feliz. Diga que sim e daqui
mesmo iremos a uma joalheria de primeira classe para tratar da questo do anel.
No posso ciciou Tuppence.
-Por causa de Beresford?
No, no, no! 
Ento, porqu?
Tuppence continuou apenas a abanar a cabea violentamente.
No pode razoavelmente esperar mais dlares do que os que tenho.
Oh, no  isso ofegou Tuppence, com uma risada quase histrica. Mas, agradecendo-lhe muito, e
tudo o mais, julgo que  melhor responder: no.
Ficaria muito grato se me fizesse o favor de pensar no assunto at amanh.
 intil.
Mesmo assim convm deixarmos o caso no p em que est.
Muito bem disse Tuppence, com humildade.
Nem um nem outro falaram at chegarem ao Ritz.
Tuppence subiu para os seus aposentos. Sentia-se moralmente abatida depois da luta com a vigorosa
personalidade de Julius. Sentando-se diante do espelho, mirou por instantes a prpria imagem.
Tola sussurrou Tuppence por fim, fazendo uma careta. Tolinha. Tudo o que queres, todas as coisas
com que sempre sonhaste... e soltas um no como uma idiota.  a tua oportunidade. Porque no
aproveit-la ? E agarr-la ? E arrebat-la com sofreguido? Que mais queres?
Como em resposta s suas prprias perguntas, os seus olhos caram sobre uma pequena fotografia
de Tommy que se encontrava no toucador, em velha moldura. Por instantes, lutou pelo autodomnio
e depois, abandonando toda a impostura, apertou o retrato contra os lbios e prorrompeu em
soluos.
Oh, Tommy, Tommy! exclamou. Amo-o tanto e talvez nunca mais o torne a ver...
Ao cabo de cinco minutos Tuppence sentou-se, limpou o nariz e arrepelou os cabelos para trs.
 istoobservou com firmeza. Encaremos os factos frente a frente. Parece que me apaixonei por um
rapaz idiota para quem eu talvez nada signifique. Calou-se. Seja como for recomeou, como que a
argumentar com um adversrio invisvel no sei quais so os sentimentos dele a meu respeito.
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 bastante reservado nesse particular. E eu sempre zombei do sentimento... e agora aqui estou mais
sentimental que ningum. Como so idiotas as raparigas! Foi sempre o que pensei. Acho que vou
dormir com a fotografia dele sob o travesseiro e sonhar com ele toda a noite.  horrvel a gente
sentir que transgride os seus prprios princpios.
Tuppence sacudiu a cabea com tristeza, ao pensar na sua apostasia.
No sei o que dizer a Julius, francamente. Oh, como me sinto estpida! Terei que dizer alguma
coisa; ele  americano e portanto insistir em que a razo est do seu lado. Acho que se ele
encontrou alguma coisa naquele cofre...
As reflexes de Tuppence tomaram outra direco. Reviu os acontecimentos da noite anterior,
cuidadosa e persistentemente. De certo modo, pareciam ter ponto final nas palavras enigmticas de
Sir James...
De sbito, estremeceu num forte sobressalto fugiram-lhe as cores do rosto. Fascinada, mirava no
espelho os seus prprios olhos esgazeados, as pupilas dilatadas.
Impossvel! murmurou. Impossvel! Devo estar louca s por pensar em semelhante coisa...
Seria monstruoso mas, sem embargo, explicaria tudo...
Depois de reflectir alguns momentos, sentou-se e escreveu um bilhete, pesando cada palavra. Por
fim, inclinou a cabea num ar de satisfao e meteu a folha de papel num sobrescrito que endereou
a Julius. Foi pelo corredor at  sala de estar dos aposentos do americano e bateu  porta. Como
esperava, a sala estava vazia. Deixou o sobrescrito em cima da mesa.
Ao voltar, aguardava-a  porta do seu quarto um garoto empregado do hotel.
Telegrama para a senhora, miss.
Tuppence tirou o telegrama da salva e abriu-o com cuidado. Deu um grito. O telegrama era de
Tommy!
XVI-NOVAS AVENTURAS DE TOMMY
Tommy recuperou lentamente os sentidos, arrastando-os do fundo de uma escurido ponteada de
repentinos clares palpitantes para a luz da vida. Quando por fim abriu os olhos, no tinha
conscincia de nada, a no ser de uma dor Cruciante nas tmporas. Teve uma vaga noo de que o
rodeava um ambiente desconhecido. Onde estava? Que acontecera? Piscou os olhos, dbilmente.
Aquilo no era o seu quarto de dormir no Ritz. E porque lhe doa tanto a cabea?
Diabo!exclamou Tommy, tentando sentar-se. Recordara-se. Estava na casa sinistra de Soho. Soltou
um gemido e caiu para trs. Atravs das plpebras semicerradas procedeu a um cuidadoso
reconhecimento do ambiente.
Est a voltar a siobservou uma voz muito perto do ouvido de Tommy. Reconheceu a voz, que era a
do alemo eficiente, e conservou-se inerte, em atitude artstica. compreendeu que seria insensatez
recuperar os sentidos cedo demais; e enquanto a dor de cabea no se tornasse menos aguda,
estaria absolutamente incapaz de coordenar as ideias. Penosamente, tentou configurar o que
acontecera. Sem dvida, algum se esgueirara por trs dele, enquanto estava  escuta, e lhe vibrara
um golpe na cabea. Consideravam-no agora um espio e no usariam de benignidade.
Encontrava-se, na certa, em apuros. Ningum sabia onde ele estava, portanto no podia esperar
auxlio exterior e devia confiar apenas na sua esperteza.
bom, l vai-murmurou Tommy de si para consigo, e repetiu a observao anterior.
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Diabo!falou, e desta vez conseguiu sentar-se.
Em questo de momentos, o alemo inclinou-se e colocou-lhe um copo nos lbios com a ordem
breve:
-Beba.
Tommy obedeceu. O sorvo, bastante forte, sufucou-o mas clareou-lhe a mente de forma estupenda.
Achava-se deitado num canap na sala em que se realizara a reunio. A um lado viu o alemo; e a
outro o porteiro com cara de rufia que lhe permitira entrar. Os outros agrupavam-se a pequena
distncia. Mas Tommy deu pela falta de uma cara. O homem conhecido como Nmero Um j no
se encontrava entre o bando.
Sente-se melhor? perguntou o alemo ao retirar o copo vazio.
Sim, obrigado respondeu Tommy, alegremente. Ah, meu amiguinho,  uma sorte para si possuir
umcrnio to duro. O bom do Conrad bateu-lhe com fora. Indicou com um gesto o porteiro de
cara perversa.
O homem sorriu.
Tommy voltou a cabea com esforo.
Ohdissecom que ento voc  Conrad, hein? Acho que a natureza do meu crnio foi uma
sorte para si tambm. Quando olho para a sua cara quase lamento no ter contribudo para o mandar
para as mos do carrasco.
O homem resmungou e o alemo disse com calma:
Quanto a isso, ele no correu o mnimo perigo.
Como queira replicou Tommy. Sei que  moda no ligar importncia  polcia. Eu mesmo pouco
acredito nela.
As suas maneiras eram indiferentes em extremo. Tommy Beresford era um desses jovens ingleses
que no se distinguem por nenhum talento especial, mas que brilham quando se encontram em
apuros, como se costuma dizer. Ento, despem como uma luva a desconfiana e a prudncia
inatas. Tommy compreendia perfeitamente que a nica esperana de fuga dependia s da sua
esperteza e por trs da sua atitude negligente o crebro funcionava-lhe com precipitao.
O alemo, com a sua voz frgida, recomeou a conversa:
No tem nada a dizer antes que o mandemos matar como espio?
Tenho, e aos montes replicou Tommy, com a mesma civilidade de antes.
Nega que estava a escutar  porta?
No. Devo em verdade pedir desculpas, mas a conversa que mantinham era to interessante que
venceu os meus escrpulos.
Como entrou?
Aqui o prezado Conrad... Tommy sorriu com ar depreciativo para o homem. Hesito em sugerir a
aposentadoria para um criado fiel, mas na verdade vocs precisam de um co de guarda melhor.
Conrad resmungou, impotente, e disse, de mau humor, quando o alemo se voltou para ele:
Deu a senha. Como poderia eu saber?
Sim disse Tommy, com ironia. Como poderia ele saber? No o censurem. O seu acto
precipitado proporcionou-me o prazer de os ver a todos cara a cara.
Imaginava que essas palavras causassem alguma confuso no grupo, mas o vigilante alemo
tranquilizou-os com um gesto.
- Os mortos no falam disse.
Ah! retorquiu Tommy. Mas eu ainda no morri.
Mas no tardar muito, meu amiguinho declarou o alemo.
Um murmrio de assentimento partiu do grupo. O corao de Tommy bateu acelerado, mas sem
afectar a tranquila jovialidade exterior.
Creio que no declarou com firmeza. Haveria muitos inconvenientes na minha morte.
Conseguiu embara-los, ao que pde observar numa olhadela ao rosto do seu captor.
Existe alguma razo por que no devemos mandar mat-lo? interrogou o alemo.
Existem muitas redarguiu Tommy. Escutem. Tm-me feito inmeras perguntas. Deixem-me
fazer uma,
358
em troca. Porque no me mataram antes que eu recuperasse os sentidos?
O alemo hesitou e Tommy aferrou-se  vantagem obtida.
Porque no sabem at onde vai o meu conhecimento das vossas actividades e onde adquiri esse
conhecimento. Se me matarem agora, nunca o sabero.
Mas aqui a perturbao de Boris recrudesceu a tal ponto que no a pde conter.
Espio do inferno! berrou. No teremos condescendncia. Matem-no! Matem-no!
Ergueu-se do grupo um clamor de aplausos.
Ouviu? perguntou o alemo com os olhos postos em Tommy. Que diz a isto ?
Eu?Tommy encolheu os ombros. Scia de idiotas. Eles que faam a si mesmos algumas perguntas.
Como penetrei nesta casa? Recorde o que disse o velho Conrad entrei porque dei a senha certa, no
 ? E de que modo vim a saber qual era a senha ? Julgam que bati  porta por casualidade e que
disse a primeira palavra que me veio  boca ?
Tommy sentiu-se satisfeito com as palavras finais do discurso. Lamentava apenas que Tuppence
no se achasse presente para a apreciar na plenitude do seu sabor.
-  verdade disse o operrio de repente. Companheiros, fomos atraioados!
Ouviu-se no grupo horrvel murmrio. Tommy sorriu para os homens, estimulando-os.
Assim  melhor. Como podem esperar xito em qualquer iniciativa se no usam a cabea?
Voc nos dir quem nos traiu declarou o alemo. Mas isso no o salvaroh, no! Contar-nos- tudo
o que sabe. Boris conhece mtodos excelentes para fazer as pessoas falarem!
Ora!fez Tommy com desdm, dominando uma sensao bastante desagradvel na boca do
estmago. No me torturaro nem me mataro.
Porqu?indagou Boris.
359
Porque seria o mesmo que matar a galinha dos ovos de ouro replicou Tommy com toda a calma.
Seguiu-se curto silncio. Parecia que a tranquilidade persistente de Tommy comeava a produzir
resultados. Eles j no se achavam completamente senhores de si mesmos. O homem de roupa
andrajosa contemplava Tommy com olhos perscrutadores.
Ele est a pregar-lhe uma pea, Boris disse, com calma.
Naquele momento, Tommy odiou-o. Teria o homem penetrado no seu ntimo?
O alemo, com um esforo, voltou-se rudemente para Tommy.
Que quer dizer voc?
Que pensa que eu quero dizer?esquivou-se Tommy, enquanto escarafunchava a mente em
desespero.
Inopinadamente, Boris avanou um passo e vibrou uma bofetada em Tommy.
Fale, ingls de uma figa... Fale!
No seja to irascvel, meu caro disse Tommy calmamente. Isto  o que vocs, estrangeiros, tm de
pior. So incapazes de manter a calma. Agora, pergunto, poderia eu conservar-me to firme se
pensasse existir a mnima probabilidade de me matarem?
Olhou em derredor confiantemente, satisfeito porque eles no podiam ouvir as teimosas pancadas
do corao que lhe desmentiam as palavras.
Noconveio Boris por fim, de mau humor. No poderia.
Graas a Deus, ele  incapaz de ler o pensamento
pensou Tommy. Em voz alta, continuou:
E porque estou to confiante? Porque sei algo que me coloca em posio de propor uma permuta.
Uma permuta?O alemo olhou-o vivamente.
Sin: uma permuta. A minha vida e liberdade contra...
Calou-se.
Contra o qu?
360
O grupo avanou. Podia-se ouvir a queda de um alfinete.
Tommy falou devagar.
Os papis que Danvers trouxe da Amrica no Lusitnia.
O efeito das suas palavras foi como uma descarga elctrica. Todos se puseram de p. O alemo,
com um gesto, obrigou-os a recuar. Inclinou-se para Tommy, o rosto rubro de excitao.
Himmel! Voc tem os papis, ento?
com calma magnificente, Tommy abanou a cabea.
Sabe onde esto?insistiu o alemo. Mais uma vez abanou a cabea.
No tenho a menor ideia.
Ento... ento...furioso e desapontado, no conseguiu encontrar palavras.
Tommy olhou em torno. Viu a clera e o assombro estampados em todas as fisionomias, mas a sua
absoluta tranquilidade dera resultados: ningum duvidava que algo se ocultava por trs das suas
palavras.
No sei onde esto os papis... mas creio que posso encontr-los. Tenho uma teoria...
Ora!
Tommy ergueu a mo e reduziu ao silncio os brados de decepo.
Digo teoria mas tenho plena confiana nos factos do meu conhecimento, factos que no so
conhecidos por mais ningum a no ser eu. De qualquer forma, que tm a perder ? Se eu conseguir
os papis, dar-me-o em troca a vida e a liberdade. No  uma permuta?
E se recusarmos?disse o alemo com calma. Tommy reclinou-se no canap.
O dia 29 disse, pensativo chegar em menos de uma quinzena...
Por um momento, o alemo hesitou. Depois, fez um sinal a Conrad.
Leve-o para a outra sala.
Durante cinco minutos Tommy sentou-se na cama do escuro quarto contguo. O corao pulsavalhe
com violncia. Arriscara tudo naquela cartada. Que resolveriam eles?
361
E, enquanto esta pergunta aflitiva lhe torturava o ntimo, no cessou de falar com petulncia a
Conrad, enfurecendo o martirizado porteiro a ponto de lhe produzir delrio homicida. Por fim, a
porta abriu-se e o alemo ordenou autoritariamente a Conrad que voltasse.
Espero que o juiz no ponha o capelo negro foi a frvola observao de Tommy. Est bem, Conrad,
leve-me. O cavalheiro vai para o banco dos rus, cavalheiros.
O alemo sentava-se mais uma vez por trs da mesa. Fez um sinal a Tommy para se sentar  sua
frente.
Aceito disse o alemo com severidade sob certas condies. Deve entregar-nos os papis antes de
recuperar a liberdade.
Idiota! exclamou Tommy amavelmente. Como pensa que posso procur-los se me mantm aqui
amarrado por uma perna?
Que quer, ento?
Preciso de liberdade para agir consoante os meus prprios mtodos.
O alemo riu-se.
Pensa que somos crianas para lhe permitir sair daqui, deixando-nos uma linda histria cheia de
promessas?
No disse Tommy, pensativo. Embora assim as coisas se simplificassem muito para mim, no creio
que concordassem com o plano. Temos de assumir um compromisso mtuo. E se destacassem
Conrad para vigiar os meus passos?  um companheiro fiel e bastante rpido no punho.
Preferimos declarou o alemo com frieza que voc permanea aqui. Um dos nossos executar as
suas instrues meticulosamente. Se o trabalho for complicado, voltar aqui trazendo informes e
poder receber novas instrues.
Isso  o mesmo que deixar-me de mos atadas queixou-se Tommy. Trata-se de assunto muito
delicado. E se o outro indivduo, mesmo sem o querer, fizer uma asneira, que me acontecer? No
acredito que um de vocs possua o mnimo do tacto que o caso requer.
O alemo bateu na mesa. >  !
362
So essas as condies. Ou isso ou a morte! Tommy reclinou-se na cadeira, com enfado.
Gosto desse estilo. Conciso mas atraente. Pois seja assim, ento. Uma coisa, porm,  essencial:
devo ver a jovem.
Que jovem?
Jane Finn,  claro.
O alemo fitou-o com curiosidade por alguns minutos, depois disse vagarosamente, como a
escolher com cuidado as palavras:
No sabe que ela nada pode dizer ?
O corao de Tommy pulsou em ritmo acelerado. Conseguiria encontrar frente a frente a quem
procurava?
No lhe vou pedir que me diga seja o que forrespondeu Tommy com calma. Isto , no em muitas
palavras.
Ento porque deseja v-la? Tommy retardou um pouco a resposta.
Para observar o rosto dela quando eu lhe fizer uma pergunta redarguiu por fim.
Mais uma vez, o alemo lhe dirigiu um olhar que Tommy no pde compreender.
Ela no poder responder  sua pergunta.
No importa. Poderei ver-lhe o rosto quando perguntar ?
E voc pensa que com isso poder descobrir algo? Soltou curta risada de desagrado. Mais do que
nunca, Tommy sentiu que havia um ponto qualquer que ele no compreendia. O alemo fitava-o
perscrutadoramente.
Estou a pensar se, no fim de contas, voc estar to bem informado quanto pensamos!declarou com
mansido.
Tommy pressentiu que a sua ascendncia j no tinha a mesma firmeza de momentos antes. A presa
resvalara-lhe um pouco da mo. Intrigava-o o caso, porm. Que erro teria praticado? Resolveu falar
de acordo com o impulso do momento.
H muitos pormenores que vocs conhecem e eu no. No pretendo estar a par de todos os detalhes
do vosso negcio. Mas, do mesmo modo, eu tambm sei de algumas particula-
365
ridades que vocs ignoram. Disso  que pretendo tirar partido. Danvers era um homem de uma inteligncia
tremenda...
Interrompeu-se, como se houvesse falado demais.
Mas a fisionomia do alemo iluminou-se um pouco.
Danversmurmurou. Compreendo... Calou-se por instantes e depois fez um sinal a Conrad. Leve-o. L para
cima, como sabe.
Espere um momento disse Tommy. E a respeito da rapariga?
Isso talvez se arranje.
 imprescindvel.
Trataremos do assunto. Somente uma pessoa o pode resolver.
Quem ? perguntou Tommy. Mas sabia qual seria a resposta.
Mr. Brown...
Poderei v-lo?
Talvez.
, Vamos! ordenou Conrad, com aspereza.
Tommy levantou-se, obediente. O carcereiro ordenou-lhe com um gesto que subisse as escadas. Seguiu o
prisioneiro de perto. No andar de cima, Conrad abriu uma porta e Tommy penetrou num pequeno aposento.
Conrad acendeu um bico de gs e saiu. Tommy ouviu o rudo da chave a girar na fechadura.
Comeou a examinar a priso. Era menor que a sala de baixo e com uma atmosfera em que se tornava
sensvel a insuficincia de ar. Compreendeu ento que no existia nenhuma janela. Caminhou em roda. Nas
paredes a porcaria acumulava-se, como em toda a casa. Quatro quadros, representando cenas do 
Fausto,
penduravam-se de travs nas paredes. Margarida com o cofre de jias, a cena da igreja, Siebel com as 
suas
flores e Fausto e Mefistfeles. O ltimo fez com que Mr. Brown retornasse  lembrana de Tommy. 
Naquele
quarto hermeticamente cerrado, com uma porta pesada e sem frinchas, sentia-se segregado do Mundo e o
poder sinistro do arquicriminoso parecia-lhe mais real. Mesmo que gritasse, ningum o poderia ouvir. Aquilo
era um tmulo...
364
com esforo, Tommy recuperou a calma. Afundou-se na cama e entregou-se  reflexo. Doa-lhe
terrivelmente a cabea; tambm tinha fome. O silncio tornava-se desalentador.
Seja como for disse Tommy, tentando reanimar-se verei o chefe, o misterioso Mr. Brown e, com um
pouco de sorte no embuste, verei tambm Jane Finn. Depois disso...
Depois disso, Tommy viu-se forado a reconhecer que as perspectivas se mostravam lgubres.
265
XVII - ANNETTE
As contrariedades futuras, todavia, em breve se desvaneceram ante as contrariedades do presente. E
destas, a mais imediata e premente era a fome. Tommy possua um apetite sadio e vigoroso. Tinha a
impresso de que o bife com batatas que comera ao almoo pertencia a outra dcada. com pesar,
reconheceu o facto de que no obteria nenhum xito numa greve da fome.
Vagueou em roda da priso, sem qualquer objectivo. Uma ou duas vezes ps a dignidade de lado e
bateu na porta. Mas ningum atendeu ao chamamento.
Que os leve o diabo! rugiu Tommy com indignao.
com certeza no pretendem matar-me de inanio.
Assaltou-o o novo temor de que aquele talvez fosse um dos mtodos excelentes de fazer um
prisioneiro falar, nos quais Boris era especializado, ao que disseram. Mas, reflectindo melhor,
rejeitou a ideia.
Isto  coisa desse patife do Conrad da cara azeda concluiu. Gostaria de me vingar desse sujeito
qualquer dia destes. No  seno despeito da parte dele. Garanto.
Meditaes subsequentes convenceram-no de que seria agradvel em extremo arremessar qualquer
coisa que batesse de golpe na cabea de ovo que Conrad possua. Tommy afagou com delicadeza a
prpria cabea e entregou-se ao prazer da imaginao. Por fim, uma ideia brilhante lhe iluminou o
crebro. Porque no converter a imaginao em realidade? Sem dvida, Conrad era o morador da
casa. Os outros, com a possvel excepo do alemo da barba,
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usavam a casa como simples local de reunio. Portanto, porque no aguardar Conrad de emboscada
atrs da porta e, quando ele entrasse, vibrar-lhe com uma cadeira ou um dos quadros vetustos, com
toda a agilidade, na cabea ? Tomaria cuidado,  claro, para no o ferir demais. Depois depois,
simplesmente sair a passo! Se encontrasse algum nas escadas, bem... Tommy animou-se ao
pensamento de um combate com os seus punhos. Quadrava-se muito melhor  sua pessoa do que o
combate verbal daquela tarde. Embriagado com o seu plano, Tommy retirou suavemente da parede
o quadro do Diabo e Fausto e colocou-se em posio. Nutria muitas esperanas. O plano parecia-lhe
simples mas excelente.
Escoava-se o tempo mas Conrad no aparecia. Naquela priso no se diferenava o dia da noite,
mas o relgio de pulso de Tommy, com aprecivel grau de preciso, informou-o de que eram nove
horas da noite. Tommy reflectiu com melancolia que se a ceia no chegasse depressa teria com
certeza que esperar pelo pequeno almoo do dia imediato. s dez horas as esperanas
abandonaram-no, e ele afundou-se no leito para procurar consolo no sono. Em cinco minutos
esquecera os inimigos.
O rudo da chave girando na fechadura despertou-o. No pertencendo ao tipo de heris famosos por
despertarem na plena posse das suas faculdades, Tommy apenas mirou o tecto com olhos piscos,
com vaga noo do local em que se achava. Em seguida lembrou-se e consultou o relgio. Eram
oito horas.
Ou  o ch matutino ou o pequeno almoo deduziu o rapaz. Praza aos Cus que seja o ltimo!
Abriu-se a porta. Tarde demais recordou o plano de se desembaraar do antiptico Conrad. Um
momento depois felicitava-se pelo esquecimento, pois no foi Conrad quem entrou, mas uma
rapariga. Trazia uma bandeja que deps sobre a mesa.
 dbil luz do bico de gs Tommy examinou-a. Concluiu prontamente que era uma das criaturas
mais belas que j vira. O cabelo era de um castanho opulento, com bruscos reflexos
367
de ouro. O rosto era de um rseo silvestre. Os olhos, bem separados, eram castanhos, de um
castanho dourado que recordava raios de Sol.
Um pensamento delirante cruzou o crebro de Tommy.
Voc  Jane Finn?perguntou, sem flego. A jovem abanou a cabea, admirada.
O meu nome  Annette, monsieur. Falava um ingls hesitante, incorrecto.
Oh! disse Tommy, desanimado.Franaise? aventurou.
Oui, monsieur. Monsieur parle franais ?
No o suficiente para uma conversa longa respondeu Tommy. Que  isso? O pequeno almoo?
A jovem inclinou a cabea afirmativamente. Tommy pulou da cama e foi inspeccionar o contedo
da bandeja. Consistia em um po, margarina e um bule de caf.
A vida aqui no  como no Ritzobservou com um suspiro. Mas por tudo o que houver por bem de
me conceder, o Senhor me torna verdadeiramente grato. Amen.
Puxou uma cadeira e a rapariga voltou-se para a porta.
Espere um momento gritou Tommy. Tenho um milho de perguntas para lhe fazer, Annette.
Que faz voc nesta casa ? No me diga que  sobrinha ou filha de Conrad, ou qualquer outra coisa
semelhante, porque no acredito.
Eu fao o servio, monsieur. No sou parenta de ningum. 
Compreendo disse Tommy. Voc sabe o que lhe perguntei h pouco. J ouviu falar naquele
nome ?
Creio que ouvi algum falar em Jane Finn.
Sabe onde ela est? Annette abanou a cabea.
No est nesta casa, por exemplo?
Oh, no, monsieur. Agora devo ir, eles esto  minha espera.
Saiu a toda a pressa. A chave girou na fechadura.
Calculo quem so elescismou Tommy, enquanto os seus dedos prosseguiam em incurses sobre o
po.
- Com um
368
pouco de sorte, talvez essa pequena me ajudasse a sair daqui. Ela no se parece com nenhum da
quadrilha.
 uma hora, Annette reapareceu com outra bandeja, mas desta vez Conrad acompanhava-a.
bom dia disse Tommy com amabilidade. Vejo que no fez uso de sabo de barba.
Conrad resmungou ameaas.
No tem nada a dizer, minha bonequinha? Ora, ora, nem sempre o talento pode emparelhar com a
formosura. Que temos para o almoo ? Guisado ? Como o descobri ?  elementar, meu caro
Watson: o cheiro das cebolas  inconfundvel.
V falando grunhiu Conrad. No dispor, talvez, de muito tempo para brincar.
A observao no sugeria nada de agradvel, mas Tommy fez como se no a tivesse ouvido.
Sentou-se  mesa.
Pode ir, criadinha disse, com um gesto. A loquacidade no  o seu melhor atributo.
Nessa noite, Tommy sentou-se no leito e meditou profundamente. Conrad tornaria a acompanhar a
rapariga ? E se no a acompanhasse, conviria tentar fazer dela uma aliada? Chegou  concluso de
que no devia desprezar nenhuma possibilidade. A sua situao era desesperada.
s oito horas ps-se de p ao ouvir o rudo familiar da chave. A rapariga chegou s.
Feche a porta ordenou. Preciso de lhe falar. Ela obedeceu.
Escute, Annette, preciso que me ajude a sair daqui. Ela abanou a cabea.
Impossvel. H trs homens l em baixo.
Oh! Tommy, no ntimo, ficou grato pela informao. Mas voc ajudar-me-ia se pudesse?
No, monsieur. -Porqu?
A jovem hesitou.
Eu acho... eles so a minha gente. O senhor veio espi-los. Tm razo em o prender aqui.
Essa gente  m, Annette. Se voc me ajudar, lev-la-ei
24 - VAMP. G. 1
369
daqui e livr-la-ei deles. E provavelmente voc receber um bom quinho de dinheiro. 
Mas a rapariga limitou-se a sacudir a cabea.
No me atrevo, monsieur. Tenho medo deles. Voltou-se.
Voc nada faria para ajudar outra rapariga?perguntou Tommy. Ela  mais ou menos da sua idade.
No quer salv-la das garras desses homens?
Refere-se a Jane Finn? 
-Sim.
Veio procur-la?
Sim.
A rapariga contemplou-o, depois passou a mo pela fronte. > Jane Finn. Ouo sempre esse nome.
J me acostumei. Tommy avanou, com ardor.
Deve saber alguma coisa a respeito dela? Mas a jovem levantou-se abruptamente.
Nada sei apenas o nome. Caminhou para a porta. De repente deu um grito. Tommy olhou. Annette
pusera os olhos no quadro que ele encostara  parede na noite anterior. Por momentos divisou um
brilho de terror nos olhos da rapariga. Da mesma forma inexplicvel transformou-se depois
numa expresso de alvio. Ento, bruscamente, ela saiu do quarto. Tommy no sabia o que pensar
sobre o incidente. Imaginara a rapariga que ele pretendia agredi-la com o quadro? Por certo
que no. Tornou a pendurar o quadro na parede, pensativo.
Trs dias decorreram em torturante inactividade. Tommy sentia a tenso que se acusava nos seus
nervos. No via ningum, a no ser Conrad e Annette e a jovem tornara-se muda. Falava somente
por monosslabos. Uma espcie de surda desconfiana transparecia-lhe nos olhos. Tommy percebia
que se o seu isolamento se prolongasse por mais tempo, acabaria louco. Soube, por intermdio de
Conrad, que aguardavam ordens de Mr. Brown. Talvez, pensou Tommy, o homem andasse no
estrangeiro ou o que quer que fosse, e viam-se obrigados a aguardar o regresso.
370
Mas na noite do terceiro dia despertaram-no rudemente.
Ainda no seriam sete horas quando ouviu rumor de passos no corredor. Momentos depois a porta
abriu-se de chofre. Conrad entrou. Vinha com ele o Nmero Catorze de cara perversa. Ao v-los,
o corao de Tommy desfaleceu.
Boa noite, chefe disse o homem, com um olhar malicioso. Trouxe as cordas, companheiro?
O silencioso Conrad puxou uma corda fina e comprida. Instantes depois, as mos do Nmero
Catorze, terrivelmente destras, enrolavam a corda ao redor dos membros do rapaz, enquanto
Conrad o segurava.
Que histria ...?principiou Tommy.
Mas o sorriso lento e mudo do silencioso Conrad sufocou as palavras na garganta de Tommy.
Nmero Catorze continuou o trabalho, com energia. Em questo de minutos, Tommy no era
mais que um simples fardo imvel. Ento, Conrad falou por fim:
Pensou que nos embrulhava, no? com o que sabia e com o que no sabia. Propondo permutas! E
era tudo conversa! Conversa! Voc sabe menos que um gato! Mas agora voc est atado como
merece, seu... porco!
Tommy guardou silncio. Nada havia a dizer. Fracassara. De um modo ou de outro, o omnipotente
Mr. Brown enxergara atravs das suas pretenses. De sbito, ocorreu-lhe um pensamento.
Bonito discurso, Conrad disse com ar de aprovao.
Mas por que motivo usam cordas e cadeias? Porque  que este bondoso cavalheiro no me corta o
pescoo sem mais delongas ?
Ora!disse inesperadamente o Nmero Catorze.
Pensa que somos to trouxas que o liquidemos aqui e tenhamos depois a polcia a farejar a
vizinhana ? Nada disso. Chamaremos a carruagem para vossa excelncia amanh de manh.
Nada retrucou Tommy poderia ter mais ingenuidade do que as suas palavras com excepo do seu
prprio rosto.
Explique-sedisse o Nmero Catorze.
371
com prazer redarguiu Tommy. Cometem um triste engano mas os prejudicados sero vocs mesmos.
Voc no nos engana de novo disse o Nmero Catorze. Fala como se ainda estivesse no deslumbrante
Ritz., no?
Tommy no deu resposta. Preocupava-se em imaginar como Mr. Brown descobrira a sua identidade. 
Concluiu
que Tuppence, em transes de ansiedade, recorrera  polcia e, tornando-se pblico o seu desaparecimento, 
a
quadrilha no tardara a saber de tudo.
Os dois homens partiram, batendo a porta com fora. Tommy ficou entregue s suas meditaes. com 
aquela
gente no se brincava. J sentia nos membros caimbras e rigidez. Achava-se no mais completo abandono 
e
sem qualquer esperana.
Decorreu cerca de uma hora quando ouviu a chave correr suavemente e a porta abriu-se. Era Annette. O
corao de Tommy bateu descompassado. Esquecera a rapariga. Seria possvel que ela viesse ajud-lo?
De repente, ouviu a voz de Conrad:
Saia da, Annette. Ele no precisa de ceia esta noite.
Oui, oui, je sais bien. Mas devo levar a outra bandeja. Precisamos destes objectos.
Ento, ande depressa resmungou Conrad.
Sem olhar para Tommy, a jovem dirigiu-se  mesa e agarrou na bandeja. Ergueu uma mo e apagou a luz.
Ora, bolas! Conrad chegou  porta. Porque faz isso?
Apago sempre a luz. Acho que foi o senhor mesmo quem deu a ordem. Quer que acenda de novo, 
Monsieur
Conrad?
No. Venha da.
L beau petit monsieur exclamou Annette, detendo-se ao p da cama, no escuro. Amarrou-o bem, hein?
Parece um frango entrouxado! O tom francamente divertido da sua voz vibrou por sobre o rapaz; mas, nesse
instante, para seu espanto, sentiu a mo da jovem correr ao de leve pelas cordas que o prendiam, ao 
mesmo
tempo que um objecto pequeno e frio se comprimiu na palma da sua mo.
372
Vem, Annette.
Mais me voil.
A porta fechou-se. Tommy ouviu Conrad dizer:
Feche e d-me a chave.
O rumor dos passos apagou-se na distncia. Tommy jazia petrificado de assombro. O objecto que
Annette lhe colocara na mo era um pequeno canivete, com a lmina aberta. Pelos modos por que
ela calculadament evitou fit-lo, alm da manobra com a luz, Tommy chegou  concluso de que
vigiavam o quarto. com certeza, existia nas paredes um buraco para espreitarem. Recordando as
maneiras to reservadas da rapariga, compreendeu que com toda a probabilidade estivera sob
vigilncia durante todo o tempo. Pronunciara ele alguma frase ou palavra comprometedora?
Decerto que no. Manifestara o desejo de fugir e o de encontrar Jane Finn, mas nada que pudesse
dar a pista da sua identidade. Na verdade, a pergunta formulada a Annette revelara que ele no
conhecia pessoalmente Jane Finn, mas nunca pretendera afirmar o contrrio. O problema que agora
se apresentava era: Annette realmente saberia mais ? As suas negativas no teriam antes a inteno
de enganar os escutas ? Sobre esse ponto Tommy no logrou chegar a uma concluso.
Impunha-se, porm,  sua considerao, problema mais vital, que afastou todos os demais. Poderia
ele, amarrado como se encontrava, cortar as cordas que o prendiam ? Tentou, com cuidado,
friccionar a lmina aberta, para cima e para baixo, na corda que unia os seus dois pulsos. Era uma
operao desajeitada e arrancou-lhe um abafado ai! de dor, quando a faca rasgou a pele do pulso.
Mas, lenta e brutalmente, continuou o movimento de vai-vem. A lmina cortava-lhe a carne de um
modo penoso, mas por fim sentiu a corda afrouxar. com as mos livres, o resto tornou-se fcil.
Cinco minutos depois, punha-se de p com alguma dificuldade, devido s caimbras nos membros. O
seu primeiro cuidado foi atar o pulso que sangrava. Depois, sentou-se na borda da cama para
pensar. Conrad levara a chave da porta e assim pouco auxlio mais poderia esperar de Annette. A
nica sada do quarto era a
373
porta e, em consequncia, teria por fora de esperar at que os dois homens voltassem a busc-lo.
Quando voltassem... Tommy sorriu! Movendo-se com extrema cautela na escurido do quarto,
achou e retirou da parede o famoso quadro. com um prazer de pessoa econmica, compreendeu que
o seu primeiro plano no se desperdiaria. Nada havia a fazer seno esperar. Esperou.
A noite passou vagarosamente. Tommy viveu uma eternidade em horas, mas por fim ouviu rudo de
passos. Ps-se de p, respirou fundo e segurou o quadro com firmeza.
Abriu-se a porta. Tnue claridade veio de fora. Conrad avanou direito ao bico de gs para o
acender. Tommy lamentou profundamente que fosse aquele o primeiro a entrar. Teria prazer em
ajustar contas com Conrad. Seguia-o o Nmero Catorze. Quando se deteve no umbral, Tommy
vibrou-lhe o quadro com tremenda fora na cabea. O Nmero Catorze caiu no meio de um
estrepitoso estalar de vidro partido. Em questo de momentos, Tommy deslizou para fora do quarto
e bateu com a porta. Viu a chave na fechadura. F-la girar e retirou-a no instante em que Conrad se
arremessava contra a porta, pelo lado de dentro, com uma saraivada de pragas.
Por momentos Tommy hesitou. Ouviu barulho no andar de baixo. Depois, a voz do alemo subiu
pela escada:
Gott im Himmel! Conrad, que  isso?
Tommy sentiu uma mozinha empurrar a sua. A seu lado estava Annette. Apontou para uma frgil
escada de mo que, segundo parecia, levava ao sto.
Depressa suba por aqui!Arrastou-o para a escada. Dentro de poucos instantes chegavam a uma
poeirenta gua-furtada atulhada de mveis velhos. Tommy olhou em redor.
Isto no serve.  uma maravilha perfeita. No h por onde sair.
Pst! Espere.A rapariga levou o indicador aos lbios. Rastejou at ao topo da escada e escutou.
Os murros e pancadas na porta aterrorizavam. O alemo
374
e o outro tentavam arrombar a porta para entrar. Annette explicou num sussurro:
Pensam que voc ainda est l dentro. No podem ouvir o que diz Conrad. A porta  muito grossa.
Mas eu julguei que era possvel ouvir o que se passa no interior do quarto.
H um orifcio para espreitar, no quarto contguo. Voc foi inteligente ao desconfiar. Mas
eles agora nem pensaro em tal coisa... esto ansiosos por entrar.
Sim... mas diga-me...
Deixe o caso comigo. Annette curvou-se. com espanto, Tommy viu que ela amarrava a
extremidade de um comprido pedao de cordo  asa de uma enorme jarra rachada. Executou o
trabalho com todo o cuidado e depois voltou-se para Tommy.
Tem a chave da porta?
Sim.
D-me a chave. Ele entregou-lha.
you descer. Acha que pode vir at meio dos degraus e depois atirar-se para trs da escada, de modo
que no o vejam ?
Tommy inclinou afirmativamente a cabea.
H um armrio grande na sombra do patamar. Coloque-se por trs dele. Leve na mo a ponta deste
cordo. Quando eu deixar os homens sarem puxe o cordel!
Antes que Tommy pudesse perguntar mais alguma coisa, ela deslizou velozmente pela escada
abaixo e foi ter ao meio do grupo com um forte grito:
Mon Dieu! Mon Dieu! QiCest-ce quil y a?
O alemo voltou-se para ela com uma praga.
No se meta nisto. V para o seu quarto!
com o maior cuidado, Tommy jogou-se para trs da escada do sto. Enquanto os homens no
resolvessem voltar, tudo estaria bem. Agachou-se por trs do armrio. Os homens ainda se
encontravam entre ele e a escada do andar trreo.
Ah! Annette pareceu tropear nalguma coisa. Abaixou-se. Mon Dieu, voil la clef!
375
O alemo arrebatou-lhe a chave. Abriu a porta. Conrad saltou para fora aos berros.
Onde est ele? Agarraram-no?
No vimos ningumdisse o alemo vivamente. Empalideceu. Que quer dizer? 
Conrad soltou outra praga. Ele fugiu. 
Impossvel. Teria passado por ns.
Nesse momento, com um sorriso extasiado, Tommy puxou o cordel. Um estrondo de loua de barro
a quebrar-se em pedaos fez-se ouvir em cima, no sto. Num instante, os homens empurravam-se
uns aos outros, subindo pela frgil escada, e desapareciam na escurido de cima.
Rpido como um relmpago, Tommy ergueu-se do esconderijo e precipitou-se para a escada do
andar trreo, arrastando a jovem consigo. No havia ningum no hall. Remexeu no ferrolho e na
corrente. Por fim cederam e a porta escancarou-se. Voltou-se. Annette desaparecera.
Tommy ficou estarrecido. Havia ela subido as escadas de novo? Que loucura a possuira? Ardia de
impacincia, mas quedou-se no mesmo lugar. No iria sem ela.
De sbito, ouviu um grito, uma exclamao do alemo e depois a voz de Annette, clara e forte:
Ma foi, ele fugiu! E a toda a pressa! Quem o pensaria ? Tommy manteve-se ainda plantado no
mesmo lugar.
Aquilo equivalia a uma ordem para se ir embora ? Julgava que sim.
E ento, mais alto ainda, as palavras desceram at ele:
Esta casa  terrvel. Quero voltar para junto de Marguerite. De Marguerite. Marguerite!
Tommy voltara a correr  escada. Queria que ele se fosse e a deixasse? Mas porqu? A todo o custo
devia tentar lev-la consigo. Depois, desfaleceu-lhe o corao. Conrad descia a escada e soltou um
grito selvagem ao v-lo. Atrs vinham os outros.
Tommy deteve o mpeto de Conrad com um golpe directo do seu punho. Acertou-lhe na ponta do
queixo e o homem
376
caiu como um barrote. O segundo homem tropeou no corpo de Conrad e rolou no cho. No topo da
escada faiscou um claro e uma bala raspou a orelha de Tommy. Compreendeu que se quisesse
salvar a pele devia sair daquela casa o mais depressa possvel. com referncia a Annette, nada podia
fazer. Vingara-se de Conrad, o que constitua uma satisfao. O soco fora dos bons.
Pulou para a porta, batendo-a com fora atrs de si. A praa estava deserta. Em frente da casa, viu
uma carroa de padeiro. Evidentemente pretendiam conduzi-lo para fora de Londres naquele
veculo e o seu cadver seria encontrado a muitas milhas da casa de Soho. O cocheiro saltou para o
cho e tentou barrar o caminho a Tommy. Mais uma vez o punho de Tommy entrou em aco e o
cocheiro estendeu-se no passeio.
Tommy girou nos calcanhares e correue j era tempo. A porta da frente abriu-se e uma salva de
balas acompanhou-o. Ele dobrou a esquina.
No podem continuar a atirar pensou. Se o fizessem, a polcia iria atrs deles. Julgo que no se
atrevem a tanto.
Ouviu rumor de passos dos seus perseguidores atrs de si e acelerou a marcha. Uma vez fora
daqueles becos, estaria salvo. Teria de haver algum polcia em qualquer parte no que na realidade
ele quisesse invocar o auxlio da polcia, se pudesse passar sem ela. Demandaria explicaes, com a
habitual incompreenso. Da a instantes teve motivo para bendizer a sorte. Tropeou num vulto
cado sobre o passeio: o indivduo ergueu-se num sobressalto e, com um brado de alarme,
precipitou-se rua afora. Tommy esgueirou-se para um vo de porta. Ao cabo de alguns minutos teve
o prazer de ver os seus perseguidores, dos quais um era o alemo, muito empenhados em seguir a
pista do pobre brio...
Tommy sentou-se calmamente na soleira da porta e deixou que se escoassem alguns momentos,
enquanto recuperava o flego. Depois, caminhou devagar na direco oposta. Consultou o relgio.
Passavam poucos minutos das cinco da madrugada. O dia clareava rapidamente. Na primeira
377
esquina passou por um polcia. Este deitou-lhe um olhar desconfiado. Tommy sentiu-se um pouco
ofendido. Em seguida, passando a mo pelo rosto, riu-se. Havia trs dias que no se barbeava nem
se lavava! com que aspecto no estaria!
Dirigiu-se sem mais demora para um estabelecimento de banhos turcos, que sabia ficar aberto toda
a noite. Da emergiu em plena luz do dia, com a sensao de que novamente voltava a ser ele
mesmo, tornando-se capaz de formular planos.
Antes de mais nada, precisava de uma refeio completa. No comia nada desde o meio-dia da
vspera. Entrou num dos estabelecimentos A. B. C. e pediu ovos, toucinho e caf. Enquanto
comia, leu um jornal da manh aberto  sua frente. De repente, empertigou-se. Encontrou longo
artigo a respeito de Kramenin, descrito como o homem que h por trs do Bolchevismo na Rssia
e que acabava de chegar a Londres
mais ou menos na qualidade de enviado extra-oficial. O articulista delineava-lhe a
carreira em traos rpidos e asseverava com firmeza que aquele homem, e no os lderes de
fachada, fora o autor da Revoluo Russa.
No centro da pgina o jornal publicava o retrato do homem.
De sorte que j sabemos quem  o Nmero Um
disse Tommy, com a boca cheia de ovos e toucinho. No h dvida quanto a isso; assim, vamos
tocar para a frente.
Pagou a despesa e encaminhou-se para Whitehall. A, deu o nome e acrescentou o recado de que se
tratava de assunto urgente. Poucos minutos depois achava-se na presena do homem que ali no
atendia pelo nome de Mr. Carter. Rugas vincavam-lhe o rosto.
Escute, o senhor no pode vir aqui perguntar por mim deste modo. Pensei que essa particularidade
ficara bem clara.
E ficou. Mas julguei importante no perder tempo. E to breve e sucintamente quanto possvel,
pormenorizou os acontecimentos dos ltimos dias.
Estava a meio da histria quando Mr. Carter o interrompeu para transmitir algumas ordens
enigmticas pelo telefone.
378
Todos os sinais de descontentamento se lhe sumiram da fisionomia. Balouou a cabea com energia
quando Tommy chegou ao fim.
Muito bem. Todos os minutos so preciosos. Receio que cheguemos tarde demais, mesmo assim.
Eles no perdero tempo. Sairo imediatamente. Entretanto, talvez deixem algo que sirva de
pista. Reconheceu que o Nmero Um  Kramenin?  importante. Precisamos de colher elementos
que nos habilitem a agir contra ele, para evitar uma queda do gabinete resultante dos seus
movimentos assaz desembaraados. E quanto aos outros? Julga que duas caras no lhe eram
estranhas? Um deles  trabalhista, em sua opinio? Examine estas fotografias e veja se o identifica.
Um minuto depois Tommy suspendeu uma fotografia. Mr. Carter demonstrou certa surpresa.
Ah, Westway! Quem haveria de dizer! Aparenta ser bem moderado. No tocante ao outro sujeito,
creio que posso oferecer uma boa contribuio. Entregou outro retrato a Tommy e sorriu ante a
exclamao do rapaz. Tenho razo, ento. Quem ? Irlands. Destacado parlamentar sindicalista.
Tudo isso  apenas um disfarce,  claro. Suspeitvamos, mas no podamos obter uma prova. Sim,
voc realizou um bonito trabalho, rapaz! Dia 29  a data, diz voc. Resta-nos pouco tempo... bem
pouco tempo, na verdade.
Mas... Tommy hesitou.
Mr. Carter leu-lhe os pensamentos.
No podemos reprimir a ameaa de greve geral, creio eu.  uma agitao, mas proporciona-nos
oportunidade de caa! Mas se o projecto de tratado vier a lumeestaremos em maus lenis. A
Inglaterra mergulhar na anarquia. Ah, que  isto ? O automvel? Venha, Beresford. Daremos
uma olhadela  casa.
Dois polcias montavam guarda em frente da casa do Soho. Um inspector prestou informaes a
Mr. Carter em voz baixa. O ltimo voltou-se para Tommy.
Os malandros fugiram, como pensvamos. Devemos revistar a casa.
379
Percorrendo a casa deserta, parecia a Tommy participar da natureza de um sonho. Tudo estava
como o havia deixado. O quarto-priso com os quadros pendurados, a jarra quebrada no sto, a
saleta de reunies com a mesa comprida. Mas nem vestgio dos papis. Coisas dessa espcie haviam
sido destrudas ou levadas. E nem sinal de Annette.
O que me contou sobre a jovem deixa-me intrigado disse Mr. Carter. Acredita que ela voltou
deliberadamente ?
Parece-me que sim. Subiu as escadas a correr, enquanto eu abria a porta.
Hum! Deve pertencer ao bando, ento. Mas, sendo mulher, no gostaria de contribuir para a morte
de um rapaz simptico.  evidente que ela est do lado deles, do contrrio no teria voltado.
No acredito que ela na realidade esteja do lado deles. Ela... pareceu-me to diferente...
Bonita, no? perguntou Mr. Carter com um sorriso que fez Tommy corar at  raiz dos cabelos.
Admitiu a beleza de Annette, bastante perturbado.
A propsito observou Mr. Carter ainda no se apresentou a Miss Tuppence? Ela tem-me
bombardeado com cartas a seu respeito.
Tuppence? Receei que ela fizesse um alvoroo. No foi  polcia?
Mr. Carter abanou a cabea.
Ento, no sei como me identificaram.
Mr. Carter fitou-o interrogativamente e Tommy entrou em explicaes. O homem meneou a cabea,
pensativo.
Na verdade,  um ponto bastante curioso. A no ser que a meno ao Ritz fosse uma observao
acidental?
Talvez. Mas, de algum modo descobriram de repente qualquer coisa a meu respeito.
Bom disse Mr. Carter, olhando em derredor. Nada mais h a fazer aqui. No quer almoar comigo?
Agradeo imensamente. Mas acho melhor voltar e ir ter com Tuppence.
380
 claro. Apresente-lhe os meus cumprimentos e diga-lhe que, da prxima vez, no receie que o
matem com muita facilidade.
Tommy sorriu.
No me faltaram oportunidades de ser morto.
Compreendo disse Mr. Carter secamente. Bem, adeus. No esquea que voc agora  um homem
marcado e acautele-se.
Obrigado, senhor.
Tommy chamou um taxi e partiu alegremente. Enquanto o carro o conduzia com rapidez ao Ritz,
embalava-o a agradvel antecipao de surpreender Tuppence.
Que estar ela a fazer? Sem dvida a espiar Rita. Por pensar nisso, era talvez essa mulher que
Annette designava com o nome de Marguerite. Na ocasio no me ocorreu isso. O pensamento
entristeceu-o um pouco, pois assim parecia evidenciar-se a intimidade entre Mrs. Vandemeyer e a
rapariga.
O taxi chegou ao Ritz. Tommy transps com entusiasmo os portais sagrados, mas sofreu um abalo.
Informaram-no de que Miss Cowley sara cerca de um quarto de hora antes.
XVIII - O TELEGRAMA
Confuso no momento, Tommy dirigiu-se ao restaurante e encomendou um almoo de prncipe. A
recluso de quatro dias ensinara-lhe a dar novo valor aos bons alimentos.
Achava-se com uma bem escolhida poro de sole  la Jeannette a meio caminho da boca, quando
deu com os olhos em Julius que entrava no salo. Tommy sacudiu a lista no ar, alegremente, e
logrou atrair a ateno do americano. Ao ver Tommy, os olhos de Julius pareciam querer saltar das
rbitas. Atravessou a sala e sacudiu a mo de Tommy de uma maneira que pareceu ao ltimo
vigorosa demais.
Justos Cus! exclamou.  voc mesmo?
Claro. Porque no?
Porqu? Sabe que foi dado por morto?
Quem pensou tal coisa? perguntou Tommy. Tuppence.
Ela esqueceu aquele provrbio: vaso ruim no quebra. A propsito: onde est Tuppence?
No est aqui?
No. Disseram-me na portaria que ela acabara de sair.
com certeza foi fazer algumas compras. Trouxe-a para c no carro h coisa de meia hora. Mas olhe:
voc no pode pr de lado essa calma britnica e entrar no assunto? Que andou fazendo
neste Mundo de Deus durante tanto tempo ?
Se voc vai almoar aqui replicou Tommy escolha o menu. A histria  comprida.
Julius puxou uma cadeira, sentou-se em frente de Tommy.
382
Chamou um criado e pediu os pratos que desejava. Depois voltou-se para Tommy.
V contando... Creio que voc se meteu em aventuras.
Uma ou duas redarguiu Tommy com modstia, e comeou a histria.
Julius escutava maravilhado. Por fim, soltou um longo suspiro.
Essa  muito boa. Parece uma novela barata.
E agora  a sua vez disse Tommy, estendendo a mo para um pssego.
bom disse Julius devagar. No nego que me meti tambm em algumas aventuras.
Assumiu, por seu turno, o papel de narrador. Comeando pelas pesquisas em Bournemouth, referiu
o regresso a Londres, a compra do automvel, a ansiedade crescente de Tuppence, a visita a Sir
James e as sensacionais ocorrncias da noite anterior.
Mas quem matou a mulher?perguntou Tommy.
No compreendo bem.
O mdico ilude-se ao dizer que ela ingeriu a droga por descuido replicou Julius secamente.
E Sir James ? Qual  a opinio dele ?
Sendo um luminar do direito,  uma ostra humana respondeu Julius. Deve ter a sua opinio
reservada.
Prosseguiu com o relato dos acontecimentos da manh.
Desmemoriada, heim? disse Tommy com interesse.
Por Deus! Explica-se porque me fitavam de maneira to singular quando falei em interrog-la.
No deram a mnima indicao sobre o lugar onde se encontrava Jane?
Tommy abanou a cabea com pesar.
Nem uma palavra. Sou um pouco estpido, como voc sabe. Se o no fosse, poderia ter descoberto
mais alguma coisa.
Acho que j  muita sorte estar aqui agora. O logro em que meteu aqueles patifes foi trabalho
excelente. Fico assombrado por lhe terem ocorrido ideias to apropriadas para a ocasio.
385
O medo era tanto que eu tinha de pensar nalguma coisa
disse Tommy com simplicidade.
Calaram-se por um momento; depois, Tommy voltou a falar na morte de Mrs. Vandemeyer.
No h dvidas de que se tratava de cloral?
Creio que no. Pelo menos, disseram ser colapso cardaco provocado por uma superdose de
cloral. Est certo. No quisemos incomodar-nos com um inqurito judicial. Mas desconfio que
Tuppence e eu, e at mesmo o culto Sir James, temos uma opinio comum a este respeito.
Mr. Brown? perguntou Tommy.
-Claro.
Tommy abanou a cabea.
Mesmo assim disse, pensativo Mr. Brown no tem asas. No compreendo como possa ter entrado e
sado.
Que me diz dessa histria de transmisso de pensamento por algum que tenha aptides bem
desenvolvidas? Alguma influncia magntica que impeliu irresistivelmente Mrs. Vandemeyer a
suicidar-se?
Tommy encarou-o com respeito.
Essa  boa, Julius. Muito boa. Em especial a fraseologia. Mas no me entusiasma. Eu anseio por um
Mr. Brown real, de carne e osso. Na minha opinio, os detectives bem dotados devem trabalhar
com afinco, examinar entradas e sadas, e dar palmadas na testa at descobrir a soluo do
mistrio. Iremos ao teatro do crime. E gostaria de encontrar Tuppence. O Ritz gozaria o expectculo
de uma reunio alegre.
Indagaes na portaria revelaram que Tuppence ainda no voltara.
No obstante, convm ver l em cima disse Julius.
Talvez ela se encontre na minha sala de estar. Desapareceu.
De sbito, um dos garotos empregados do hotel inclinou-se para Tommy:
A senhora... eu acho que ela foi tomar o comboio, senhor.
Qu? Tommy voltou-se para o rapaz. , .
384
O garoto ficou mais rseo que antes.
O taxi, senhor. Eu ouvi-a dizer ao motorista: Charing Cross, com olhos muito brilhantes.
Tommy fitou-o com os olhos esgazeados de surpresa. Encorajado, o pequeno continuou:
Foi o que eu pensei, porque ela pediu um horrio de comboios e um guia ferrovirio.
Tommy interrompeu-o:
-Quando  que ela pediu a tabela e o guia?
Quando eu lhe levei o telegrama, senhor.
Telegrama ?
Sim, senhor.
A que horas foi isso?
Ao meio-dia e meia hora, senhor.
Conte-me exactamente o que aconteceu. O rapaz inspirou profundamente.
Levei um telegrama ao n. 891; a senhora estava l. Ela leu o telegrama, abriu a boca e disse, muito
contente: Traga-me uma tabela dos horrios de comboios e um guia ferrovirio. E avie-se, Henry.
O meu nome no  Henry, mas...
No importa o seu nome disse Tommy, impaciente. Continue.
Sim, senhor. Levei-lhe o que ela me pediu e mandou-me esperar, enquanto procurava qualquer
coisa. Depois olhou para o relgio e disse: No h tempo a perder. Mande chamar um taxi. Ficou
a ajeitar o chapu diante do espelho e desceu em seguida, logo depois de mim. Quando ela saiu e
entrou no txi ouvi-a dar o endereo ao motorista.
O garoto calou-se e encheu os pulmes. Tommy continuou a contempl-lo. Nesse momento, Julius
reuniu-se a Tommy. Trazia uma carta aberta na mo.
Mais esta, HersheimmerTommy voltou-se para o americano.Tuppence partiu para fazer
pesquisas por conta prpria.
No me diga!
Sim, senhor. Tomou um taxi para a estao de Charing
25 VAMP. G. 1
385
Cross depois de ter recebido um telegrama. Os seus olhos caram sobre a carta que Julius tinha na
mo. Oh, ela deixou um bilhete para voc. Muito bem. Para onde foi ?
Quase inconscientemente estendeu a mo para a carta, mas Julius dobrou a folha de papel e
guardou-a no bolso. Parecia um pouco embaraado.
Acho que a carta no tem nada que lhe interesse.  sobre outro assunto...
Oh!Tommy mostrou-se bastante admirado. Parecia esperar maiores esclarecimentos.
Escute disse Julius de sbito.  melhor contar-lhe tudo. Eu pedi Miss Tuppence em casamento hoje
pela manh.
Oh exclamou Tommy maquinalmente. Sentiu-se confuso. As palavras de Julius eram
absolutamente inesperadas. Por momentos, entorpeceram-lhe o crebro.
Gostaria de lhe dizercontinuou Julius que antes de falar no assunto a Miss Tuppence, deixei bem
claro que no queria interferir de qualquer modo entre ela e voc...
Tommy despertou.
Est certo disse rapidamente. Tuppence e eu temos sido camaradas h muitos anos. Nada mais.
Acendeu um cigarro; a sua mo tremia um pouco. Est muito bem. Tuppence dizia sempre que
andava  procura de...
Calou-se abruptamente.
Oh, creio que voc quer referir-se  questo da fortuna. Miss Tuppence falou-me sem rodeios a esse
respeito. com ela no h mal entendidos. Entendemo-nos muito bem.
Tommy olhou-o com curiosidade por alguns instantes. Tuppence e Julius! Bem, porque no ? Ela
no lamentara o facto de no conhecer homens ricos? No declarara com a maior franqueza a sua
inteno de casar por interesse, se encontrasse uma oportunidade? O encontro com o jovem
milionrio americano oferecera-lhe a oportunidade e seria pouco provvel que a no aproveitasse.
Era louca por dinheiro, conforme sempre o declarara. Porque censur-la se mantivera fidelidade ao
seu credo?
Sem embargo, Tommy censurava-a. Empolgava-o um
386
ressentimento apaixonado e inteiramente ilgico. Uma pequena de verdade jamais casaria por
dinheiro. Tuppence tinha um corao de pedra e era absolutamente egosta. Ele ficaria satisfeito se
nunca mais a visse! E este Mundo no valia coisa alguma!
A voz de Julius interrompeu-lhe as reflexes.
Sim, entendemo-nos muito bem. Ouvi dizer que uma jovem recusa sempre o pretendente da
primeira vez  uma espcie de conveno.
Tommy travou-lhe o brao.
Recusa? Voc disse recusa?
Claro! No foi isso que eu disse? Respondeu com um no injustificado... O eterno feminino...
Tommy interrompeu-o.
Que diz o bilhete ? indagou ferozmente.
Julius viu-se coagido a entregar-lhe o papel rabiscado por Tuppence.
O bilhete rezava:
Meu caro Julius:
 sempre melhor pr o preto no branco. No me julgo capaz de pensar em casamento enquanto Tommy 
no for
encontrado. Deixemos o caso para depois.
Afectuosamente,
Tuppence
Tommy, com os olhos brilhantes, devolveu a folha de papel. Os seus sentimentos passaram por viva
reaco. Compreendia agora que Tuppence era toda nobreza e desinteresse. No recusara Julius sem
hesitao? Na verdade ,o bilhete denotava sinais de fraqueza que ele julgou desculpvel. Constitua
quase uma espcie de suborno para estimular Julius nos seus esforos em busca de Tommy, mas ele
acreditava que no fora essa a inteno de Tuppence. Querida Tuppence, no havia no Mundo uma
jovem que a igualasse! Quando tornasse a
387
v-la... Repentino choque lhe interrompeu o curso dos pensamentos.
Como voc disse observou, tornando  realidade no vem aqui a mnima indicao sobre a
viagem. Henry!
O rapazinho veio obedientemente. Tommy tirou cinco xelins do bolso.
Mais uma coisa. Recorda-se do que a senhora fez ao telegrama ?
Henry abriu a boca e disse:
Amarrotou-o numa bola e jogou-o  grade da lareira; e soltou uma espcie de grito, assim como
Viva!
Reproduo fiel, Henrydisse Tommy. Aqui esto cinco xelins. Vamos, Julius. Precisamos de
descobrir o telegrama.
Subiram as escadas com precipitao. Tuppence deixara a chave na porta. O quarto estava como o
deixara. Na lareira via-se uma bola amarfanhada, alaranjada e branca. Tommy desemaranhou e
alisou o papel do telegrama.
Venha imediatamente, Moat House, Ebury, Yorkshire, grandes acontecimentos Tommy.
Olharam um para o outro, estupefactos. Julius foi o primeiro a falar:
No foi voc quem mandou isso?
Claro que no. Que significa isto?
Creio que no significa coisa boa declarou Julius com calma. Eles apanharam-na.
-O qu?
Claro! Assinaram o seu nome e ela caiu na armadilha como um patinho.
Meu Deus! Que faremos?
Mos  obra e vamos atrs dela! J! No h tempo a perder. Foi uma sorte tremenda ela no ter
levado o telegrama. De contrrio, talvez nunca mais encontrssemos qualquer vestgio. Mas
precisamos de agir! Onde est essa tal tabela de horrios?
A energia de Julius era contagiosa. Se estivesse s, Tommy ter-se-ia sentado para pensar meia hora
antes de delinear um
388
plano de aco. Mas com Julius Hersheimmer nas proximidades, o dinamismo tornava-se
inevitvel.
Depois de algumas imprecaes em voz baixa, entregou a tabela a Tommy, mais versado nos seus
mistrios. Tommy abandonou-a em favor do guia ferrovirio.
Aqui est. Ebury, Yorkshire. Partidas de Kings Cross. Ou St. Pancras. (corn certeza o garoto
enganou-se. Era Kings Cross e no Charing Cross). s 12,50 partiu o comboio em que ela foi; o
das 14,10 j saiu; o prximo  o das 15,20. E  lento demais.
E se fssemos no automvel? Tommy abanou a cabea.
Pode mandar o carro para l, se quiser, mas para ns o melhor  ir de comboio. O essencial  manter
a calma.
Julius resmungou.
Sim. Mas aflige-me pensar que a pobre pequena est em perigo.
Tommy balouou a cabea, abstracto. Estava pensando. Ao cabo de alguns momentos, disse:
Escute, Julius: o que pretendem eles com este rapto?
Hein? Parece-me que no o entendi...
Quero dizer que eles no tm por objectivo causar qualquer dano a Tuppence explicou Tommy,
enrugando a testa com o esforo mental. Ela  um refm, nada mais. No se encontra em perigo
imediato, porque se empreendermos alguma aco contra eles, Tuppence ser-lhes- da maior
utilidade. Quanto mais tempo a retiverem, tanto mais defendidos estaro contra ns. Compreende?
Claro disse Julius, pensativo. Tem razo.
Alm disso acrescentou Tommy tenho muita f em Tuppence.
A viagem foi enfadonha, com muitas paragens, carruagens superlotadas. Fizeram dois transbordos,
um em Doncaster e outro num pequeno entroncamento. Ebury era uma estao solitria, com um
porteiro solitrio, a quem Tommy se dirigiu:
Pode informar-me qual o caminho para Moat House?
389
Moat House?  perto daqui. A casa grande em frente ao mar, no ?
Tommy respondeu que sim, com prontido. Depois de escutar as meticulosas e confusas
explicaes do porteiro, prepararam-se para deixar a estao. Comeava a chover e eles levantaram
a gola do casaco enquanto avanavam com dificuldade pela estrada lamacenta. De sbito, Tommy
parou.
Espere um momento. Correu de novo  estao e falou ao porteiro mais uma vez.
Escute. Lembra-se de uma senhora que chegou no comboio das 12,50, de Londres? com certeza
ela perguntou-lhe qual o caminho de Moat House.
Descreveu Tuppence o melhor que pde, mas o porteiro abanou a cabea. Chegara muita gente no
comboio em questo. Ele no se podia recordar de uma jovem em particular. Mas tinha a plena
certeza de que ningum lhe perguntara pelo caminho para Moat House.
Tommy reuniu-se a Julius e deu explicaes. O desnimo caa sobre ele como um peso de chumbo.
Estava convencido de que a pesquisa teria resultado infrutfero. O inimigo levava uma dianteira de
trs horas. Trs horas eram mais que suficiente para Mr. Brown. Este no ignoraria a possibilidade
de o telegrama ser encontrado.
A estrada parecia no ter fim. A certa altura entraram num atalho errado e andaram cerca de meia
milha fora do rumo. Passava das sete horas quando um garoto os informou que Moat House ficava
justamente na primeira curva.
Um porto de ferro enferrujado rangeu lugubremente nos gonzos. Deparou-se-lhes uma lea de
rvores copadas, cho fofo de folhas. Envolvia a casa uma atmosfera que gelou o corao dos dois
rapazes. Avanaram pela alameda deserta. As folhas abafavam-lhes o rudo dos passos. O dia estava
a findar. Era como caminhar num reino de fantasmas. Acima das suas cabeas os ramos das rvores
farfalhavam, num murmrio plangente. De quando em quando uma folha hmida caa sem rudo,
provocando-lhes um arrepio com o seu frio contacto no rosto.
390
Numa curva da alameda divisaram a casa. Parecia, tambm, vazia e abandonada. Janelas fechadas,
o musgo a crescer nos degraus da porta. Fora, na realidade, quele lugar desolado que haviam
atrado Tuppence? Parecia difcil acreditar que, pelo espao de muitos meses, um ser humano
houvesse por ali andado.
Julius sacudiu o bolorento cabo da campainha. Um badalar desagradvel soou desafinado, ecoando
pelo interior deserto. Ningum veio atender. A campainha tornou a funcionar por vrias vezes mas
no houve sinal de vida. Ento caminharam e contornaram a casa. Por toda a parte o silncio,
fechadas todas as janelas. A dar crdito ao testemunho dos seus olhos, no havia ningum na casa.
Aqui no h nada a fazerdisse Julius. Voltaram sobre os seus passos, vagarosamente, at ao
porto. ,
Deve existir um vilarejo aqui por perto continuou o americano. Seria melhor indagar por l.
Podero saber alguma coisa sobre esta casa e se algum morou aqui ultimamente, i
Sim.  uma boa ideia.
Avanando pela estrada, em breve chegaram a uma pequena aldeia. J estavam bem perto quando
encontraram um operrio que caminhava a sacudir na mo a maleta de ferramentas e Tommy
deteve-o com uma pergunta.
Moat House? Est desocupada. H muitos anos. Mrs. Sweeny tem a chave, se os senhores
quiserem ver a casa.  ali adiante, passando o correio.
Tommy agradeceu a informao. Depressa acharam o correio, que era ao mesmo tempo confeitaria
e loja de artigos de fantasia, e bateram  porta da casa seguinte. Recebeu-os uma senhora asseada,
com ares de pessoa rica. Prontamente apresentou a chave de Moat House.
Duvido que a casa sirva para os senhores. Est muito estragada. Entra gua pelo tecto, e assim por
diante. Seria preciso muito dinheiro para a reparar.
Obrigado disse Tommy alegremente. Acho que ser
391
preciso fazer uma boa limpeza, mas as casas hoje em dia andam escassas.
Sim declarou a mulher cordialmente. Minha filha e o meu genro procuram um domiclio decente h
no sei quanto tempo.  por causa da guerra. A vida tornou-se difcil de maneira horrvel. Mas, se
me desculpa, acho que est muito escuro para que possam examinar a casa hoje. No seria melhor
esperar at amanh?
- Tem razo. Daremos uma olhadela ainda hoje, de qualquer modo. Devamos ter chegado mais
cedo, mas perdemo-nos no caminho. Qual o melhor lugar daqui para se passar a noite?
Mrs. Sweeny mirou-o, na dvida.
H uma hospedaria, Yorkshire Arms, mas no  recomendvel a pessoas distintas como os
senhores.
Oh, essa mesma servir. Muito obrigado. E, antes que me esquea, no veio hoje aqui uma jovem
pedir a chave?
A senhora abanou a cabea.
H muito tempo que ningum manifesta interesse por aquela casa.
Muito obrigado.
Voltaram a Moat House. A porta emperrada cedeu, rangendo altos protestos, e Julius riscou um
fsforo para examinar cuidadosamente o soalho. Depois sacudiu a cabea.
- Juro que por aqui no passou ningum. Olhe o p. Est alto. Nem sombra de pegadas.
Percorreram a casa deserta. Por toda a parte, a mesma coisa. O p acumulava-se espessamente, sem
guardar nenhum sinal.
Isto horroriza-me disse Julius. --No acredito que Tuppence tenha estado nesta casa. , (
Mas ela devia ter vindo.
Julius abanou a cabea sem responder.
- Passaremos outra busca amanh disse Tommy. Talvez  luz do dia possamos descobrir algo mais.
Na manh seguinte reencetaram a pesquisa e, com relutncia, chegaram  concluso de que, por
considervel espao
392
de tempo, ningum entrara naquela casa. Teriam abandonado a aldeia prontamente se no fosse uma
feliz descoberta de Tommy. Quando se encaminhavam de novo para o porto, Tommy soltou um
grito inesperado e baixou-se para agarrar alguma coisa dentre as folhas, entregando-a a Julius. Era
um pequenino alfinete de ouro.
 de Tuppence! Tem a certeza? Absoluta. Usava-o muitas vezes. Julius suspirou.
Creio que isto explica o que houve. Ela veio at aqui, de qualquer modo. Devemos instalar-nos
na povoao e investigar meticulosamente. Algum deve ter visto Tuppence.
Desde ento comeou a luta. Tommy e Julius trabalhavam separados ou juntos, mas o resultado era
o mesmo. Nenhuma pessoa correspondendo  descrio de Tuppence fora vista nas vizinhanas.
Sentiam-se frustrados mas no desanimaram. Por fim, mudaram de tctica. Tuppence, por certo, no
se demorara muito nas proximidades de Moat House. Talvez algum a houvesse aguardado ali,
subjugando-a e levando-a num carro. Renovaram as indagaes. Ningum vira um carro parado nas
proximidades de Moat House naquele dia? Mais uma vez, nenhum resultado.
Julius telegrafou para a cidade pedindo que lhe mandassem o automvel e usaram o veculo para
explorar as redondezas com persistente cuidado.
Cada dia que surgia encontrava-os empenhados em nova pesquisa. Julius estava como um co pela
trela. Perseguia a pista mais insignificante. Andaram em busca de todos os automveis que haviam
passado pelo povoado no dia fatdico. Abriam caminho atravs de propriedades rurais e submetiam
os donos de automveis a apertados interrogatrios. Os pedidos de desculpa faziam parte dos seus
mtodos e raramente falhavam em desarmar a indignao das vtimas; sucediam-se os dias, porm,
e estavam to longe de descobrir o paradeiro de Tuppence como no comeo. O rapto fora to bem
planeado que a jovem parecia ter desaparecido no ar.
395
E outra preocupao pesava no esprito de Tommy.
Sabe h quanto tempo estamos aqui? perguntou uma manh a Julius, ao sentarem-se um diante do
outro  mesa do pequeno almoo. Uma semana! No temos esperana de encontrar Tuppence e no
prximo domingo  o dia 29!
Cus! exclamou Julius, pensativo. Eu j quase me esquecera do dia 29. No pensei em nada seno
em Tuppence.
O mesmo me sucedeu a mim. Pelo menos, se no esqueci o dia 29, no me parecia assunto to
importante como descobrir Tuppence. Mas hoje  23 e o tempo urge. Se  que temos de a
encontrar, ter de ser antes do dia 29porque da em diante a vida dela estar em perigo. J no tero
interesse em conservar um refm. Comeo a pensar que no procedemos como convinha. Perdemos
tempo e nada conseguimos.
Concordo. Fomos um par de idiotas que nos metemos numa bota que no conseguimos descalar.
Vou-me embora e j!
Que pretende fazer?
Eu explico. Vou fazer o que deveramos ter feito h uma semana. Vou direito a Londres colocar o
caso nas mos da polcia inglesa. Quisemos brincar aos detectives. Detectives! Rematada tolice!
Estou farto! Isto no  para mim. Vou  Scotland Yard!
Tem razo disse Tommy lentamente. Era o que devamos ter feito h mais tempo.
Antes tarde do que nunca. Estivemos a brincar s escondidas. Agora, vou directamente  Scotland
Yard pedir-lhes que me digam o que devo fazer. Acho que o profissional acaba sempre por derrotar
o amador. Voc vem comigo ?
Tommy abanou a cabea.
Para qu? Um  suficiente. Posso ficar por aqui a farejar por mais algum tempo. Pode acontecer
alguma coisa. A gente nunca sabe.
Sim. Bem, ento adeus. Voltarei sem muita demora com alguns inspectores da polcia. Pedirei que
mobilizem o pessoal mais qualificado.
Mas, naturalmente, os acontecimentos no seguiram o
394
curso que Julius traara. Mais tarde, naquele mesmo dia, Tommy recebeu um telegrama:
V encontrar-se comigo no Midland Hotel de Manchester. Notcias importantes Julius.
s sete e meia da noite Tommy descia de um vagaroso comboio que cortava os campos. Julius
aguardava-o na plataforma.
Previ que voc viria neste comboio, se no estivesse ausente ao chegar o meu telegrama.
Tommy travou-lhe do brao.
Que aconteceu? Encontraram Tuppence? Julius sacudiu a cabea.
No. Mas encontrei isto  minha espera em Londres. Tinha acabado de chegar.
Entregou o telegrama a Tommy, que arregalou os olhos ao ler:
Jane Finn encontrada. Venha imediatamente ao Midland Hotel de Manchester Peel Edgerton.
Julius tornou a agarrar no telegrama e dobrou-o.
Veja disse, pensativo. Eu julgava que o advogado resolvera desertar.
XIX - JANE FINN
O meu comboio chegou h meia hora explicou Julius, ao sarem da estao. Calculei, antes de
deixar Londres que voc viria neste e telegrafei a Sir James nesse sentido. Ele reservou aposentos
para ns e iremos jantar s oito.
Porque pensou que ele deixara de se interessar pelo caso ? perguntou Tommy com curiosidade.
Pelo que ele mesmo disse respondeu Julius secamente. O homem  fechado como uma ostra! Como
todos os da sua profisso, gosta primeiro de tirar tudo a limpo para depois se manifestar.
Estou a pensar...disse Tommy com ar meditativo. Julius voltou-se para ele.
A pensar em qu?
Se ser esse o verdadeiro motivo.
Claro. Aposto que .
Tommy abanou a cabea, pouco convencido.
Sir James chegou pontualmente s oito horas e Julius apresentou-o a Tommy. Sir James apertou
com calor a mo do rapaz.
Tenho o maior prazer em o conhecer pessoalmente, Mr. Beresford. Miss Tuppence falou-me tantas
vezes a seu respeito sorriu involuntariamente que tenho a impresso de que j o conheo bem.
Obrigado, senhor - respondeu Tommy, com o seu sorriso jovial. Contemplou o advogado
perscrutadoramente. Como Tuppence, sentiu o magnetismo da personalidade do homem. Fazia
lembrar Mr. Carter. Os dois homens, to
396
dissemelhantes no fsico, causavam a mesma impresso. Sob a atitude cansada de um e a reserva
profissional do outro, a mesma qualidade de intelecto, afiado como uma lana.
Nesse interim, percebeu o olhar penetrante de Sir James que o examinava. Quando o advogado
baixou os olhos, o rapaz teve a impresso de que o homem lera nele como num livro aberto. Mal
podia imaginar qual fora o juzo formulado, mas pouca esperana havia de o descobrir.
Logo aps os cumprimentos, Julius desatou num fluxo de perguntas ansiosas. Como conseguira Sir
James descobrir a jovem? Porque no declarara que continuava a trabalhar no caso? E assim por
diante.
Sir James batia no queixo e sorria. Disse afinal:
 isso,  isso. bom, a jovem foi encontrada. E isso  o que importa, no ? Ento! Diga, no  o
mais importante?
Claro. Mas como descobriu o senhor a pista ? Miss Tuppence e eu pensmos que o senhor tinha
posto o caso de parte.
Ah! O advogado lanou ao americano um olhar relampejante e recomeou as pancadinhas no
queixo. Foi o que o senhor pensou, no? De facto? Ah, meu caro.
Mas a concluso a que chego  que nos enganmos prosseguiu Julius.
Bom, no sei se eu iria ao ponto de fazer tal afirmao. Mas sem dvida  uma sorte que tenhamos
logrado encontrar a jovem.
Mas onde est ela? -perguntou Julius, desviando os pensamentos para outro lado. -Pensei que o
senhor a traria consigo.
No seria possvel disse Sir James com gravidade.
Porqu?
Porque a jovem sofreu um acidente de viao e recebeu ferimentos leves na cabea. Foi conduzida a
um hospital e ao recuperar os sentidos deu o nome de Jane Finn. Quando ah! tive notcia do facto,
consegui que fosse removida para a casa de sade de um mdico... um amigo meu. E telegrafei-lhe
em seguida ao senhor. Ela recaiu em estado inconsciente e desde ento no mais falou.
397
Os ferimentos no so graves?
Oh, apenas alguns arranhes. Na verdade, sob o ponto de vista mdico,  absurdo que ferimentos
to leves tenham produzido tais sintomas. O seu estado, com toda a probabilidade, deve atribuir-se
ao choque mental consequente da recuperao da memria.
A memria voltou? exclamou Julius, excitado. Sir James bateu na mesa, um tanto impaciente.
Sem dvida, Mr. Hersheimmer, uma vez que pde dizer o nome verdadeiro. Julguei que percebera
esse ponto.
E por casualidade o senhor estava no localdisse Tommy. No parece um conto de fadas?
Mas Sir James era por demais prudente para se deixar levar.
Coincidncias so coisas curiosas disse secamente. Contudo, Tommy agora adquirira a certeza do
que antesapenas suspeitara. A presena de Sir James em Manchester no era acidental. Longe de
abandonar o caso, conforme Julius supusera, o advogado, usando de meios do seu exclusivo
conhecimento, colocara-se na pista da jovem desaparecida. S o que intrigava Tommy era o motivo
de tanto sigilo. Julius continuava a falar.
Depois do jantar anunciou sairei para ver Jane.
No ser possvel, creio eudisse Sir James.  muito pouco provvel que ela tenha permisso de
receber visitas a esta hora da noite. Eu preferia sugerir que fosse amanh, pelas dez horas da manh.
Julius corou. Qualquer coisa em Sir James lhe estimulava o antagonismo. Era o conflito de duas
personalidades poderosas.
Mesmo assim, acho que irei esta noite, afim de ver se consigo escapar aos tolos regulamentos.
Ser intil, Mr. Hersheimmer.
Essas palavras brotaram dos lbios do advogado como um estampido de pistola e Tommy ergueu os
olhos, sobressaltado. Julius estava nervoso e excitado. A mo com que ergueu o copo aos lbios
tremia um pouco, mas os seus olhos
398
enfrentaram os de Sir James num desafio. Por momentos, a hostilidade entre os dois homens
ameaou degenerar em exploso inflamada, mas, por fim, Julius baixou os olhos, derrotado.
De momento, creio que o senhor detm o comando.
Obrigado respondeu o jurista. Ento, s dez da
manh?Com uma consumada distino de maneiras, voltou-se para Tommy. Devo confessar, Mr.
Beresford, que constitui para mim uma surpresa v-lo aqui esta noite. A ltima vez que ouvi falar
no senhor, os seus amigos achavam-se tomados de grande ansiedade por sua causa. Havia dias que
no recebiam notcias suas e Miss Tuppence inclinava-se a acreditar que o senhor enfrentava
dificuldades.
E no se enganava!Tommy sorriu s suas reminiscncias. Foram os mais srios apuros em que me
meti nesta vida.
com a ajuda das perguntas de Sir James, apresentou um relato abreviado das suas aventuras. O
advogado contemplou-o com renovado interesse, quando ele chegou ao fim da histria.
O senhor safou-se muito bem de apuros disse, com gravidade. Os meus parabns. Demonstrou
bastante inteligncia e desempenhou o seu papel muito bem.
Tommy corou, o seu rosto adquiriu um matiz semelhante  cor do lagostim, provocado pelo elogio.
Eu no teria escapado se no fosse a jovem, senhor. No. Sir James sorriu um pouco. Foi uma sorte
para o senhor que ela tenha... simpatizado com a sua pessoa. Tommy quis protestar, mas Sir James
continuou: No h dvida de que ela tambm pertence  quadrilha?
Creio que no, senhor. Julguei que talvez eles a retivessem l pela fora, o que no est de acordo
com a maneira por que se portou. Como o senhor j sabe, ela voltou para junto deles quando podia
escapar!
Sir James meneou a cabea, pensativo.
Que disse ela? Deu a entender que queria voltar para junto de Marguerite?
Sim. Creio que se referia a Mrs. Vandemeyer.
- Ela costumava assinar-se Rita Vandemeyer. Todos os
399
amigos lhe chamavam Rita. Contudo, talvez a jovem tenha adquirido o hbito de a chamar pelo
nome inteiro. E, no momento em que clamava por ela, Mrs. Vandemeyer estava morta ou a expirar!
Curioso! Um ou dois pontos parecem-me obscuros: a repentina mudana de atitude da rapariga para
com o senhor, por exemplo. A propsito, a casa foi revistada, no?
Sim, senhor, mas tinham fugido todos.
 claro disse Sir James secamente.
E no deixaram a mnima pista.
Eu acredito...- O advogado bateu no queixo, perdido em reflexes.
O tom da sua voz fez Tommy levantar os olhos. O homem vislumbraria algum raio de luz onde eles
s encontraram trevas? Falou impulsivamente:
Eu gostaria que o senhor estivesse presente quando revistmos a casa!
Eu tambm declarou Sir James com calma. Guardou silncio por momentos. Depois, ergueu os
olhos. E depois? Em que se ocupou?
Por momentos, Tommy contemplou-o. Ocorreu-lhe ento que o advogado ainda ignorava um facto
importante.
Esqueci-me de lhe falar a respeito de Tuppence disse lentamente. Voltou-lhe a mesma dolorosa
ansiedade, esquecida por momentos na excitao de saber que Jane Finn fora por fim encontrada.
O advogado largou a faca e o garfo vivamente.
Aconteceu alguma coisa a Miss Tuppence? A sua voz era como um gume afiado.
Ela desapareceu disse Julius. ,. , . ,, ,<
Quando?
-H uma semana.
Como ?
As perguntas de Sir James explodiam. No intervalo delas, Tommy e Julius narraram-lhe os
acontecimentos da ltima semana e as suas pesquisas inteis.
Sir James tocou imediatamente no mago do assunto.
400
Um telegrama assinado com o seu nome? Para tanto tinham de contar com
Suficientes conhecimentos a respeito de ambos. No sabiam a extenso das descobertas que o
senhor fizera na casa. O rapto de Miss Tuppence  o movimento em oposio  sua fuga. Se for
preciso, eles selaro os seus lbios com a ameaa do que pode acontecer a Miss Tuppence.
Tommy inclinou a cabea. - exactamente o que penso, senhor.
Sir James fitou-o perscrutadoramente.
- O senhor chegou  mesma concluso ? Muito bem, muito bem mesmo. O interessante  que eles
por certo nada sabiam a seu respeito quando o fizeram prisioneiro. Tem a certeza de que no
incorreu em nenhum descuido capaz de revelar a sua identidade?
Tommy sacudiu a cabea.
Portanto disse Julius -calculo que algum os avisou, e no antes de domingo  tarde.
Sim, mas quem?
O omnisciente Mr. Brown,  claro!
Havia um tom de zombaria na voz do americano, que fez com que Sir James erguesse os olhos
vivamente.
O senhor no acredita em Mr. Brown, Mr. Hersheimrner ?
No, senhor, no acredito retorquiu o americano com nfase. No como o descrevem, bem
entendido. Creio que se trata de uma lenda, apenas um nome de fantasma para assustar crianas. O
verdadeiro chefe desse negcio  esse sujeito russo, Kramenin. Considero-o bem capaz de
deflagrar revolues em trs pases de uma s vez, se o quiser! O tal Whittington  talvez o chefe da
sucursal inglesa.
No concordo com o senhordisse Sir James, lacnico. Mr. Brown existe. Voltou-se para Tommy.
No observou de onde passaram o telegrama?
No, senhor. Creio que no.
Hum. Tem-no a?
Est l em cima, na mala.
Gostaria de passar os olhos pelo telegrama. No h
26 . VAMP. G. 1
401
pressa. J desperdiaram uma semana Tommy baixou a cabea de forma que um dia a mais no faz
diferena. Tratemos primeiro de Miss Jane Finn. Depois, trabalharemos para resgatar Miss
Tuppence do cativeiro. No creio que se encontre em perigo imediato. Isto , ao menos enquanto
eles ignorarem que descobrimos Jane Finn e que esta recuperou a memria. Precisamos de guardar
sigilo a todo o custo. Compreendem ?
Ambos concordaram e, depois de combinarem o encontro do dia seguinte, o grande advogado
despediu-se.
s dez horas, os dois rapazes encontravam-se no lugar designado. Sir James reuniu-se a eles nos
degraus da porta. Era o nico que denotava calma. Apresentou-os ao mdico.
Mrs. Hersheimmer... Mr. Beresford... Dr. Roylance. Como vai a doente?
Est passando bem.  evidente que no tem a noo de que o tempo passa. Perguntou esta manh
quantas pessoas se salvaram do Lusitnia. E se os jornais ainda traziam notcias do torpedeamento.
Era o que se podia esperar, naturalmente Parece preocupada, contudo.
Acho que podemos minorar-lhe a ansiedade. Permite-nos subir?
Pois no.
O corao de Tommy pulsava mais rpido enquanto seguiam o mdico, subindo as escadas. Jane
Finn, afinal! A distinta, a misteriosa, a esquiva Jane Finn! Como se lhe afigurara impossvel
encontr-la! E ali naquela casa, com a memria recuperada quase milagrosamente, encontrava-se a
jovem que tinha nas mos o futuro da Inglaterra. Uma espcie de gemido escapou-se dos lbios de
Tommy. Ah, se Tuppence se achasse a seu lado para partilhar da concluso triunfante da aventura
comum! Depois, resolutamente colocou  margem a lembrana de Tuppence. Crescia-lhe a
confiana em Sir James. Era um homem que iria ter, sem desvios, ao paradeiro de Tuppence.
Entrementes, Jane Finn! E, ento, repentino temor lhe apertou o corao. Parecia fcil
402
demais... E se a encontrassem morta... derrubada pela mo de Mr. Brown?
Ao cabo de alguns instantes, ele ria-se destas fantasias melodramticas. O mdico abriu a porta de
um quarto e entraram. No leito branco, com ligaduras em volta da cabea, estava a jovem. Havia em
toda a cena um toque de irrealidade. Correspondia com tamanha exactido ao que se esperava que
dava a ideia de uma linda encenao.
A rapariga olhou de um para outro, com olhos admirados. Sir James foi o primeiro a falar.
Miss Finndisse, este  seu primo, Mr. Julius P. Hersheimmer.
Fraco rubor subiu s faces da jovem no momento em que Julius avanou e lhe tomou a mo.
Como est, prima Jane ? disse ele alegremente. Mas Tommy percebeu-lhe um tremor na voz.
 na verdade filho do tio Hiram?perguntou a jovem, admirada.
A sua voz, com o leve calor do sotaque do Oeste, possua uma qualidade quase emocionante.
Parecia vagamente familiar a Tommy, mas ps de lado essa impresso como impossvel.
Verdade absoluta.
Lamos nos jornais notcias a respeito do tio Hiram continuou a jovem, na sua voz grave. Mas
nunca pensei que o encontraria algum dia. A mam dizia que o tio Hiram continuava zangadssimo
com ela.
O velho era assim admitiu Julius. Mas julgo que com a gerao nova tudo  diferente. Rixas de
famlia so inconvenientes. A primeira coisa em que pensei, logo que a guerra terminou, foi em vir
procur-la.
Uma sombra passou pelo rosto da rapariga.
Contaram-me certas coisas... coisas pavorosas... que perdi a memria, que decorreram
muitos anos dos quais nada sei... anos perdidos da minha vida...
E voc sente-se capaz de compreender tudo isso?
No. A impresso que tenho  de que no houve inter-
403
valo de tempo desde que nos precipitmos naqueles escaleres. Poderei compreender tudo
agora?Fechou os olhos, num estremecimento de medo.
Julius dirigiu um olhar a Sir James, que abanou a cabea.
No se preocupe. Isso no quer dizer nada. Agora, escute, Jane. H uma coisa que desejamos saber.
Havia um homem a bordo que conduzia importantes papis e gente influente deste pas foi
informada de que os papis lhe foram entregues.  verdade?
A jovem hesitou, olhando de um homem para outro. Julius compreendeu.
Mr. Beresford foi contratado pelo governo britnico para descobrir os documentos. Sir James
Peei Edgerton  membro do Parlamento da Inglaterra e poderia, se quisesse, ser figura de destaque
do gabinete.  devido a isso que a procurmos at a encontrar. Assim no tenha receio e conte-nos
toda a histria. Danvers entregou-lhe os papis ?
Sim. Disse que ficariam mais seguros comigo, porque salvariam primeiro as mulheres e as crianas.
Tal como pensmos disse Sir James.
Disse-me que eram de grande importncia: poderiam ter um significado decisivo para os aliados.
Mas, se h ja tanto tempo e se a guerra terminou, que importam agora?
Creio que a histria se repete, Jane. Primeiro houve um escarcu por causa desses papis, depois
passou, agora o alarido recomeapor motivos diferentes. Pode ento entregar-nos os
documentos?
No posso.
-O qu?
No os tenho. ,
No... os tem?Julius destacou as palavras com pequenas pausas intermedirias.
No. Perdi-os. Perdeu-os?
Sim. Fiquei inquieta. Parecia que me vigiavam. Tive medo, o que lamento. Levou a mo  cabea.
 quase a ltima coisa que recordo, depois que despertei no hospital...
404
Continue... disse Sir James, com a sua voz calma e penetrante. De que se lembra?
Ela voltou-se para ele, obedientemente.
Eu estava em Holyhead. Tomei aquele caminho, no me lembro porqu...
Isso no importa. Continue.
Na confuso do cais esgueirei-me para a rua. Ningum me viu. Tomei um automvel. Disse ao
motorista que me conduzisse para fora da cidade. Fiquei alerta ao chegarmos a uma estrada
solitria. Nenhum outro automvel nos seguia. Divisei um caminho ao lado da estrada. Ordenei ao
homem que parasse. Fez uma pausa, depois continuou. O caminho levou-me ao penhasco e da at
ao mar, por entre grandes moitas de urzes amarelas: pareciam chamas de ouro. Olhei ao redor. No
havia viva alma  vista. Bem  altura da minha cabea notei um buraco na rocha. Era bem pequeno,
mal dava para introduzir a minha mo, mas bastante fundo. Desprendi do pescoo o pacote de
oleado e escondi-o ali com a maior rapidez possvel. Depois, arranquei umas urzes eoh! 
angustiante! e tapei o buraco, de modo a no deixar uma fenda sequer. Depois, observei com toda a
ateno o lugar, gravando-o na mente, para que pudesse encontr-lo de novo. Havia uma esquisita
pedra arredondada no caminhoassemelhava-se a um cachorrinho empinado sobre as patas trazeiras.
Ento voltei at  estrada. O automvel aguardava-me e regressei. Mal tive tempo de tomar o
comboio. Eu envergonhava-me de estar a imaginar coisas, mas tinha quase a certeza de que o
homem sentado  minha frente piscava os olhos para uma mulher que se achava perto de mim; mais
uma vez, assaltou-me o medo e senti-me satisfeita por os papis estarem a salvo. Sa ao corredor
para tomar um pouco de ar. Pensei em mudar de carruagem. Mas a mulher chamou-me,
disse que eu deixara cair alguma coisa e quando me abaixei, deram-me uma pancada... aqui. Levou
a mo  parte posterior da cabea. No me lembro de mais nada, at que despertei no hospital.
Seguiu-se o silncio.
Muito obrigado, Miss Finn. Foi Sir James quem falou. No se fatigou?
Oh, no. Doi-me um pouco a cabea mas quanto ao mais sinto-me bem.
Julius acercou-se do leito e tomou a mo da jovem.
At logo, prima Jane. Vou procurar esses papis, mas voltarei em dois tempos, lev-la-ei a Londres
e logo que se restabelea, voltaremos aos Estados-Unidos. Assim, trate de ficar boa depressa.
406
XX - TARDE DEMAIS
Na rua, realizaram um conselho de guerra sem formalidades. Sir James tirou o relgio do bolso.
O comboio que leva aos barcos para Holyhead pra em Chester s doze e catorze. Se os senhores se
puserem em marcha imediatamente, podero apanh-lo.
Tommy olhou-o, intrigado. -Para qu tanta pressa, senhor? Hoje  apenas 24.
Sou de opinio que todo o trabalho deve ser comeado cedo disse Julius, antes que o advogado
tivesse tempo de responder. Iremos daqui directamente  estao.
Sir James enrugou a testa.
Eu gostaria de os acompanhar. Mas tenho uma reunio ao meio-dia.  uma pena.
O tom de relutncia da sua voz era evidente. Por outro lado, estava bem claro que Juhus se dispunha
com firmeza a passar sem a companhia do homem.
Este negcio no tem complicao nenhuma observou.  apenas uma brincadeira, nada mais.
Fao votos de que assim sejadisse Sir James.
E . Que mais pode ser ?
O senhor ainda  muito jovem, Mr. Hersheimmer. Quando tiver a minha idade talvez aprenda a
lio: Nunca subestime o adversrio.
A gravidade da sua voz impressionou Tommy, mas pouco efeito exerceu sobre Julius.
O senhor pensa que Mr. Brown  capaz de fazer uma apario? Se fizer, estou pronto para o
esperar. Deu uma
407
palmada no bolso. Tenho arma. O canho de algibeira acompanha-me a toda a parte. Puxou uma
automtica de aspecto homicida e acariciou-a afectuosamente antes de a guardar. Mas nesta viagem no
precisarei de a usar. Ningum pode ter avisado Mr. Brown.
O advogado encolheu os ombros.
- -Ningum podia ter avisado Mr. Brown de que Mrs. Vandemeyer pretendia tra-lo. Contudo, Mrs.
Vandemeyer morreu sem falar.
Julius calou-se e Sir James acrescentou, em voz mais alegre:
Quis apenas adverti-los. Adeus e felicidades. No corram perigos desnecessrios, uma vez os papis nas
vossas mos. Se tiverem motivos para acreditar que so perseguidos, destruam-nos imediatamente.
Felicidades. Apertou a mo dos rapazes.
Dez minutos depois os dois jovens sentavam-se numa carruagem de primeira classe, en route para 
Chester.
Por longo tempo nenhum deles falou. Quando por fim Julius interrompeu o silncio, foi com uma observao
totalmente inesperada.
Escute observou, pensativo,voc nunca fez de idiota chapado por causa de um rosto de mulher ?
Tommy, aps uns momentos de espanto, conseguiu pensar.
No me recordo, replicou por fim. No me posso recordar. Porqu?
Porque nos ltimos dois meses no fiz outro papel seno
o do pateta sentimental por causa de Jane! No instante em que pus os olhos no retrato dela, o meu 
corao
manifestou todos os sintomas que a gente l nos romances. Envergonho-me um pouco de o confessar, 
mas
vim para c resolvido a encontr-la, arranjar as coisas e lev-la de novo como Mrs. Julius Hersheimmer!
Oh! exclamou Tommy admirado.
Julius descruzou as pernas bruscamente e continuou:
1 Isto demonstra como um homem se pode tornar idiota! Bastou um olhar dirigido  pequena em pessoa e
fiquei curado!
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Sentindo-se com a lngua mais atada que nunca, Tommy exclamou Oh! novamente.
Sem desfazer em Jane, entenda-se continuou o americano. de facto uma criatura bonita e no
faltar quem se apaixone por ela.
Achei-a muito bonita disse Tommy, readquirindo a fala.
com efeito. Mas no  como no retrato, nem de longe. Suponho que  ela, de certo modo... deve
ser... porque a reconheci logo. Se a visse numa multido eu diria. Aqui est a jovem cujo rosto eu
conheo com todo o acerto e sem qualquer hesitao. Mas havia qualquer coisa naquele
retrato...Julius sacudiu a cabea e soltou um suspiro. Romantismo  uma coisa esquisita, julgo eu.
Deve ser disse Tommy com frieza,se voc vem para c apaixonado por uma pequena e pede
outra em casamento ao cabo de uma quinzena.
Julius condescendeu que se achava desconcertado.
bom, voc compreende, tive uma espcie de pressentimento de que nunca encontraria Jane... e
aquilo foi pura tolice, de qualquer modo. E, depois... ora, vamos! Os franceses, por exemplo, so
muito mais sensatos na maneira por que encaram as coisas. Eles consideram romances e casamento
como coisas distintas...
Tommy corou.
Ora bolas! Quer dizer ento...
Julius apressou-se a interromp-lo.
No se precipite. No quero dizer o que voc pensa. Creio que os americanos tm um conceito mais
elevado de moralidade do que mesmo vocs. O que eu quis dizer  que os franceses encaram o
casamento em termos quase comerciais: duas pessoas que gostam uma da outra, cuidam do
problema financeiro e resolvem tudo praticamente, com esprito mercantil.
Se no me engano disse Tommy, todos somos mercantis demais hoje em dia. Estamos sempre a
perguntar: Que ganharemos? Os homens so bastante maus e as mulheres ainda piores! Sintome
exaltado.
409
Acalme-se. No se exalte.
Julius achou melhor no dizer mais nada.
Todavia, Tommy teve tempo de sobra para se acalmar at que chegassem a Holyhead e o alegre
sorriso voltou-lhe  fisionomia quando desembarcaram na estao de destino.
Alugaram um taxi sem mais delongas e seguiram pela estrada que vai a Treaddur Bay.
Recomendaram ao motorista que conservasse marcha vagarosa e observavam com ateno para no
perderem o caminho transversal a que aludira Jane. No havia muito que haviam sado da cidade
quando descobriram um caminho nas condies descritas. Tommy imediatamente mandou parar o
carro, perguntou ao homem, como por casualidade, se aquela vereda levava ao mar e, obtida a
resposta, pagou a corrida em belo estilo.
Momentos depois, o taxi rodava lentamente de regresso a Holyhead. Tommy e Julius
contemplaram-no at o perderem de vista e depois encaminharam-se para a estreita vereda.
 por aqui,creio eu disse Tommy com ar de dvida. Talvez haja milhares de caminhos como este
nas redondezas.
Est visto que  aqui, sim. Olhe as urzes. Lembra-se do que Jane disse ?
Tommy contemplou as densas sebes, cobertas de flores douradas, que delimitavam o caminho de
um lado e de outro,
e convenceu-se.
Desceram um atrs do outro, Julius  frente. Por duas vezes, Tommy voltou a cabea, inquieto.
Julius olhou para trs.
-Que h?
No sei. Talvez o vento. Continuo a imaginar que algum nos segue.
No pode ser disse Julius, positivo. Teramos visto. Tommy era obrigado a reconhecer essa verdade.
Contudo, aumentava-lhe a inquietao. A contragosto, acreditava na onniscincia do inimigo.
Eu s queria que o tal sujeito viesse disse Julius. Bateu no bolso. O canho de algibeira est
morto por entrar em aco!
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Voc leva-o para toda a parte?perguntou Tommy, com inflamada curiosidade.
Quase sempre. A gente nunca sabe o que pode acontecer. Tommy guardou respeitoso silncio.
Impressionava-o o
canho de algibeira. Parecia afastar a ameaa de Mr. Brown. O caminho agora costeava a borda do
rochedo, paralelo ao mar. Em dado momento, Julius parou to de repente que Tommy esbarrou
nele.
Que h? perguntou.
Olhe. Isto  de fazer bater o corao!
Tommy olhou. Sobressaindo e quase obstruindo o caminho, via-se enorme pedra arredondada que
por certo se assemelhava a um cozinho em p.
Bomdisse Tommy, recusando-se a partilhar a emoo de Julius, era o que espervamos encontrar,
no era?
Julius fitou-o com tristeza e disse, abanando a cabea:
Fleuma britnica! Sem dvida,  o que espervamos; mas bole-me com os nervos mesmo assim,
encontr-lo ali, exactamente onde prevamos!
Tommy, cuja calma talvez fosse mais simulada que natural, avanou com impacincia.
Vamos. Onde est a tal abertura?
Examinaram meticulosamente a superfcie do rochedo. Tommy ouviu-se a dizer tolamente:
As urzes no devem estar no mesmo lugar, depois de tantos anos.
E Julius respondeu com solenidade:
Tem razo.
Tommy, de repente, apontou para um lado com a mo a tremer.
E aquela fenda ali?
Julius respondeu com voz aterrada: ..
 ali. No h dvida. Olharam-se um ao outro.
Tommy contemplou a rocha com uma espcie de paixo agnica.
Diabo!gritou. impossvel! Cinco anos! Pense
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nisso! Garotos em busca de ninhos de pssaros, milhares de pessoas a passarem! No pode estar ali! As
possibilidades so de uma contra cem.  absolutamente contrrio  razo!
Na verdade, julgava impossvel-mais, talvez, porque no cria no seu triunfo onde tantos outros haviam
fracassado. Tudo parecia fcil demais e, portanto, no podia ser. O buraco, por fora estava vazio.
Julius contemplou-o com um largo sorriso.
Agora acho-o melhor declarou alegremente. Bom, l vai! - Enfiou a mo na abertura e fez uma careta.
 estreito. A mo de Jane deve ser muitas vezes menor que a minha. No toco em nada... no... oh, que  
isto?
Cus!
Agitou no ar um pequeno pacote desbotado. So os papis. Envlucro de oleado. Segure-o enquanto
procuro o meu canivete.
Acontecera o inacreditvel. Tommy segurou ternamente o precioso pacote com ambas as mos. Haviam
triunfado!
 esquisito, murmurou, mas era de pensar que as costuras tivessem apodrecido. Esto como novas.
Cortaram com cuidado o oleado e lanaram-no para um lado. Dentro havia uma pequena folha de papel,
dobrada. Desdobraram-na com dedos trmulos. A folha de papel estava em branco!
Olharam-se mutuamente, atnitos.
Uma burla ? aventurou Julius. Simples armadilha de Danvers?
Tommy abanou a cabea. Essa soluo no o satisfazia, De repente, a sua fisionomia iluminou-se. ,
Descobri! Tinta simptica! -Acha?
Vale a pena tentar, seja como for. Em geral, o calor realiza o truque. Juntemos uns gravetos. Acenderemos 
um
fogo.
Em poucos minutos o fogo de cavacos e folhas ardia alegremente. Tommy aproximou da labareda a folha 
de
papel O papel enrugava um pouco com o calor. Nada mais.
De sbito, Julius segurou o brao do companheiro e
apontou para o ponto em que as letras principiavam a aparecer, em desmaiada cor castanha.
Deus do cu1 Voc fez o milagre! Garanto-lhe, essa sua ideia foi genial Nunca me ocorreria.
Tommy conservou o papel na mesma posio por mais alguns minutos, at que julgou que o aquecimento
realizara o trabalho. Ento retirou-o. Um momento depois soltou um grito.
Atravs da folha de papel, em ntidas letras de imprensa de cor castanha, liam-se as palavras:
COM OS CUMPRIMENTOS DE MR. BROWN.
XXI - TOMMY FAZ UMA DESCOBERTA
Por alguns momentos ficaram a olhar um para o outro estupidamente, confusos com o choque. De
algum modo, inexplicavelmente, Mr. Brown antecipara-se-lhes. Tommy aceitou a derrota em
silncio. O mesmo no aconteceu com Julius.
Mas de que forma pde ele chegar antes de ns ? Isto  o que me deixa abismado! finalizou o
americano.
Tommy abanou a cabea e disse com tristeza:
Isto explica porque as costuras pareciam recentes. Poderamos ter previsto...
No importa o raio das costuras! Como foi que ele nos tomou a dianteira? Viemos o mais depressa
possvel. Era absolutamente impossvel algum chegar aqui mais rapidamente do que ns. E, alm
disso, como o soube? Voc supe que havia um ditafone no quarto de Jane? Acho que
havia.
Mas o bom senso de Tommy ops objeces.
Ningum podia saber com antecipao que ela iria para aquela casa de sade e muito menos
para aquele determinado quarto.
Pois concordou Julius. Ento uma das enfermeiras era uma espia e escutou  porta. Que acha ?
De qualquer forma, isso no importa disse Tommy, impaciente. Talvez ele tenha feito a descoberta
h meses, tirado os papis, e depois... No, por Deus, no  possvel! Eles teriam publicado o
documento sem mais demora.
 claro! No, algum veio  nossa frente hoje, com uma
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dianteira de uma hora ou mais. Mas como o conseguiram  o que no est ao alcance da minha
compreenso.
Gostaria que aquele Peel Edgerton tivesse vindo disse Tommy, pensativo.
Porqu?Julius encarou-o admirado. O mal foi praticado enquanto viajvamos para c.
Sim...-Tommy hesitou. No podia explicar os seus prprios sentimentos, a ideia ilgica de que a
presena do advogado poderia de algum modo evitar a catstrofe. Retornou ao seu primitivo ponto
de vista: No vale a pena discutir sobre um facto consumado. A histria terminou. Fracassmos. S
me resta fazer uma coisa.
-Que ?
Voltar a Londres o mais breve possvel. Preciso de avisar Mr. Carter. Agora, faltam apenas
algumas horas para a bomba explodir. Mas, em todo o caso, ele precisa de receber a m notcia.
A obrigao era bastante antiptica, mas Tommy no tinha inteno de se furtar a ela. Devia levar a
Mr. Carter a notcia do seu fracasso. Depois, a sua misso estaria finda. Seguiu no vapor da meianoite
para Londres. Julius resolveu passar a noite em Holyhead.
Meia hora depois da sua chegada, cansado e plido, Tommy parava diante do chefe.
Vim trazer informaes. Fracassei. Fracassei lamentavelmente.
Mr. Carter olhou-o vivamente.
Quer dizer que o tratado...
Est em poder de Mr. Brown, senhor.
Ah! exclamou Mr. Carter calmamente. No se alterou a expresso do seu rosto, mas Tommy
entreviu-lhe nos olhos um bruxoleio de desespero. Isto convenceu-o, mais que tudo, de que a
situao era desesperada.
bom disse Mr. Carter aps alguns minutos, no devemos cair de joelhos, creio eu. Fico
satisfeito por saber ao certo. Precisamos de fazer o que pudermos.
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Na mente de Tommy luziu esta certeza: No h esperanas, ele sabe que no h esperanas! O
homem olhou-o.
No se preocupe com isso, rapaz,disse com bondade. Voc fez o que pde. Enfrentou uma das
maiores mentalidades do sculo. E esteve muito perto da vitria. No esquea isso.
Obrigado, senhor.  muita bondade da sua parte.
Recrimino-me a mim prprio. Estou a recriminar-me desde que recebi esta outra notcia.
O tom em que falou atraiu a ateno de Tommy. Novo receio lhe apertou o corao.
H... mais alguma coisa, senhor?
Creio que sim disse Mr. Carter, com gravidade. Entregou-lhe uma folha de papel, que
apanhou de sobre a mesa.
Tuppence... ?gaguejou Tommy.
Leia voc mesmo.
As palavras dactilografadas danaram-lhe diante dos olhos. Era a descrio de um chapeuzinho
verde, um casaco contendo no bolso um leno marcado com as letras P. L. C. O rapaz fitou Mr.
Carter com uma interrogao angustiosa nos olhos. O homem respondeu:
Deram  praia na costa do Yorkshire... perto de Ebury. Estou receoso... parece uma brincadeira
muito desagradvel.
Meu Deus! gemeu Tommy. Tuppence! Aqueles demnios... no descansarei enquanto no os
agarrar! Hei-de descobri-los! Eu vou...
A compaixo estampada no rosto de Mr. Carter deteve-o.
Sei como se sente, meu pobre rapaz. Mas isso no  bom. Gastar as suas foras inutilmente.
Pode parecer grosseria, mas o meu conselho : diminua as suas perdas. O tempo  misericordioso.
Voc esquecer
Esquecer Tuppence? Nunca!
Mr. Carter meneou a cabea.
 o que pensa agora. bom. no suporto recordar...
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aquela valente jovem! Lamento tudo o que houve. Lamento profundamente.
Tommy aproximou-se de Mr. Carter, num sobressalto.
Estou tomando o seu tempo, senhordisse, com esforo. O senhor no tem de que se recriminar.
Creio que fomos um par de tolos por nos metermos neste caso. O senhor advertiu-nos
reiteradamente. Mas eu rogaria a Deus que fosse eu a vtima. Adeus, senhor.
De volta ao Ritz, Tommy emalou maquinalmente as suas coisas, o pensamento distante. Sentia-se
ainda perplexo pela apario da tragdia na sua existncia alegremente vulgar. Quanto se haviam
divertido juntos, ele e Tuppence! E agora... Oh! No podia acreditar... No podia ser verdade!
Tuppence morta! A pequena Tuppence, transbordante de vida! Era um sonho, um sonho horrvel.
Nada mais.
Trouxeram-lhe um bilhete, algumas bondosas palavras de conforto enviadas por Peel Edgerton, que
lera a notcia nos jornais. (Publicaram enorme cabealho: PERECEU AFOGADA UMA EXVOLUNTRIA
DE GUERRA?). A carta terminava com o oferecimento de um emprego numa
fazenda de gado na Argentina, onde Sir James possua considerveis interesses.
bom sujeito! murmurou Tommy, jogando o papel para o lado.
A porta abriu-se e Julius irrompeu com a sua habitual violncia. Trazia na mo um jornal.
Escute, que histria  esta? Parece que tiveram uma ideia louca a respeito de Tuppence.
 a verdade disse Tommy calmamente.
Quer dizer que deram cabo dela? Tommy inclinou a cabea afirmativamente.
>; Ao que acredito, uma vez descoberto o tratado, Tuppence... deixou de ter utilidade para eles e
recearam dar-lhe liberdade.
Estou consternado!exclamou Julius. Pobre Tuppence! Era a criaturinha mais valorosa...
Mas, de sbito, alguma coisa explodiu no crebro de Tommy. Ps-se de p.
22-VAMP. G. 1
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Ora, v-se embora! Voc na verdade no se importa, seu idiota! Pediu-a em casamento com toda
essa sua maldita frieza, mas eu amava-a. Daria a vida para que ela no sofresse o menor dano. Eu
no diria uma s palavra e deixaria que ela casasse consigo, porque voc lhe podia dar o tipo de
vida que ela merecia e eu era apenas um pobre diabo sem vintm. Mas no que eu fosse
indiferente!
Mas escute disse Julius, com moderao.
Ora, v para o diabo! No posso suportar que esteja a a falar em pobre Tuppence. V e cuide da
sua prima. Tuppence  a minha pequena! Amei-a sempre, desde que, em criana, brincvamos
juntos. Crescemos e tudo continuou na mesma. Nunca esquecerei o tempo em que estive
no hospital e de quando ela entrava com uma ridcula touca e um avental. Era como um milagre ver
a mulher que eu amava transformada em enfermeira...
Enfermeira! Por Deus! Tenho de ir a Coney Hatch! Seria capaz de jurar que vi Jane com uma touca
de enfermeira tambm. E  absolutamente impossvel! No, por Deus, tenho de descobrir isso. Foi
ela que eu vi a conversar com Whittignton no sanatrio de Bournemouth. No estava l como
doente. Era enfermeira!
com toda a certeza disse Tommy furiosamente ela estava do lado deles desde o comeo. No duvido
que tenha roubado os papis a Danvers, para comear...
Diabos me levem se fez tal coisa! gritou Julius.
 minha prima e  patriota!
Importa-me l o que ela seja, mas saia daqui berrou Tommy, em altos brados.
Os rapazes estavam a ponto de se esmurrarem. Mas, de repente, com uma precipitao mgica, a
clera de Julius abateu.
Est bem disse com calma. Eu vou-me embora. No o censuro pelo que est a dizer. Foi bom
que o dissesse. Fui o maior pateta que  possvel imaginar. Acalme-se.
Tommy fizera um gesto de impacincia. Daqui vou
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directamente  estao de caminho de ferro London and North Western, se quiser saber.
Pouco me interessa onde voc v resmungou Tommy. Quando a porta se fechou atrs de Julius,
Tommy virou-se para as suas malas.
Est tudo pronto murmurou, e tocou a campainha.
Leve a minha bagagem para baixo.
Sim, senhor. Vai-se embora?
Vou para o diabo! disse Tommy, grosseiramente. O criado, entretanto, replicou apenas, com
respeito:
Sim, senhor. Quer que chame um taxi?
Tommy fez que sim com um sinal de cabea.
Onde ia ele? No fazia a menor ideia. Alm da determinao fixa de se vingar de Mr. Brown no
tinha plano algum. Releu a carta de Sir James e balouou a cabea. Precisava de vingar Tuppence.
Contudo, era bondade daquele tipo oferecer-lhe trabalho.
 melhor responder. Dirigiu-se  escrivaninha. com a habitual perversidade da papeleira de
quarto de hotel, encontrou numerosos sobrescritos mas nem uma folha de papel. Tocou a
campainha. No veio ningum. Tommy ficou furibundo com a demora. Depois, lembrou-se que nos
aposentos de Julius havia papel em quantidade. O americano anunciara a partida imediata, no
haveria perigo de o encontrar. Alm disso, se o encontrasse no importaria. Comeava a arrependerse
do que dissera. O bom Julius no levara a mal. Pediria desculpas se o encontrasse l.
Mas o quarto estava deserto. Tommy aproximou-se da escrivaninha e abriu a gaveta do centro. Uma
fotografia, com a face cuidadosamente voltada para cima, chamou-lhe a ateno. Por momentos,
ficou plantado no mesmo lugar. Depois, agarrou na fotografia, fechou a gaveta, caminhou
vagarosamente para uma poltrona e sentou-se a contemplar o retrato que segurava na mo.
Por que diablica razo a fotografia de Annette, a jovem francesa, se encontrava na escrivaninha de
Julius P. Hersheimmer ?
419
XXII  EM DOWNING STREET
O Primeiro Ministro bateu na mesa  sua frente com dedos nervosos. Tinha a fisionomia cansada e
abatida. Recomeou a conversa com Mr. Carter no ponto em que a interrompera.
No compreendo disse. Quer ento realmente dizer que o caso no  desesperador, apesar de tudo?
Assim parece crer esse rapaz. (
Deixe-me ver a carta outra vez.
Mr. Carter entregou-lhe a folha de papel coberta de
gatafunhos de colegial.
Prezado Mr. Carter:
< Ocorreu um facto que me abalou.  claro que posso estar a cometer grossa asneira, mas no o creio. 
Se as
minhas concluses so exactas, essa jovem de Manchester no passa de puro embuste. Foi tudo 
arranjado de
antemo, o pacote falso e o resto, com o objectivo de nos fazer crer que o caso estava liquidado: portanto,
julgo que estivemos muito perto da pista certa.
Julgo que sei quem  a verdadeira Jane Finn e tenho mesmo uma ideia sobre o lugar em que se encontram 
os
papis. Quanto a estes, est visto que formulo apenas uma hiptese que, no entanto, pressinto ser 
acertada.
De qualquer modo, incluo um envelope fechado contendo as explicaes. Quero pedir que no o abra at 
ao
ltimo momento, at  meia-noite do dia 28, para ser exacto. Compreender porqu num minuto. Cheguei 
concluso de que aquela histria sobre Tuppence  embuste tambm, e ela no est mais afogada do que 
eu.
Raciocino assim: como derradeira cartada, deixaro Jane Finn fugir.
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na esperana de que ela tenha apenas simulado a perda da memria e que, uma vez que se julgue em
liberdade, se dirija directamente ao esconderijo.  evidente que se arriscaram muito, porque ela sabe tudo 
a
respeito deles. Mas esto desesperados por conseguir o tratado. Mas se souberem que recupermos os
papis, a vida de nenhuma das duas jovens estar garantida por uma hora. Empenhar-me-ei em libertar
Tuppence antes da fuga de Jane.
Preciso de uma repetio do telegrama que enviaram a Tuppence para o Ritz. Sir James Peel Edgerton
disse-me que o senhor o pode conseguir. Ele  de uma inteligncia tremenda.
Uma ltima coisa: por favor, mantenha aquela casa de Soho vigiada dia e noite.
Atenciosamente,
Thomas Beresford
O primeiro ministro ergueu os olhos:
E o envelope ?
Nos cofres do Banco. Nada de descuidos.
No acha o Primeiro Ministro hesitou um pouco que seria melhor abri-lo agora?
Convm confirmar o documento, isto , descobrir se o que o rapaz diz  certo, imediatamente.
Podemos conservar o caso em sigilo absoluto.
Podemos? No estou certo. Os espies cercam-nos por todos os lados. Conhecido o segredo, eu
no daria isto mostrou a ponta dos dedos pela vida das duas jovens. No, o rapaz confiou em mim e
no o decepcionarei.
bom, bom, deixemos o segredo nos cofres, ento. E o rapaz, que tal ?
Exteriormente,  o tipo comum dos jovens ingleses, de fsico robusto e inteligncia no muito viva.
 lento no trabalho mental. Por outro lado,  absolutamente impossvel desvi-lo de um rumo por
meio da imaginao. No possui uma dose mnima sequer de imaginao; assim,  difcil
enganar-se. Ele custa a apreender um problema, mas desde que encontre o fio da meada no
mais o deixa escapar. A jovem  bem diferente. Mais intuio e menos senso comum.  um par
magnfico para trabalharem juntos.
421
Ele parece estar confiante disse o Primeiro Ministro.
Sim, e por isso  que me sinto esperanoso.  um rapaz desconfiado e s depois de estar muito
seguro  que se aventuraria a emitir uma opinio.
Ligeiro sorriso distendeu os lbios do Primeiro Ministro.
Em suma, esse rapazote... derrotar o maior criminoso da poca?
Sim, esse rapazote, como o senhor diz... Mas, s vezes, imagino ver uma sombra por trs dele.
Que quer dizer?
Peel Edgerton.
Peei Edgerton ? disse o Primeiro Ministro, atnito.
Sim. Pressinto a mo dele nisto. Mostrou a carta aberta. Ele est a a trabalhar na sombra, em
silncio, com discrio. Sempre tive a impresso de que, se algum estava destinado a derrotar
Mr. Brown, esse algum seria Peel Edgerton. Acredito que ele trabalha no presente caso, mas
no quer que se saiba. Por falar nisso, h alguns dias recebi dele um pedido singular.
-Sim?
Enviou-me um recorte de um jornal americano. Referia-se ao cadver de um homem encontrado
perto das docas de Nova York, h umas trs semanas. Pedia-me para recolher quaisquer
informaes possveis sobre o caso.
E ento?
Crter encolheu os ombros.
No consegui l grande coisa. Tratava-se de um rapaz de trinta e cinco anos... pobremente vestido...
rosto terrivelmente deformado. No foi possvel identific-lo.
E julga que os dois assuntos tm alguma ligao?
De certo modo, sim. Posso estar enganado,  claro. Calaram-se, depois Mr. Carter continuou:
Pedi a Peel Edgerton para vir aqui. No que possamos obter dele qualquer informao que se
recuse a prestar. Os seus instintos de homem de leis so muito fortes. Mas no resta dvida de que
pode projectar alguma luz sobre pontos obscuros da carta de Beresford. Ah, ei-lo!
422
Os dois homens ergueram-se para cumprimentar o recm-chegado. Um pensamento caprichoso
atravessou a mente do premier:-Meu sucessor, talvez!
Recebemos uma carta do Beresford disse Mr. Carter, indo directamente ao assunto. No o tem
visto?
No respondeu o advogado.
Oh! Mr. Carter mostrou-se um pouco embaraado.
Sir James sorriu e bateu no queixo.
Ele telefonou-me disse.
O senhor no opor objeces em nos contar exactamente o que se passou entre ambos?
No, absolutamente. O rapaz agradeceu-me uma carta que eu lhe escreverapara ser exacto, oferecilhe
um emprego. Depois recordou-me uma observao que eu fiz na presena dele em Manchester a
respeito do telegrama forjado que serviu de isca no rapto de Miss Cowley. Perguntei-lhe se
sobreviera algum acontecimento desagradvel. Respondeu que descobrira uma fotografia, numa
gaveta dos aposentos de Mr. Hersheimmer. O advogado fez uma pausa, prosseguindo em seguida:
Perguntei-lhe se no estavam gravados na fotografia o nome e o endereo de um fotgrafo da
Califrnia. Replicou: Adivinhou, senhor. Prosseguindo, revelou-me um facto que eu no sabia. O
original da fotografia era a jovem francesa, Annette, que lhe salvara a vida.
O qu?
Exactamente. Perguntei ao rapaz, com certa curiosidade, o que fizera ao retrato. Respondeu que
tornara a coloc-lo onde o encontrara. O advogado mais uma vez fez uma pausa.
Procedeu bem, como vem, muito bem mesmo. Sabe usar a cabea, aquele rapaz. Dei-lhe os
parabns. A descoberta foi providencial.  claro que desde o momento em que se verificou que a
jovem de Manchester  uma embusteira, tudo se modificou. Beresford compreendeu por si
mesmo, sem ser preciso que eu lho dissesse. Mas no confiou nos seus raciocnios no assunto
referente a Miss Cowley. Perguntou-me se eu admitia que ela estava viva. Respondi-lhe,
ponderando bem o caso,
423
haver muitas probabilidades. Isto fez-nos voltar  questo do telegrama. -Sim?
Aconselhei-o a pedir-lhe uma cpia do telegrama original. Julguei provvel que, depois de Miss
Cowley ter jogado o telegrama fora, houvessem apagado e alterado certas palavras com a inteno
expressa de colocar em pista falsa os que a procurassem.
Crter inclinou a cabea, concordando. Tirou do bolso uma folha de papel e leu em voz alta:
Venha imediatamente, Astley Priors, Gatestone, Kent. Grandes acontecimentos Tommy.
Muito simples disse Sir James e bastante engenhoso. Bastou a alterao de poucas palavras e tudo
falhou. Desprezaram a nica pista importante.
-Qual?
A que forneceu o garoto empregado do hotel, ao informar que Miss Gowley se dirigira  estao de
Charing Cross. Estavam to convencidos que supuseram que o pequeno se enganara.
Ento, Beresford encontra-se agora?
Em Gatehouse, no Kent, a no ser que eu esteja muito enganado.
Mr. Carter fitou-o com curiosidade. Julguei que o senhor tambm fosse para l, Peel
Edgerton.
Ah, agora-estou muito atarefado com uma causa.
No estava em frias?
Oh, fui obrigado a abrevi-las. Talvez fosse mais exacto dizer que estou preparando uma causa.
No obteve mais informaes sobre aquele americano?
No.  importante descobrir quem era ele?
Oh, sei quem ele era disse Sir James vagarosamente. O que no posso ainda  provar mas sei!.
Os outros dois homens no fizeram perguntas. compreendiam que seria pura perda de tempo.
Mas o que eu no compreendo disse o Primeiro
424
Ministro, de sbito como essa fotografia foi parar  gaveta de Mr. Hersheimmer.
Talvez nunca tenha sado de l sugeriu gentilmente o advogado.
Mas, e o falso inspector? O inspector Brown?
Ah! exclamou Sir James, pensativo. Ergueu-se. No devo roubar-lhes tempo. Continuem a tratar
dos problemas nacionais Preciso de voltar a tratarda minha causa.
Dois dias depois, Julius Hersheimmer voltava de Manchester. Encontrou sobre a mesa um bilhete
de Tommy:
Meu caro Hersheimmer:
Sinto muito por haver perdido a calma. Caso no o torne a ver, deixo-lhe o meu adeus. Ofereceram-me um
emprego na Argentina e sou capaz de o aceitar.
Seu amigo
Tommy Beresford
Um sorriso peculiar brincou por momentos na fisionomia de Julius. Arremessou o bilhete  cesta de papis.
Pobre idiota! murmurou.
XXIII - UMA CORRIDA CONTRA O TEMPO
Depois de telefonar a Sir James, o passo seguinte de Tommy foi fazer uma visita a South Audley
Mansions. Encontrou Albert em pleno desempenho dos deveres profissionais e apresentou-se sem
mais prembulos como amigo de Tuppence. Albert ps-se alerta.
Tudo tem andado muito calmo, ultimamente disse, pensativo. E a menina vai passando bem,
senhor?
Esse  justamente o caso, Albert. Ela desapareceu.
Os bandidos raptaram-na?
Sim.
No subterrneo?
No, foi mesmo sobre a face da Terra.
 um modo de dizerexplicou Albert.Nos filmes os bandidos tm sempre um restaurante
subterrneo, uma cave. Ser que a mataram?
Espero que no. Por falar nisso, voc no poder arranjar uma parenta velha, uma tia, av, ou
qualquer coisa, que esteja prestes a esticar a canela, obrigando-o a ir visit-la ?
Um sorriso de felicidade espalhou-se lentamente pela fisionomia de Albert.
Posso inventar uma parenta em dois tempos, senhor. A minha pobre tia que mora no campo h
muito tempo que anda a passar mal, e pede a todo o instante para me ver antes de exalar o ltimo
suspiro...
Tommy inclinou a cabea, em ar de aprovao.
Ento, voc pode arranjar isso da melhor maneira e ir encontrar-me em Charing Cross daqui a uma
hora ?
426
L estarei. Conte comigo.
Como Tommy imaginara, o fiel Albert revelou-se um aliado valioso. Alojaram-se os dois numa
hospedaria de Gatehouse. Tocou a Albert a tarefa de recolher informaes. No encontrou
dificuldade.
Astley Priors era a propriedade de um certo dr. Adams. O mdico j no exercia clnica, aposentarase,
no entender do estalajadeiro, mas tratava de alguns doentes particulares neste ponto o bom do
homem bateu na testa como conhecedorGente com macaquinhos no sto... Compreende, no? O
mdico era uma figura popular no povoado, contribuindo com liberalidade para os desportos e
divertimentos locaisum cavalheiro muito simptico e afvel. Morava ali h tempo? Oh, coisa de
uns dez anos talvez mais. Era um cientista. Professores e outras pessoas distintas s vezes chegavam
da cidade para o ver. De qualquer modo, era uma casa alegre, tinha sempre visitas.
Diante de toda esta volubilidade, Tommy teve as suas dvidas. Seria possvel que essa figura
amvel, to conhecida, fosse na realidade um criminoso dos mais perigosos? A sua vida parecia
aberta e sem segredos. Nem sombra de aces sinistras. E se tudo no passasse de um formidvel
engano? Este pensamento gelou nas veias o sangue de Tommy.
Depois, lembrou-se dos doentes particulares, gente com macaquinhos no sto. Indagou, com
cuidado, se entre eles no figurava uma jovem, descrevendo Tuppence. Mas sobre os enfermos
quase nada se sabia: raramente transpunham os limites da propriedade. Uma reservada descrio de
Annette deu o mesmo resultado.
Astley Priors era um edifcio de tijolos vermelhos, de bela aparncia, circundado de um terreno bem
arborizado que vedava inteiramente a casa  observao de quem transitasse na estrada.
Na primeira noite Tommy, acompanhado de Albert, explorou o terreno. Devido  insistncia de
Albert, rastejaram de barriga no cho, produzindo rudo muito maior do que se caminhassem de p.
Em todo o caso, quaisquer precaues
427
tornavam-se desnecessrias. A propriedade, como as demais casas particulares, aps o cair da noite,
parecia desabitada. Tommy imaginara o possvel encontro com um co de guarda feroz. A fantasia
de Albert sugeriu a existncia de um puma ou de uma serpente domesticada. Mas chegaram a uns
densos arbustos perto da casa sem serem molestados.
A janela da sala de jantar tinha as cortinas abertas. Numeroso grupo se reunia ao redor da mesa. O
vinho do Porto passava de mo em mo. Parecia uma reunio normal, agradvel. Pela janela aberta
passavam retalhos desconexos de conversa, perdendo-se no ar nocturno. Travava-se acalorada
discusso sobre o campeonato de cricket do condado...
Mais uma vez Tommy sentiu o gelo da incerteza. Afigurava-se-lhe impossvel crer que aquelas
pessoas no eram,o que pareciam. Estaria a fazer papel de tolo mais uma vez? O cavalheiro de
barba loura e de culos, sentado  cabeceira da mesa, tinha um aspecto singularmente honesto e
normal.
Tommy dormiu mal nessa noite. Na manh seguinte o infatigvel Albert, tendo cimentado uma
aliana com o garoto da estalagem, substituiu este no servio e captou as boas graas da cozinheira
da casa. Voltou com a informao de que a mulher sem dvida pertencia ao grupo dos bandidos,
mas Tommy no confiou na vivacidade da imaginao do rapaz. Interrogado, no pde aduzir nada
em apoio da sua afirmativa, a no ser a opinio pessoal de que ela era bastante esquisita. Isto
percebia-se ao primeiro olhar.
Repetindo-se a substituio (com grandes vantagens pecunirias para o verdadeiro garoto da
estalagem) na manh seguinte, Albert ao regressar trouxe a primeira notcia animadora. Havia uma
jovem francesa no sanatrio. Tommy ps as dvidas de lado. Ali estava a confirmao da sua
teoria. Mas o tempo urgia. Estava-se a 27 do ms. O dia 29 era o comentadssimo dia dos
trabalhistas, sobre o qual corria toda a espcie de boatos. Os jornais tornavam-se agitados. Davam
sensacionais indicaes de um coup detat trabalhista. O governo nada dizia. De tudo sabia e
achava-se preparado. Circulavam boatos de dissenes entre chefes trabalhistas.
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No havia entre eles unidade de pontos de vista. Os mais previdentes compreendiam que o que se
propunha poderia redundar num golpe de morte para a Inglaterra, que eles amavam do corao.
Temiam a fome e a misria que uma greve geral acarretaria e desejavam um acordo com o governo,
na base de concesses recprocas. Mas, por trs deles, actuavam foras subtis, insistentes, incitando
com a lembrana de erros passados, amaldioando a fraqueza e as meias medidas, fomentando
desentendimentos.
Tommy compreendia tudo isso; graas a Mr. Carter, via claramente a situao. com o documento
fatal em poder de Mr. Brown, a opinio pblica penderia para o lado do Trabalhismo extremista e
dos revolucionrios. Mesmo em caso de fracasso, a batalha para eles ofereceria ptimas
oportunidades. Contando com um leal exrcito e com a fora policial, o governo poderia vencer 
custa, porm, de grandes sofrimentos. Mas o sonho que Tommy nutria era outro, e absurdo. Certa
ou erradamente, acreditava que, desmascarado e capturado Mr. Brown, toda a organizao se
esfacelaria, instantnea e vilmente. A estranha e penetrante influncia do chefe invisvel  que os
mantinha unidos. Sem ele, Tommy acreditava que se estabeleceria o pnico instantaneamente; e,
uma vez restitudos a si mesmos, os homens honestos tornariam possvel uma reconciliao na
undcima hora.
 tudo obra de um homemdizia Tommy de si para consigo. O que se impe  a captura do homem.
Fora em parte para favorecer to ambicioso desgnio que solicitara a Mr. Carter que no abrisse o
envelope fechado. O projecto do tratado era a isca de Tommy. De quando em quando, assombravase
da prpria presuno. Como se atrevia a pensar que descobrira o que tantos homens mais sbios e
inteligentes no haviam conseguido? Sem embargo, aferrava-se tenazmente  sua ideia.
Nessa noite, ele e Albert fizeram outra incurso no terreno de Astley Priors. A ambio de Tommy
era conseguir, de um modo ou de outro, ingresso na prpria casa. Quando se aproximavam com
cautela, arquejou de repente.
420
Numa janela do segundo andar uma pessoa parada entre
a janela e a luz da sala projectava uma silhueta na cortina. Tratava-se de algum que Tommy
reconheceria em qualquer parte! Tuppence encontrava-se naquela casa!
Apertou o ombro de Albert.
Fique aqui! Quando eu comear a cantar, olhe para a janela.
Recuou com precipitao para um ponto da lea principal, e comeou, num rugido profundo,
enquanto dava uns passos instveis, a seguinte cano:
Sou um soldado,
Um alegre soldado ingls;
Que sou soldado podes ver pelos meus ps...
Era uma das msicas preferidas, tocada ao gramofone, no tempo em que Tuppence trabalhava no
hospital. No tinha dvidas de que ela a reconheceria e tiraria as suas concluses. Tommy no
possua harmonia alguma na voz, mas os seus pulmes eram excelentes. Produziu uma barulheira
aterradora.
No mesmo instante um impecvel mordomo, acompanhado de um criado tambm impecvel, surgiu
 porta da frente. O mordomo queixou-se. Tommy continuou a cantar, dirigindo-se ao mordomo,
afectuosamente, como os bons velhos bebedores de whisky. O criado segurou o rapaz por um
brao, o mordomo por outro. Empurraram-no ao longo da lea e da para fora do porto. O
mordomo ameaou-o com a polcia se ele tornasse a entrar. Foi um belo trabalho: feito com
sobriedade e perfeito decoro. Qualquer pessoa teria jurado que o mordomo era um verdadeiro
mordomo e o criado um criado de verdade acontecia, apenas, que o mordomo era Whittington!
Tommy recolheu-se  hospedaria e aguardou o regresso de Albert. Afinal, o precioso garoto
apareceu.
E ento? bradou Tommy, ansioso.
Tudo bem. Enquanto eles punham o senhor na rua, abriu-se a janela e caiu uma certa coisa.
Entregou um
430
pedao de papel a Tommy. Vinha enrolado num pisa-papis.
No papel estavam rabiscadas as palavras: Amanh  mesma hora.
Viva! exclamou Tommy. Progredimos.
Escrevi um bilhete num pedao de papel, enrolei-o numa pedra redonda e atirei-o pela janela -
continuou Albert quase sem flego.
Tommy resmungou.
O seu zelo talvez nos prejudique, Albert. Que escreveu voc ?
Disse que estvamos na hospedaria. Se ela pudesse sair, era s vir at c e coaxar como uma r.
Ela compreender que era voc -disse Tommy com um suspiro de alvio. A sua imaginao corre
tanto como as suas pernas, Albert. Ora, voc no reconheceria o coaxar de uma r, se o ouvisse.
Albert ficou um pouco abatido.
Reanime-sedisse Tommy. Isso no trar prejuzos. O mordomo  um velho amigo meu; aposto que
ele ficou sabendo quem eu era, embora no o demonstrasse. Para eles no convm dar mostras de
desconfiana. Foi por isso que encontrmos tanta facilidade. No querem desencorajar-me, de
nenhum modo. Por outro lado, tambm no querem que as coisas se tornem fceis demais. Sou uma
pea do jogo deles, Albert. Voc compreende, se a aranha deixa a mosca escapar com demasiada
facilidade, a mosca fica desconfiada. Da a utilidade desse esperanoso jovem, Mr. T. Beresford,
fazer disparates no momento mais oportuno para eles. Mas depois Mr. T. Beresford ser mais
precavido!
Tommy adormeceu nessa noite num estado de grande vibrao. Elaborou cuidadoso plano para a
noite seguinte. Tinha a certeza de que os habitantes de Astley Priors no lhe causariam embarao
at um certo ponto. Baseado nisso, Tommy propunha-se fazer-lhes uma surpresa.
Mais ou menos ao meio-dia, entretanto, a calma de Tommy foi rudemente abalada. Vieram dizerlhe
que algum o pro-
431
curava no bar. Tratava-se de um carroceiro de aspecto rude,
coberto de barro.
Ento, meu velho, que h? perguntou Tommy.
Isto  para o senhor? O carroceiro entregou-lhe um bilhete dobrado, bastante sujo, em cuja parte externa
estava escrito o seguinte: Leve isto ao cavalheiro da hospedaria perto de Astley Priors. Ele lhe dar dez
xelins.
A letra era de Tuppence. Tommy apreciou a inteligncia dela ao supor que ele talvez estivesse na 
hospedaria
com nome suposto. Isto arrebatou-o.
Est certo. , O homem no largou o bilhete. > - .
E quanto aos dez xelins? , , , , ,, Tommy, exibiu uma nota de dez xelins e o homem cedeu.
Tommy desdobrou o papel. ,
Meu caro Tommy:
Percebi logo que era voc ontem  noite, No venha esta noite. Eles preparam-se para o receber. Vo 
levarnos
daqui esta manh. Ouvi falar no Pas de Gales Holyhead, creio. Vou atirar este bilhete para a estrada, se
puder. Annette contou-me como voc escapou. Para
a frente! Saudades da
Tuppence
Tommy deu um grito por Albert antes mesmo de findar a leitura da original epstola.
Arranje a minha mala! Vamo-nos embora! ,
Sim, senhor.
Holyhead? Queria dizer que, apesar de tudo... Tommy ficou intrigado. Tornou a. ler, mais devagar
Albert continuava em actividade no andar de cima. De sbito Tommy soltou um grito:
Albert! Sou um idiota! Tire as coisas da mala! |
, Sim, senhor.
Tommy alisou o papel, pensativo.
Sim, um idiota completo disse calmamente. Mas h outro que tambm ! E, por fim, sei quem ... , ,
452
XXIV - JULIUS TOMA UMA INICIATIVA
No seu apartamento no Claridges, Kramenin reclinava-se num canap e ditava ao seu secretrio
em russo sibilante.
De sbito, a campainha do telefone retiniu, prximo do secretrio: este falou por instantes e depois
voltou-se para o patro.
H algum l em baixo perguntando por si.
Quem ?
Deu o nome de Julius P. Hersheimmer.
Hersheimmer repetiu Kramenin, pensativo. J ouvi
esse nome.
O pai dele foi um dos reis do ao, na Amrica explicou o secretrio, ruja misso era saber tudo.
Esse rapaz deve ser multimilionrio.
Kramenin pensou um pouco:
 melhor descer e falar com ele, Ivan. Descubra o que  que ele deseja.
O secretrio obedeceu, fechando a porta sem rudo atrs de si. Voltou dentro de minutos.
Recusa-se a declarar o assunto que o traz por c. Diz que  inteiramente pessoal e que precisa falar
consigo.
Multimilionrio murmurou Kramenin. Mande-o entrar, meu caro Ivan.
O secretrio saiu mais uma vez e voltou acompanhado por Julius.
Monsieur Kramenin ? disse o americano, abruptamente. O russo inclinou-se.
Muito prazer em conhec-lodisse o americano. Tenho um assunto muito importante que
gostaria de dis-
28 VAMP. G. 1
453
cutir a ss com o senhor. Olhou significativamente para o secretrio.
 o meu secretrio, Monsieur Grieber, e no tenho segredos para ele.
Pode ser... mas eu tenho disse Julius secamente.
Ficaria agradecido se o mandasse sair.
Ivandisse o russo com calmatalvez voc no se importasse de ir para o quarto contguo...
Para o quarto contguo no me serve interrompeu Julius. Mande-o comprar um ou dois pacotes
de amendoim.
Kramenin ardia de curiosidade. ,,. O assunto requer tempo?inquiriu. ,.  assunto para toda a
noite.
Muito bem, Ivan. No precisarei de si esta noite. V ao teatro... - ,
Obrigado, Excelncia.
O secretrio inclinou-se e partiu.
Julius parou junto  porta, fiscalizando a sada do rapaz. Por fim, com um suspiro de satisfao,
fechou a porta e voltou para o centro da sala.
Agora, Mr. Hersheimmer, talvez o senhor queira ter a bondade de entrar no assunto?
No demorar um minuto disse Julius devagar.
Depois, com uma sbita mudana de atitude
Mos ao alto... ou atiro!
Por momentos Kramenin contemplou, ofuscado, o revlver: em seguida, com uma precipitao
cmica, ergueu os braos acima da cabea. Nesse momento, Julius mediu o valor do homem.
Lidava com um ser de abjecta covardia fsica assim. o resto seria fcil.
Isto  um ultraje! berrou o russo, em voz histrica.
Um ultraje! Quer matar-me?
No, se falar em voz baixa. No se aproxime daquela campainha.  melhor.
Que quer? No cometa uma temeridade. Lembre-se que a minha vida  do mais alto valor para o
meu pas. Talvez me hajam caluniado...
434
O homem que desse cabo de voc prestaria  Humanidade grande servio. Mas no
h razo para se preocupar. No pretendo mat-lo desta vez isto , se voc for razovel...
O russo passou a lngua pelos lbios secos.
Que quer? Dinheiro? No. Quero Jane Finn.
Jane Finn? Eu... nunca ouvi falar nesse nome!
 um mentiroso descarado! Sabe perfeitamente a quem me refiro.
Repito que nunca ouvi falar nesse nome.
E eu afirmo replicou Julius que este meu canho de bolso est louco por entrar em aco!
O russo empalideceu. 
No teria coragem... :
Teria, sim, filho!
Kramenin reconheceu que havia deciso na voz, do americano e disse tristemente:
Pois bem. Digamos que sei a que se refere... que mais quer?
Onde est ela? Kramenin abanou a cabea.
.> No me atrevo.
Porqu ?
: No me atrevo. Pede o impossvel.
Tem medo, hein? De quem? De Mr. Brown? Ah,  o que o perturba! Ento existe mesmo essa
Personagem ? Eu duvidava. E a simples meno do seu nome deixa-o transido de pavor!
Eu vi o homem disse o russo lentamente. Falei com ele cara a cara. S o soube depois. No poderia
reconhec-lo noutra ocasio. Quem  ele na realidade? No sei. Mas sei isto:  um homem que mete
medo.
Ele nunca vir a saber disse Julius.
Ele sabe tudo... e a sua vingana  cruel. Mesmo eu Kramenin! no escaparia!
Ento, no quer fazer o que lhe peo?
453
Pede o impossvel!
Sem dvida para voc ser uma desgraa disse Julius alegremente. Mas para o Mundo em geral, um
benefcio. Ergueu o revlver.
-Pare!-gritou o russo em voz aguda.- Pretende matar-me ?
Claro! Sempre ouvi dizer que os revolucionrios pouco apreo do  vida, mas parece que h uma
diferena quando  a vida deles que corre perigo. Dei-lhe uma nica oportunidade de salvar a sua
pele imunda, e voc recusou!
Mas eles matavam-me.
bom disse Julius com satisfao isso  l consigo. Apenas lhe digo uma coisa. O meu canho de
bolso no erra nunca e no seu lugar tentaria burlar a vigilncia de Mr. Brown!
Voc ser enforcado se me matarmurmurou o russo, irresoluto.
A  que voc se engana. Esquece o poder dos dlares. Uma multido de advogados arrastar para o
caso mdicos de renome que atestaro perturbaes mentais. Passarei alguns meses num
sanatrio, melhorar a minha sanidade mental, e tudo chegar a um final feliz para o bom do Julius.
Posso suportar um recolhimento de alguns meses para livrar o Mundo de voc, mas voc mesmo
no acredita que eu possa ser enforcado por isso!
O russo acreditou no que o americano disse. Aquele viril americano, com a sua voz de uma lentido
significativa, subjugara-o.
Vou contar at cinco continuou Julius e se me deixar passar de quatro no precisar de se
preocupar com Mr. Brown. Est pronto? Vou comear. Um., dois .. trs... quatro...
O russo interrompeu-o com um grito:
No atire. Farei o que deseja. Julius baixou o revlver.
Logo vi que voc teria senso. Onde est a pequena?
Em Gatehouse, no Kent. Astley Priors, < como chamam  casa.
 prisioneira l?
No lhe permitem sair fora da casa embora se encontre em perfeita segurana. A pobre perdeu a
memria!
Isso causou aborrecimentos aos seus amigos, presumo. E a outra jovem, a que eles arrastaram para
uma armadilha h uma semana?
Tambm l estdisse o russo, melancolicamente.
bom disse Julius. Que bela noite para um passeio!
Que passeio?perguntou o russo, com espanto.
At Gatehouse, est visto. No gosta de andar de aottomvel ?
Que quer dizer? Recuso-me a ir.
No cometa loucuras, agora. Bem v que no sou homem capaz de o deixar aqui. Mal eu voltasse as
costas o seu primeiro cuidado seria telefonar aos seus amigos! Percebeu o abatimento na fisionomia
do russo.Ah! Vejo que no me enganava. No, meu caro, voc vir comigo. E no esquea que no
dar um passo fora do alcance da minha pontaria. Atiro muito bem com o revlver no bolso. Uma
palavra, at mesmo um olhar que dirija a um desses criados de libr ser o bastante para que voc
deixe de figurar no rol dos vivos!
Desceram as escadas e dirigiram-se para o automvel que os aguardava. Os criados do hotel
rodearam-nos. O russo fremia de clera. Entreabriram-se-lhe os lbios para um grito iminente, mas
no derradeiro instante faltou-lhe a coragem. O americano era mais do que capaz de cumprir a
palavra.
Chegados junto ao carro, Julius soltou um suspiro de alvio. Estava transposta a zona de perigo. O
medo lograra hipnotizar o russo.
Entre! ordenou. Depois, ao perceber que o homem dava uma olhadela de soslaio: No, o
motorista no lhe dar nenhuma ajuda. Um irmo dele foi assassinado pela sua gente. George!
Senhor! O motorista voltou a cabea.
Este cavalheiro  um bolchevista russo. No quero dar-lhe um tiro, mas talvez seja necessrio.
Compreende?
437
Perfeitamente!
Quero ir a Gatehouse, no Kent. Conhece a estrada?
Sim, senhor. Vamos. Tenho pressa.
O carro ps-se em marcha.
Julius instalou-se confortvelmente ao lado da vtima. Conservava a mo no bolso do casaco, mas
as suas maneiras eram polidas em extremo.
Uma ocasio, matei um homem no Arizona... comeou a contar alegremente.
Ao cabo de meia hora de viagem, o desventurado Kramenin seiitia-se mais morto do que vivo. 
histria do homem do Arizona, seguiram-se um conflito de Frisco e um episdio nas Rochosas. O
estilo narrativo de Julius, se no possua muita preciso, era bastante pitoresco...
Moderando a marcha, o motorista avisou que estavam a entrar em Gatehouse. Julius ordenou ao
russo que indicasse o caminho. Kramenin convertera-se num joguete nas mos do americano.
O automvel penetrou na alameda fronteira  casa e parou junto ao prtico. O motorista olhou em
torno, aguardando ordens.
Vire o carro primeiro, George. Depois, toque a campainha e volte para o seu lugar. No desligue o
motor e fique preparado para arrancar como um foguete quando eu mandar.
Muito bem, senhor.
O mordomo veio abrir a porta da frente. Kramenin sentia o revlver a fazer-lhe presso nas costelas.
 agora ciciou Julius. E tenha cuidado.
O russo fez que sim, com um aceno. Tinha os lbios brancos e voz pouco firme:
Sou eu... Kramenin! Mande a rapariga descer imediatamente! No h tempo a perder!
Whittington desceu at aos degraus. Soltou uma exclamao de espanto ao ver o russo.
Voc! Que houve? No sabe que o plano...
438
\ Kramenin interrompeu-o:
Fomos trados!  preciso abandonar os planos. Devemos salvar a pele. Traga a pequena
imediatamente!  a nossa derradeira esperana! , Whittington hesitou mas apenas por um
momento.
Voc recebeu ordens... dele?
Claro! Depressa! No h tempo a perder.  melhor que a outra venha tambm.
Whittington voltou-se e entrou na casa a correr. Escoaram-se minutos angustiosos. Depois, dois
vultos femininos, desajeitadamente envoltos em mantos, surgiram nos degraus da porta, e foram
conduzidos com precipitao para o automvel. Julius inclinou-se para a frente e a luz da porta
banhou-lhe o rosto. Outro homem, que se encontrava no portal por trs de Whittington, soltou uma
exclamao inesperada. Estava descoberto o segredo.
Avante, George! gritou Julius. O carro arrancou suavemente.
O homem que ficara  porta soltou uma blasfmia. Meteu a mo no bolso. A um rpido claro
seguiu-se um estampido.
Abaixe-se, Jane gritou Julius. O rapaz impeliu-a vivamente para diante; depois, erguendo-se,-
atirou.
Acertou? indagou Tuppence com ardor.
Sem dvida respondeu Julius. Mas o patife no morreu. Voc est bem, Tuppence?
Claro que estou! E Tommy? E quem  este?Indicou o trmulo Kramenin.
Tommy parece que foi para a Argentina. Ele pensou que voc tinha ido desta para melhor. Voc
perguntou quem  este, Tuppence? Apresento-lhe Monsieur Kramenin. Convenci-o a fazer
esta viagem a bem da sua pele.
O russo guardou silncio, ainda lvido de terror.
Mas porque  que eles nos deixaram sair?--indagou Tuppence, desconfiada.
Creio que Monsieur Kramenin lhes pediu com tanta delicadeza que no puderam recusar...
Era demais para o russo. Explodiu com violncia:
459
Maldito! Maldito! Agora cim sabem que os atraioei. No terei mais uma hora de vida neste pas.
Tem razo concordou Julius,Aconselho-o a seguir sem demora para a Rssia.
Deixe-me ir, entoexclamou o outro. Fiz o que me pediu. Por que me retm ainda ?
No  pelo prazer da sua companhia. Mas voc no pode partir j.  melhor que o leve para
Londres.
No conseguir chegar a Londres resmungou o russo. Deixe-me aqui.
Est bem. Pare, George. O cavalheiro no deseja fazer a viagem de regresso. Se algum dia
eu for  Rssia, Monsieur Kramenin, espero uma recepo calorosa e ..
Mas antes que Julius conclusse a frase e antes que o automvel parasse, o russo atirou-se para a
estrada e desapareceu nas sombras da noite.
Estava um pouco impaciente por nos deixarcomentou Julius. Nem se lembrou de dizer adeus s
damas. Olhe, Jane, pode sentar-se no banco outra vez.
Como conseguiu convenc-lo ?perguntou a jovem, Julius bateu no revlver.
Aqui o canho de bolso encarregou-se do servio...
Esplndido! exclamou a jovem. Enrubesceu ao contemplar Julius com admirao.
Annette e eu no sabamos o que ia acontecer-nos disse Tuppence. Whittington obrigou-nos a sair a
toda a pressa. Pensmos que amos para o matadouro.
Annette disse Julius. Porque lhe d esse nome? Parecia fazer esforos para ajustar o seu crebro a
uma nova ideia.
 o nome dela disse Tuppence, abrindo desmesuradamente os olhos.
Cus! exclamou Julius, Ela talvez creia que tem esse nome porque perdeu a memria, mas 
Jane Finn verdadeira e original que aqui temos connosco.
Qu... ? exclamou Tuppence.
Foi interrompida, porm. com mpeto furioso, uma bala
440
cravou-se na almofada do carro, atrs da cabea de Tuppence.
Abaixe-se! gritou Julius.  uma emboscada. Aqueles tratantes no perderam tempo. Acelere um
pouco, George.
Soaram mais trs tiros, mas por sorte as balas passaram ao largo. Julius, de p, inclinou-se para a
traseira do auto.
No h em quem atiraranunciou com tristeza. Mas acho que isto no ficou por aqui.
Levou a mo ao rosto.
Est ferido ? apressou-se a perguntar Annette.
Apenas um arranho.
De um salto, a jovem ps-se de p.
Deixe-me sair! Deixe-me sair! Pare o carro!  a mim que eles perseguem. S a mim. No devem
perder a vida por minha causa. Eu vou. Apalpava o trinco da portinhola.
Julius agarrou-a pelos dois braos e contemplou-a. Ela falara sem quaisquer vestgios de sotaque
estrangeiro.
Sente-se, menina disse gentilmente. Creio que a sua memria est perfeitamente boa. Conseguiu
logr-los, hein?
Fitando-o, a jovem fez com a cabea um sinal afirmativo e, de sbito, prorrompeu em lgrimas.
Julius afagou-lhe o ombro.
Ora, ora... fique a sentadinha. No a deixaremos sair. Por entre os soluos, a jovem disse
distintamente:
O senhor  meu compatriota. Percebo pela voz. Fico com saudades.
 claro que sou seu compatriota. Sou seu primo: Julius Hersheimmer. Vim  Europa apenas para a
encontrar. Voc meteu-me em boas complicaes.
Diminua a velocidade do carro George advertiu:
Aqui h uma encruzilhada, senhor. No sei muito bem o caminho.
A marcha foi-se tornando vagarosa at que por fim o carro mal se movia. Um vulto postou-se no
estribo e meteu a cabea no meio deles.
Desculpem disse Tommy, revelando-se.
Saudou-o um coro de exclamaes confusas. Respondeu a cada um separadamente:
441
Eu estava escondido nas moitas  margem da alameda, l em Astley Priors. Pendurei-me a atrs,
quando vocs se escaparam. No pude apresentar-me dada a velocidade a que vinham. Tudo o que
pude fazer foi continuar agarrado ao carro. Agora desam, pequenas!
Descer?
Sim. H uma estao ali adiante, nessa estrada. Chega um comboio daqui a trs minutos. Alcanlo-
o se andarem depressa.
Que histria  essa? indagou Julius. Julga que sero to tolas que vo abandonar o carro?
Voc e eu no sairemos do carro. Apenas as pequenas.
Est louco, Beresford. Louco varrido! No pode deix-las ir sozinhas. Seria o cmulo da insensatez.
Tommy voltou-se para Tuppence.
Vamos, Tuppence. Leve-a consigo e faam exactamente o que eu digo. Ningum lhes causar
o menor dano. Esto em segurana. Tomem o comboio para Londres. Encaminhem-se
para casa de Sir James Peel Edgerton. Mr. Carter no reside no centro da cidade, mas
com o advogado estaro salvas.
Diabos o levem! exclamou Julius. Est louco. Jane, fique onde est.
com um movimento inopinado e enrgico, Tommy arrebatou o revlver da mo de Julius e apontoulho.
Acreditar agora que estou falando a srio? Saiam vocs duas e faam o que eu disse seno
atiro!
Tuppence saltou do carro, arrastando a indecisa Jane.
Vamos, tudo correr bem. No percamos o comboio. Comearam ambas a correr.
O furor de Julius explodiu.
com todos os diabos... Tommy interrompeu-o.
Cale-se! Preciso ter uma pequena conversa consigo, Mr. Julius Hersheimmer.
XXV - A HISTRIA DE JANE
Arrastando Jane, Tuppence chegou  estao.
Depressa!exclamou arquejante. Seno perdemos o comboio.
Chegaram  plataforma no momento exacto em que o comboio se detinha. Tuppence abriu a
portinhola de um compartimento vazio de primeira classe e as duas caram sem flego sobre os
bancos acolchoados.
Um homem meteu o nariz no compartimento; depois passou  carruagem seguinte. Jane
sobressaltou-se, nervosamente. Os olhos dilataram-se-lhe de terror. Olhou interrogativamente para
Tuppence.
No ser um deles? ciciou. Tuppence abanou a cabea.
No, no. Vai tudo bem. Tomou entre as suas a mo de Jane. Tommy no nos teria mandado se
houvesse algum perigo.
Mas ele no os conhece como eu! Jane tremia. Voc no pode compreender. Cinco anos! Cinco
longos anos!
No importa. Tudo passou.
Tem a certeza?
O comboio invadia a noite, marchando em velocidade acelerada. De repente, Jane teve um
sobressalto.
Que  isto? Vi um rosto... a espreitar pela janela.-
No, no h nada. Olhe. Tuppence foi at  janela e correu a cortina. , ,, |
Convenceu-se agora ?
Sim. ,.
445
Jane teve uma desculpa:
Devo parecer um coelhinho assustado, mas no o posso evitar. Se eles me apanhassem agora...
Esbugalhou os olhos.
No!implorou Tuppence. Recline-se a e no pense. Pode ter a certeza de que Tommy no diria que
havia segurana se no houvesse.
O meu primo no era da mesma opinio. Ele no queria deixar-nos sair.
No disse Tuppence, um pouco embaraada.
Em que  que est a pensar?perguntou Jane vivamente.
Porqu ?
A sua voz parecia to... esquisita!
Pensei numa coisa confessou Tuppence. Mas no quero dizer-lhe o que era por enquanto.
Posso estar equivocada, embora no o creia.  apenas uma ideia que me ocorreu h tempos.
Tommy tambm pensou nisso tenho quase a certeza. Mas no se preocupe. Talvez no seja! Faa
o que lhe disse: encoste-se e no pense em nada.
Vou tentar. Os longos clios baixaram sobre os olhos castanhos.
Tuppence sentou-se de busto erecto. No obstante, sentia-se nervosa. Acreditava em Tommy, mas
de quando em quando inquietavam-na dvidas de que uma pessoa to simples e honesta como ele se
pudesse contrapor  subtileza diablica do arquicriminoso.
Se conseguissem chegar em segurana a casa de Sir James Peel Edgerton, tudo estaria bem. Mas
consegui-lo-iam ? No estariam j as silenciosas foras de Mr. Brown reunidas contra elas? Mesmo
aquela ltima imagem de Tommy, revlver em punho, no conseguia confort-la. Poderiam venclo
com a simples superioridade numrica... Tuppence delineou o seu plano de aco.
Quando, por fim, o comboio chegou a Charing Cross, Jane levantou-se num sobressalto.
Chegmos? Pensei que no chegaramos com vida!
Ora, estamos em Londres sem novidade. Se algum
444
contratempo tem de acontecer, ser agora. Depressa, desembarquemos. Vamos tomar um taxi.
Poucos minutos depois transpunham a barreira, pagavam as respectivas passagens e tomavam um
taxi.
Kings Cross foi a direco que Tuppence deu ao motorista. Nesse instante deu um pulo no
banco. Um homem meteu a cabea pela janela do carro, no momento em que o veculo arrancou.
Tuppence estava quase certa de que se tratava do mesmo homem que vira no comboio.
Experimentou a horrvel sensao de estar cercada por todos os lados.
--Se eles agora explicou a Janeesto convencidos de que vamos a casa de Sir James, faremos com
que percam a pista.
No cruzamento de Holborn surgiu um obstculo e o taxi teve de parar. Era o que Tuppence
esperava.
Depressa sussurrou. Abra a portinhola da direita! Saram as duas e dois minutos depois
achavam-se sentadas
noutro taxi e a caminho de Carlton House Terrace,
Istodisse Tuppence com satisfao -deve desnorte-los. No posso evitar de pensar que sou mesmo
um pouco inteligente! Como no vai praguejar o motorista do outro taxi! Mas eu tirei o nmero do
carro e amanh mandar-lhe-ei um vale postal, para que no fique prejudicado. Mas que
desvio brusco  este... Oh! 
Ouviu-se um rangido e um baque. Outro taxi colidira com o delas.
Num pice, Tuppence saltou para o passeio. Aproximava-se um polcia. Antes que este chegasse,
Tuppence entregou cinco xelins ao motorista e, junta com Jane, perdeu-se na multido.
-- a dois passos daqui- disse Tuppence sem flego. O acidente ocorrera em Trafalgar Square.
--Acha que a coliso foi acidental ou propositada?
No sei.
De mos dadas, as duas jovens caminhavam a toda a pressa.
Talvez seja imaginao minha disse Tuppence de
445
repente mas tenho a impresso de que vem algum a atrs de ns.
Depressa! murmurou Jane. Oh, mais depressa! Estavam agora na esquina de Carlton House
Terrace
e ficaram mais tranquilas. De sbito, esbarrou nelas um homenzarro que, pelos modos, se
achava embriagado.
Boa noite, senhora ssoluou ele. Aonde vo com tanta pressa?
Deixe-nos passar, por favordisse Tuppence imperiosamente.
Quero apenas dizer duas palavras  sua linda companheirinha. Estendeu um brao e segurou o
ombro de Jane. Tuppence ouviu passos atrs de si. Nem quis averiguar se os dois homens eram
amigos ou inimigos. Baixando a cabea, repetiu uma manobra dos tempos da infncia e desferiu
uma cabeada no volumoso ventre do brio. O xito dessa tctica foi imediato. O homem caiu na
calada. Tuppence e Jane rasparam-se. A casa que procuravam ficava a pouca distncia. Outras
passadas ecoaram por trs delas. Ambas ofegavam penosamente ao chegarem  porta da residncia
de Sir James. Tuppence agarrou-se  campainha e Jane  aldraba.
O homem que as abordara chegou ao p da escada. Por momentos hesitou; nesse meio tempo, abriuse
a porta. As raparigas refugiaram-se no vestbulo. Sir James avanou, vindo da biblioteca.
-Ol! Que  isto?
Aproximou-se e amparou Jane, ao v-la cambalear. Levou-a quase ao colo para a biblioteca e
acomodou-a no canap de couro. De um licoreiro tirou umas gotas de aguardente e obrigou-a a
beber. com um suspiro, ela endireitou o busto, ainda de olhos amedrontados.
Muito bem. No tenha medo, minha filha. Aqui est em segurana.
A respirao da rapariga tornou-se mais normal e voltou-lhe a cor s faces. Sir James contemplava
Tuppence com ar zombeteiro.
446
Ento, Miss Tuppence, a senhora est to morta como esse tal rapaz Tommy!
Os Jovens Aventureiros viram a morte de perto vangloriou-se Tuppence.
Assim parece disse Sir James secamente. Quero crer que os companheiros de faanhas chegaram
a um final feliz e que estavoltou-se para a jovem prostrada no canap Miss Jane Finn?
Jane empertigou-se
Sim disse com calma. Sou Jane Finn. Tenho muito para lhe contar.
Depois, quando se sentir mais forte...
No. Agora! Ergueu um pouco a voz. Sentir-me-ei em maior segurana depois de lhe contar tudo.
Como quiser disse o advogado.
Sentou-se numa das grandes poltronas, diante do canap. Em voz baixa, Jane comeou a histria.
Vim no Lusitnia para tomar posse de um emprego em Paris. A guerra impressionava-me e eu
ansiava por dar a minha contribuio. Estudei o francs e o meu professor disse-me que
precisavam de auxiliares num hospital de Paris; assim, escrevi oferecendo os meus servios e fui
aceite. No tinha parente nenhum, de sorte que tudo se arranjou com facilidade.
Quando o Lusitnia foi torpedeado, um homem abordou-me. Eu vira-o mais de uma vez e
parecera-me que ele tinha medo de algum ou de alguma coisa. Perguntou-me se eu era uma
americana patriota e disse-me que tinha uns papis que representavam a vida ou a morte para os
aliados. Pediu-me para tomar conta dos documentos. Eu devia aguardar com ateno um anncio
que apareceria no Times. Se no sasse o anncio, deveria levar os papis ao embaixador americano.
O que depois se seguiu, parece-me ainda um pesadelo. Mr. Danvers recomendara-me vigilncia.
No podia garantir que no o houvessem seguido desde Nova York, mas supunha que no. A
princpio, de nada desconfiei, mas quando me
447
encontrava no barco para Holyhead comecei a ficar inquieta. Havia uma mulher que sempre me
procurara muito a bordo, esforando-se por entabular camaradagem comigo uma certa Mrs.
Vandemeyer. A princpio, sentia-me reconhecida mas sempre pensei que havia nela qualquer coisa
que no me agradava. E no barco vi-a conversar com homens de aspecto estranho e, pelos modos,
compreendi que falavam a meu respeito. Lembrei-me de que ela se achava perto de mim no
Lusitnia quando Mr. Danvers me entregara o pacote e, pouco antes, tentara conversar com ele por
uma ou duas vezes. Comecei a ficar com medo, mas no atinava com o que devia fazer.
Veio-me a resoluta ideia de ficar em Holyhead e no seguir para Londres naquele dia, mas logo
verifiquei que seria rematada tolice. Restava-me agir como se nada houvesse notado e fazer votos
para que tudo sasse pelo melhor. No acreditava que me agarrassem, se me conservasse vigilante.
Uma precauo j tomara: rasgara o pacote de oleado substituindo o documento por papis em
branco. De sorte que mesmo que mo roubassem no teria importncia.
Qual o destino a dar ao documento verdadeiro foi o que me fez pensar um pouco. Por fim,
desdobrei-oeram apenas duas folhas, e coloquei-o entre duas pginas de anncios de uma revista.
Uni as extremidades das duas pginas, colando-as uma  outra, e meti a revista negligentemente no
bolso do casaco.
Em Holyhead, tentei embarcar numa carruagem ocupada por pessoas que inspirassem confiana,
mas por fim, achei-me no mesmo compartimento em que se encontrava Mrs. Vandemeyer. Sa para
o corredor, mas tudo estava apinhado e por isso voltei e sentei-me. Consolava-me com a ideia de
que havia outras pessoas no compartimento, inclusive um cavalheiro bastante simptico e sua
esposa,  minha frente. Senti-me quase feliz, at chegarmos aos arredores de Londres. Em minha
opinio, eles julgaram que eu dormia, porm os meus olhos no estavam bem fechados e, de sbito,
vi o cavalheiro simptico retirar qualquer coisa da maleta, entreg-la a Mrs. Vandemeyer e piscar
um olho...
448
No posso descrever como esse gesto me deixou gelada. O meu nico pensamento foi sair para o
corredor o mais rapidamente possvel. Levantei-me, esforando-me por aparentar naturalidade e
calma. Talvez eles tenham percebido alguma coisa no sei, mas de sbito Mrs. Vandemeyer
exclamou Agora! e derramou-me algo sobre o nariz e a boca quando eu tentava gritar. No mesmo
instante, senti uma terrvel pancada na parte posterior da cabea...
Jane estremeceu. Sir James murmurou palavras de simpatia.
No sei quanto tempo levei a recuperar os sentidos. Senti-me muito doente. Achava-me deitada
numa cama imunda. Rodeava-a um biombo, mas ouvia duas pessoas a falarem no quarto. Esforceime
por escutar, mas a princpio no o consegui muito bem. Quando, por fim, comecei a perceber o
que ocorria, fiquei aterrada!
No tinham descoberto os papis. Acharam o pacote de oleado com as folhas em branco e ficaram
loucos! No sabiam se eu substitura os papis ou se Danvers trouxera uma mensagem falsa, enquanto a
verdadeira era remetida por outra via. Falavam em me torturar para descobrir o que desejavam!
Eu nunca soubera antes o que era o terror o verdadeiro terror pnico! Em dado momento, vieram ver-me.
Fechei os olhos e fingi estar ainda inconsciente, mas receava que ouvissem as pancadas do meu corao.
Todavia, tornaram a retirar-se. Comecei a pensar ansiosamente. Que poderia fazer ? Sabia que no poderia
resistir por muito tempo s torturas.
De sbito ,ocorreu-me a ideia da perda da memria. O assunto sempre me interessara e eu lera muito a 
tal
respeito. Se conseguisse levar a cabo o embuste, poderia salvar-me. Fiz uma orao e inspirei 
profundamente.
Depois abri os olhos e comecei a tartamudear em francs!
Mrs. Vandemeyer surgiu prontamente detrs do biombo. Tinha uma fisionomia to perversa que quase
desfaleci; mas dirigi-lhe um sorriso hesitante e perguntei em francs onde me encontrava.
Ela ficou admirada, e chamou o homem com quem
29 - VAMP. G. 1
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estivera a conversar. Ele postou-se ao p do biombo, o rosto oculto na sombra. Falou-me em
francs. A sua voz era vulgar e calma, mas no sei porqu, amedrontou-me mais do que a mulher.
Perguntei de novo ondi me encontrava e acrescentei que precisava lembrar-me de alguma
coisaprecisava lembrar-me, mas no momento no o conseguia. Esforava-me por me mostrar cada
vez mais aflita. Ele perguntou o meu nome. Respondi que no sabia no podia lembrar-me de nada.
De repente ele segurou-me o pulso e comeou a torc-lo. A dor era tremenda. Gritei. Ele
continuou. Tornei a gritar e a soltar exclamaes em francs. No sei por quanto tempo poderia
resistir, mas por sorte desmaiei. A ltima coisa que ouvi foi a voz do homem a dizer: No 
simulao! Uma criatura da idade dela no saberia tanto. Ele esqueceu que as raparigas americanas
so mais experientes para a sua idade do que as inglesas e se interessam mais pelos assuntos
cientficos.
Quando recuperei os sentidos, Mrs. Vandemeyer estava doce como mel. com certeza recebera
ordens nesse sentido. Falou-me em francs disse-me que eu sofrera um choque e estava muito
doente. Mas em breve estaria melhor. Fingi sentir-me um pouco confusa, e falei sobre o mdico
que me ferira o pulso. Ela pareceu aliviada com as minhas palavras.
Saiu do quarto em seguida. Eu ainda desconfiava e fiquei deitada em silncio por algum tempo.
Por fim, levantei-me e caminhei pelo quarto, examinando-o. Julguei que mesmo que algum
estivesse a espiar-me de alguma parte, a minha atitude pareceria bastante natural, naquelas
circunstncias. Achava-me num aposento bastante pobre e imundo. No havia janelas, o que me
pareceu estranho. Desconfiei que a porta estava fechada  chave, mas no quis verificar. Havia nas
paredes alguns quadros bastante estragados, representando cenas do Fausto.
Os dois ouvintes soltaram um simultneo Ah!. A jovem inclinou a cabea afirmativamente.
Sim, era a casa de Soho onde aprisionaram Mr. Beresford. Est visto que, naquele momento, eu no
sabia nem
450
sequer que me encontrava em Londres. Havia uma coisa que me preocupava angustiosamente, mas o meu
corao palpitou com alvio quando vi o meu casaco atirado sobre o espaldar de uma cadeira. E a revista
ainda se encontrava dentro do bolso!
Se eu pudesse ter a certeza de que ningum estava a vigiar-me! Olhei com cuidado ao redor das paredes.
No parecia haver qualquer buraco para espreitar. Mas eu tinha quase a certeza de que me observavam. De
sbito, sentei-me na borda da mesa e, escondendo o rosto nas mos, exclamei entre soluos: Mon Dieu! 
Mon
Dieu! O meu ouvido  muito apurado. Ouvi distintamente o ruge-ruge de um vestido e um estalido leve. 
Para
mim foi o suficiente. Vigiavam-me!
Deitei-me de novo no leito e, em seguida, Mrs. Vandemeyer trouxe-me uma refeio. Continuava bondosa.
Segundo creio, encarregaram-na de me captar a confiana. Na mesma ocasio mostrou-me o pacote de 
oleado
e perguntou se eu o reconhecia, cravando em mim uns olhos de lince.
Peguei no pacote e virei-o do avesso, como que tomada de curiosidade. Depois abanei a cabea. 
Respondi
que tinha a impresso de que devia recordar um facto referente quele pacote: mas que esse facto me 
fugia.
Mrs. Vandemeyer informou-me ento de que era sobrinha dela e deveria chamar-lhe Tia Rita. Obedeci:
aconselhou-me a que no me preocupasse, porque a memria me voltaria em breve.
Aquela noite foi pavorosa. Enquanto esperava por ela, formulei o meu plano. Os papis tinham ficado a
salvo at quele momento, mas no me arriscava a deix-los ali por mais tempo. A qualquer momento
poderiam levar a revista. Permaneci acordada e  espera, at que calculei serem duas horas da madrugada.
Ento levantei-me no maior silncio possvel e apalpei no escuro a parede da esquerda. Muito ao de leve 
tirei
um dos quadros do ganchoMargarida com o cofre de jias. Arrastei-me at ao casaco e peguei na revista e
num ou dois envelopes excedentes que metera por entre as pginas. Depois, encaminhei-me para o 
lavatrio e
umedeci bem o papel pardo das costas do quadro. Pude assim arranc-lo. J havia destacado da revista as 
duas
pginas coladas
451
e coloquei-as, com o seu precioso contedo, entre o quadro e o papel pardo. Um pouco de goma dos
envelopes ajudou-me a colar o papel novamente. Ningum sonharia que no quadro existia agora
semelhante recheio. Tornei a pendur-lo e voltei para a cama. Estava contente com o meu
esconderijo. Esperava que chegassem  concluso de que Danvers representara apenas uma farsa e
acabassem por me libertar.
Na verdade, tenho motivos para crer que no comeo corri perigo. Soube depois que andaram na
iminncia de me eliminarno havia muita esperana de me libertarem, mas o primeiro homem,
que era o chefe, preferiu conservar-me com vida, confiado em que eu houvesse escondido os papis
e pudesse dizer onde, se recuperasse a memria. Mantiveram-me sob vigilncia constante durante
semanas. s vezes faziam perguntas conforme a hora pareciam saber tudo a respeito do terceiro
grau! mas eu resistia  prova. O esforo, contudo, era penoso...
Levaram-me para a Irlanda, percorrendo passo por passo o trajecto anteriormente feito, na hiptese
de que eu houvesse ocultado os documentos en route. Mrs. Vandemeyer e outra mulher no me
deixavam um s momento. Referiam-se a mim como a uma jovem parente de Mrs. Vandemeyer,
cuja mente ficara abalada com o choque sofrido no Lusitnia. No havia ningum a quem pudesse
pedir auxlio sem revelar o meu segredo e se me arriscasse e fracassasse os horrores que me
reservavam seriam por ddmais terrveis logo que descobrissem que eu estivera apenas a simular.
Sir James balouou a cabea, com ar compreensivo.
Mrs. Vandemeyer era uma mulher de forte personalidade. com isto e a posio social que
desfrutava, pouca dificuldade teria em impor os pontos de vista dela em detrimento dos seus, Miss
Jane. No seria fcil acreditar nas suas sensacionais acusaes contra ela.
Foi o que pensei. Acabaram por me mandar para um sanatrio em Bournemouth. Uma enfermeira
tomou conta de mim. Eu era uma doente especial. Parecia to bonita e normal que no fim resolvi
confiar nela. Uma providncia
452
misericordiosa evitou que eu casse na armadilha. Aconteceu ficar entreaberta a porta de meu quarto e ouvi-
a
conversar com algum no corredor. Ela pertencia  quadrilha. Ainda imaginavam que podia ser
embuste da minha parte e ela tomara conta de mim para elucidar esse ponto. Depois disso, esgotouse-
me a coragem. No ousava confiar em ningum,
Creio que quase me hipnotizei. Depois de certo tempo, quase olvidei que era na realidade Jane
Finn. Tanto me compenetrei do papel de Janet Vandemeyer, que os meus nervos socumbiram.
Adoeci realmente. Durante meses, mergulhei numa espcie de estupor. Tinha a certeza de que
morreria breve e realmente nada mais me importava. Dizem que uma pessoa s fechada num
manicmio acaba por ficar louca. Eu estava nesse caso. O papel que eu representava convertia-se
para mim numa segunda natureza. Por fim, j nem mesmo me sentia infelizapenas aptica. No
ligava importncia a nada. E os anos correram.
Em dado momento, entrevi sinais de que as coisas se modificavam de repente. Mrs. Vandemeyer
voltou de Londres. Ela e o mdico interrogaram-me, experimentaram diversos tratamentos. Falaram
em mandar-me a um especialista de Paris, mas no se arriscaram. Escutei conversas que pareciam
indicar que outras pessoas amigos andavam  minha procura. Soube mais tarde que a minha
enfermeira fora a Paris e consultara um especialista, apresentando-se como sendo eu mesma.
Submetida a exame acurado, ouviu do especialista a declarao de que a sua perda de memria era
fraudulenta; mas anotou os mtodos do homem e repetiu-os comigo. Creio que eu no enganaria o
especialista nem por um minuto um homem que consagra a vida ao estudo de um assunto no tem
paralelo, mas consegui iludir os meus captores. Auxiliava-me a circunstncia de que eu mesma j
no me considerava Jane Finn.
Certa noite, um aviso urgente fez com que me levassem a Londres,  pressa. Conduziram-me 
casa de Soho. Fora do sanatrio, senti-me diferente: parecia renascer em mim alguma coisa
sepultada h muito tempo.
453
Precisavam de mim para servir Mr. Beresford. ( claro que no sabia ento o seu nome.)
Desconfiei julguei tratar-se de outra armadilha. Mas ele tinha um ar to honesto que era difcil crer
nas minhas suspeitas. Todavia, guardei reserva pois sabia que eles poderiam estar  escuta. No alto
da parede havia um pequeno orifcio.
Mas numa tarde de domingo, levaram um recado  casa. Todos ficaram agitados. Pude escutar
conversas sem que o percebessem. Chegara ordem para matarem o rapaz. No preciso contar o que
se seguiu, porque j sabem. Acreditei que ainda teria tempo para ir l acima a toda pressa e arrancar
os papis do esconderijo, mas agarraram-me. Gritei a Mr. Beresford que fugisse, e disse-lhes que
queria voltar para junto de Marguerite. Repeti o nome vrias vezes, o mais alto que pude. Sabia que
os outros pensariam que me referia a Mrs, Vandemeyer, mas esperava que Mr. Beresford recordasse
o quadro representando Margarida com o cofre de jias. Ele um dia havia retirado o quadro da
parede, o que me fez hesitar em confiar nele.
Jane finn calou-se.
Ento, os papis disse James lentamenteainda se encontram no quadro, naquele quarto?
Sim.A jovem reclinou-se no sof, exausta com o esforo exigido pela longa narrativa.
Sir James ergueu-se. Consultou o relgio.
Venham disse. Devemos sair imediatamente.
Agora  noite?indagou Tuppence, surpresa.
Amanh pode ser tarde demais disse Sir James com gravidade. Alm disso, indo agora talvez
possamos capturar o grande homem e supercriminoso: Mr. Brown!
Seguiu-se um silncio sepulcral e Sir James continuou:
Foram seguidas at esta casa quanto a isso no h dvida. Ao sarmos seremos seguidos novamente,
mas no molestados, pois o plano de Mr. Brown  que devemos servir-lhe de guia. Acontece,
porm, que a casa de Soho se encontra sob vigilncia policial noite e dia. Quando penetrarmos na
casa, Mr. Brown no recuar: arriscar tudo, na esperana de
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\ \
conseguir o rastilho para fazer explodir a sua mina. E imagina que o perigo no ser dos maiores
uma vez que entrar disfarado de amigo!
Tuppence corou; depois abriu a boca impulsivamente.
Mas h um pormenor que o senhor ignora. Percebeu a perplexidade de Jane.
Que ? perguntou o advogado vivamente. Nada de hesitaes, Miss Tuppence. Precisamos
estar seguros dos nossos passos.
Mas Tuppence, por sua vez, parecia estar de lngua atada.
 difcil... O senhor compreende, se estou enganada... oh, seria horroroso! Relanceou os olhos
para Jane, que adormecera. Ela nunca me perdoar observou, numa auto-censura.
No quer que eu a ajude?
Sim, por favor. O senhor sabe quem  Mr. Brown, no ?
Sim disse Sir James gravemente. Sei, por fim.
Por fim? indagou Tuppence, em dvida. Oh, mas eu pensei que... Calou-se.
Pensou correctamente, Miss Tuppence. A identidade dele constitua para mim virtual certeza desde
h algum tempo... desde a noite da morte misteriosa de Mrs. Vandemeyer.
Ah!fez Tuppence, ofegante.
Porque, daquela feita, no se podia fugir  lgica dos factos. S havia duas solues. Ou ela
ministrara a si mesma a dose de cloral, teoria que rejeitei, ou ento...
Ento?
Ou ento a droga fora ministrada na aguardente que a senhora lhe deu a beber. Apenas trs pessoas
tocaram no copo de aguardente: a senhora, Miss Tuppence: eu, pessoalmente; e a outra: Mr. Julius
Hersheimmer!
Jane Finn despertou, agitada, e contemplou o advogado com olhos esbugalhados de espanto.
A princpio, a hiptese afigurou-se-me impossvel. Mr. Hersheimmer, filho de um milionrio
conspcuo, pessoa das mais conhecidas na Amrica! Parecia de todo impossvel que ele e Mr.
Brown fossem a mesma pessoa. Mas no se
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pode fugir  lgica dos factos. Da forma em que estes se apresentavam era foroso admiti-lo.
Recorde a agitao repentina e inexplicvel de Mrs. Vandemeyer. Outra prova, se houvesse
necessidade de provas.
Aproveitei a primeira oportunidade para lhe fazer, Miss Tuppence, uma insinuao a esse respeito.
Pelas palavras de Mr. Hersheimmer em Manchester conclu que a senhora compreendera e agira em
conformidade com o que eu insinuara. Depois, empenhei-me em provar que o impossvel era
possvel. Mr. Beresford informou-me por telefone que, tal como eu j desconfiara, a fotografia de
Miss Jane Finn na realidade nunca sara do poder de Mr. Hersheimmer...
Mas Jane interrompeu-o. Colocando-se em p de um salto, gritou furiosamente:
Que  que o senhor est a dizer? Que est tentando sugerir? Que Mr. Brown  Julius? Julius o meu
prprio primo!
No, Miss Finndisse Sir James inesperadamente. No  seu primo. O homem que diz chamarse
Julius Hersheimmer no tem qualquer parentesco com a senhora.
436
XXVI-MR. BROWN
As palavras de Sir James foram como um raio. As duas raparigas olhavam-no com igual assombro.
O advogado aproximou-se da escrivaninha e voltou com um pequeno recorte de jornal que entregou
a Jane. Tuppence leu-o por cima do ombro da companheira. Mr. Carter teria reconhecido o recorte.
Referia-se ao homem misterioso encontrado morto em Nova York.
Como eu dizia a Miss Tuppence recomeou o advogado,empenhei-me em provar que o impossvel
era possvel. O grande obstculo consistia no facto inegvel de que Julius Hersheimmer no era um
nome suposto. Quando encontrei essa notcia no jornal, o problema ficou resolvido. Julius
Hersheimmer veio a descobrir que era primo de Miss Jane. Foi ao Oeste, onde obteve notcias da
parenta e a fotografia para o ajudar na busca. Na noite da sua partida de Nova York, foi assaltado e
assassinado. Vestiram o cadver com velhas roupas e deformaram-lhe o rosto para evitar
identificao. Mr. Brown tomou o lugar de Julius Hersheimmer. Veio imediatamente para a
Inglaterra. Nenhum dos verdadeiros amigos ou ntimos de Hersheimmer o viu antes do embarque
embora na realidade isso pouco importasse, uma vez que a caracterizao era to perfeita. Desde
ento, tem permanecido em estreito contacto com os que juraram captur-lo. Destes, conhece at os
mnimos segredos. Somente uma vez esteve  beira do desastre. Mrs. Vandemeyer conhecia-lhe o
segredo. Nunca lhe passou pela mente que aquele vultoso suborno chegasse a ser oferecido 
mulher. Se no fosse a
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feliz alterao nos planos de Miss Tuppence, a mulher estaria longe do apartamento  hora a que l
chegmos. Ele viu de perto o fim do embuste. Deu um passo desesperado, confiando no facto de se
intitular Julius Hersheimmer para afastar suspeitas. Andou muito perto do xitomas no o conseguiu
de todo.
No posso acreditar murmurou Jane. Pareceu-me to boa pessoa!
O verdadeiro Julius Hersheimmer era com efeito uma boa pessoa! E Mr. Brown  um actor
consumado. Mas pergunte a Miss Tuppence se ela no tinha tambm as suas desconfianas.
Jane, sem dizer palavra, voltou-se para Tuppence. Esta inclinou a cabea afirmativamente.
Eu no queria dizer, Jane sabia que iria mago-la. E, sobretudo, no tinha a certeza. Ainda no
compreendo porque, sendo ele Mr. Brown, nos foi salvar.
Foi Julius Hersheimmer que as ajudou a fugir ? Tuppence narrou a Sir James os excitantes
acontecimentos da noite, concluindo:
Mas no posso compreender porqu!
No pode? Eu posso. E tambm o jovem Beresford, a julgar pela atitude que tomou. Como
derradeira esperana, deviam deixar que Jane Finn fugisse e a fuga deveria dar-se de tal forma que
ela no desconfiasse que se tratava de embuste. No se preocupavam com a presena de
Beresford nas vizinhanas e, se necessrio, no se importariam que ele se comunicasse com a
senhora, Miss Tuppence. Tomariam precaues para o afastar no momento oportuno. Ento,
Julius Hersheimmer surgiu e salvou-as em estilo melodramtico. Soaram tiros mas no
acertaram em ningum. Que aconteceria depois? A senhora iria directamente  casa de Soho
apoderar-se do documento que Miss Finn, com toda a probabilidade, confiaria  guarda do
primo. Ou, se ele dirigisse a busca, fingiria que o esconderijo fora j violado. Teria recursos s
dzias para resolver a situao, mas o resultado seria o mesmo. E acredito que algum acidente
vitimaria
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tanto Miss Tuppence como Miss Jane Finn. Passariam ambas a conhecer segredos demais. Isto  um
esboo tosco. Admito que me apanharam desprevenido; mas houve algum que no o estava.
Tommy disse Tuppence com meiguice.
Sim. Por certo, quando quiseram afast-lo, ele revelou-se mais esperto do que eles. Mesmo assim,
no estou muito tranquilo a respeito do rapaz.
Porqu ?
Porque Julius Hersheimmer  Mr. Brown disse Sir James secamente. E  preciso mais do
que um homem e um revlver para capturar Mr. Brown...
Tuppence empalideceu um pouco.
Que podemos fazer?
Nada, enquanto no formos  casa de Soho. Se Beresford ainda estiver senhor da situao, nada h
que temer. Caso contrrio, o inimigo vir procurar-nos e no nos encontrar desprevenidos! De uma
gaveta da escrivaninha tirou um revlver e colocou-o no bolso do casaco.
Agora, estamos prontos. Acho melhor nem sugerir que eu v sem a senhora, Miss Tuppence...
 melhor, !
Mas sugiro que Miss Finn permanea aqui. Estar em perfeita segurana e deve sentir-se bastante
fatigada com tudo o que aconteceu.
Mas, para surpresa de Tuppence, Jane abanou a cabea.
No. Eu tambm vou. A mim  que os papis foram confiados. Devo levar a cabo a incumbncia.
Estou muito melhor agora.
O automvel de Sir James comeou a rodar. Durante o curto trajecto, o corao de Tuppence batia
tumultuosamente. No obstante os acessos de inquietao por causa de Tommy, era toda exultao.
Alcanariam a vitria!
O automvel encostou  esquina da praa e desceram. Sir James dirigiu-se a um homem  paisana
que ali exercia , vigilncia com vrios outros e falou-lhe. Depois, reuniu-se s jovens.
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Ainda no veio ningum  casa, at agora. H sentinelas nas traseiras, por isso tm a absoluta
certeza. Quem tentar entrar depois de ns ser preso imediatamente. Vamos?
Um polcia puxou de uma chave. Todos conheciam Sir James muito bem. Tambm haviam recebido
ordens com referncia a Tuppence. S no conheciam o terceiro membro do grupo. Entraram os trs
na casa, fechando a porta atrs de si. Lentamente, subiram os frgeis degraus da escada. No topo
via-se a cortina rasgada, ocultando o vo em que Tommy se escondera naquele dia. Tuppence
ouvira a histria dos lbios de Jane, quando esta representava o papel de Annette. Olhou interessada
o veludo em frangalhos. Mesmo agora, ela juraria que o pano se movia como se algum estivesse
ali atrs. To forte era a iluso, que quase podia imaginar o contorno de formas humanas... E se Mr.
BrownJulius estivesse ali  espera...?
Impossvel, era claro! Entretanto, por pouco no voltou para abrir a cortina e convencer-se...
Agora, entravam no quarto-priso. Ali no havia qualquer lugar para algum se esconder pensou
Tuppence com um suspiro de alvio, enquanto ralhava consigo mesma, indignada. No podia agora
dar curso a fantasias tolas quela sensao curiosa e insistente de que Mr. Brown estava na casa...
Racl Rac! Que era aquilo? Passos fortes na escada? Havia algum na casa! Absurdo! Estava a
tornar-se histrica.
Jane fora direita ao quadro de Margarida. Retirou-o da parede com mo firme. A poeira acumulavase
no quadro e teias de aranha estendiam-se entre ele e a parede. Sir James entregou-lhe um
canivete e ela cortou o papel pardo do fundo... Saram as pginas de anncios de uma revista. Jane
segurou-as. Separando as margens coladas, retirou duas folhas de papel escritas!
Desta vez, nada de fraude! O verdadeiro documento!
Conseguimo-lo!disse Tuppence. Por fim...
O momento era de tanta emoo que quase perderam o flego. Ficaram esquecidos os pequenos
estalidos, os rumores
460
imaginados momentos antes. Nenhum deles tinha olhos para mais nada que no fosse o que Jane tinha 
nas
mos.
Sir James segurou os papis e examinou-os atentamente.
Simdisse com calma,  o malfadado projecto de tratado!
Vencemos disse Tuppence. Na sua voz havia medo e quase incredulidade.
Sir James repetiu as palavras da jovem, dobrou com cuidado o papel e introduziu-o no caderno de
apontamentos. Depois, olhou com curiosidade o quarto mal cuidado.
Aqui ficou o seu jovem amigo confinado por tanto tempo, no? disse ele. Um quarto
verdadeiramente sinistro. Observe a ausncia de janelas e a grossura dessa porta sem a mnima frincha. O 
que
acontecesse aqui nunca chegaria ao conhecimento do mundo exterior.
Tuppence estremeceu. As palavras do homem provocaram-lhe um vago alarme. E se algum estivesse
escondido na casa? Algum que podia fechar aquela porta por fora e deix-los morrer como ratos numa
ratoeira ? Depois compreendeu o absurdo de tal ideia. A polcia cercava a casa, e, se no tornassem a sair, 
os
guardas no hesitariam em invadir todos os compartimentos para uma busca meticulosa. Sorriu da sua 
prpria
tolice e depois teve um sobressalto ao descobrir que Sir James a contemplava perscrutadoramente. Fitando 
a
jovem, o advogado sacudiu enfaticamente a cabea.
Muito bem, Miss Tuppence. A senhora pressente o perigo. Eu tambm. E tambm Miss Finn.
Sim admitiu Jane.  absurdo, mas no o posso evitar.
Sir James tornou a balouar a cabea.
A senhora sente como todos ns sentimos a presena de Mr. Brown. Sim ao notar um movimento de
Tuppence, no h dvida nenhuma: Mr. Brown est aqui...
Nesta casa?
Neste quarto... A senhora no compreende? Eu sou Mr. Brown...
Estupefactas, incrdulas, as duas jovens contemplavam-no.
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Todos os traos da fisionomia do homem se haviam alterado, Era um homem diferente que agora se
achava diante delas. Sorria, um sorriso lento e cruel.
Nenhuma das duas sair deste quarto com vida! Miss Tuppence, a senhora acabou de dizer que
vencemos. Eu  que venci! O projecto de tratado  meu. Olhou para Tuppence, alargando o
sorriso. Quer saber o que vai acontecer ? Mais cedo ou mais tarde a polcia arrombar este quarto e
encontrar trs vtimas de Mr. Browntrs, no duas, entendam, mas por felicidade a terceira no estar 
morta,
apenas ferida, e descrever o ataque com riqueza de detalhes! O tratado? Est nas mos de Mr. Brown. 
Assim,
ningum pensar em revistar os bolsos de Sir James Peel Edgerton!
Voltou-se para Jane.
Foi mais astuta do que eu. Confesso-me vencido. Mas no o ser outra vez.
Ouviu-se leve rudo por trs do homem, mas embriagado com o triunfo, no voltou a cabea. Enfiou a mo 
no
bolso.
Golpe de morte aos Jovens Aventureirose lentamente apontou o revlver.
Mas, nesse momento exacto, pulsos de ferro seguraram-no por trs. O revlver foi-lhe arrebatado da mo e 
a
voz de Julius Hersheimmer disse vagarosamente:
Parece que o apanhmos em flagrante.
O sangue subiu ao rosto do advogado, mas, com o seu prodigioso autodomnio, olhou de um para outro dos
seus captores. Contemplou mais demoradamente Tommy.
Vocdisse quase sem flego. Voc! Eu devia ter previsto.
Como no parecia disposto a oferecer resistncia, Tommy e Julius afrouxaram a presso. Rpido como um
relmpago, levou aos lbios a mo esquerda, a mo com o anel simblico...
Ate, Caesar! morituri te salutan disse, ainda fitando Tommy. Depois, as feies alteradas, a tremer
convulsivamente, tombou para a frente, num monto disforme, enquanto um cheiro de amndoas amargas
impregnava o ar.
462
XXVII - UMA CEIA NO SAVOY
A ceia oferecida por Mr. Julius Hersheimmer a reduzido nmero de amigos, na noite de 30, realizou-se em
sala privada e as ordens de Mr. Hersheimmer foram breves e enrgicas. Deu carta branca e quando um
milionrio d carta branca geralmente paga para isso!
No houve acepipe raro que faltasse. Os criados carregavam garrafas de antigos e esplndidos vinhos com
cuidado enternecido. Os ornamentos florais desafiavam as estaes, e milagrosamente, viam-se lado a lado
frutos da terra que se colhem em pocas to diversas como Maio e Novembro. A lista de convidados era
pequena. O embaixador americano; Mr. Carter, que tomou a liberdade, disse ele, de levar em sua 
companhia
um velho amigo, Sir William Beresford; o arcediago Cowley; o dr. Hall; os dois jovens aventureiros, Miss
Prudence Cowley e Mr. Thomas Beresford; e, por ltimo, a convidada de honra, Miss Jane Finn.
Julius no poupou esforos para que o aparecimento de Jane Finn constitusse um acontecimento. Umas
pancadas misteriosas levaram Tuppence  porta do apartamento que partilhava com a jovem americana. 
Era
Julius. Trazia um cheque na mo.
Escute, Tuppence comeou ele quer prestar-me um obsquio ? Tome isto e encarregue-se de vestir Jane 
para
hoje  noite. Vocs viro cear comigo no Savoy. Compreende? No olhe a despesas. Faz-me esse favor?
Pois no disse Tuppence com um trejeito. Vamos divertir-nos! Ser um prazer vestir Jane.  a criatura
mais linda que j vi.
465
De facto concordou Mr. Hersheimmer fervorosamente. Diante de tal fervor, os olhos de Tuppence
cintilaram porum momento.
A propsito, Julius observou a jovem, fingindo seriedade eu... ainda no lhe dei a minha resposta.
Resposta? repetiu Julius. O seu rosto ficou branco.
Sim... quando voc me props casamento balbuciou Tuppence, baixando os olhos pudicamente no
lhe pude dar resposta imediata. Pensei muito no caso e...
E ento? perguntou Julius. Gotas de suor humedeceram-lhe a testa.
De sbito, Tuppence aliviou a tenso.
Idiota! exclamou. Por que cargas de gua resolveu praticar aquela tolice ? Compreendi muito bem
que voc no gostava de mim nem um bocadinho...
No diga isso. Sempre lhe dediqueie ainda dedico os mais altos sentimentos de estima e respeito...
e admirao...
Hum!fez Tuppence.Tais sentimentos bem pouco valem quando surge um outro sentimento! No 
isso, meu caro?
No sei a que se refere disse Julius obstinadamente, com o rosto afogueado.
Ora! replicou Tuppence. Riu-se e fechou a porta, reabrindo-a para acrescentar com dignidade:
Moralmente, sempre julgarei que fui enganada!
Quem era? perguntou Jane quando Tuppence foi ter com ela.
Julius.
Que queria?
Creio que o que de facto queria era v-la, mas no o deixei. S  noite, quando voc deslumbrar os
que a virem como nem Salomo em toda a sua glria... Venha! Vamos fazer compras!
Para a maioria do povo, o dia 29, o to falado Dia dos Trabalhistas, passou como outro qualquer.
Proferiram-se discursos no Park e em Trafalgar Square. Procisses sem rumo,
464
entoando a Bandeira Vermelha, desfilaram pelas ruas, como que sem desgnio definido. Os jornais
que haviam prenunciado uma greve geral e a implantao de um reinado de terror, viram-se
obrigados a esconder e diminuir as suas manchettes. Dentre eles, os mais atrevidos e astutos
procuraram provar que se conseguira a paz porque haviam posto em prtica os seus conselhos. Nos
jornais de domingo apareceu breve nota sobre a morte repentina de Sir James Peei Edgerton, o
famoso advogado. Os de segunda-feira teciam comentrios elogiosos a propsito da carreira do
falecido. As circunstncias exactas em que ocorreu a morte nunca vieram a lume.
Tommy previra com acerto a situao. Era obra de um s homem. Privada do chefe, a organizao
desfez-se em pedaos. Kramenin regressou precipitadamente  Rssia, deixando a Inglaterra no
domingo de manh. A quadrilha fugiu em pnico de Astley Priors, esquecendo, na atrapalhao do
momento, diversos documentos que os comprometiam implacvelmente. De posse dessas provas da
conspirao e demais um pequeno dirio apreendido dos bolsos do morto, contendo uma
incriminadora sinopse de toda a trama, o governo convocara uma conferncia de ltima hora. Os
lderes trabalhistas viram-se forados a reconhecer que tinham agido como testas de ferro. O
governo fez algumas concesses, avidamente aceites. Era a Paz e no a Guerra!
Mas o gabinete sabia muito bem que escapara por um triz do desastre irremedivel. E acudiu 
lembrana de Mr. Carter a estranha cena desenrolada na noite da vspera na casa de Soho.
Penetrara naquele quarto miservel para encontrar ali o grande homem, o amigo de toda a vida,
morto trado pelas suas prprias palavras. Do bolso do morto retirara o malfadado projecto de
tratado que, ali mesmo, na presena dos outros trs, ficou reduzido a cinzas... A Inglaterra estava
salva!
E agora, na noite de 30, numa sala privada do Savoy, Mr. Julius P. Hersheimmer recebia os
convidados.
Mr. Carter foi o primeiro a chegar. Vinha em sua companhia um velho cavalheiro de ar colrico; ao
v-lo,
29 - VAMP. G. 1
465
Tommy corou at  raiz dos cabelos. Caminhou ao seu encontro.
Ah! disse o ancio, contemplando-o, apopltico.
De modo que  o meu sobrinho, no? No parece ser grande coisa, mas realizou um trabalho
portentoso, ao que dizem. Sua me soube cri-lo, apesar de tudo. O que passou, passouno acha?
Saiba que  meu herdeiro; daqui por diante, proponho dar-lhe uma mesada e pode considerar
Chalmer Park como a sua casa.
Muito obrigado;  muita honestidade da sua parte.
Onde est essa jovem de que tanto tenho ouvido falar?
Tommy apresentou Tuppence.
Ah! disse Sir William, contemplando-a. As jovens de hoje j no so o que eram nos meus tempos
de rapaz!
So, sim respondeu Tuppence. Talvez os vestidos sejam diferentes, mas elas em si so as
mesmas.
bom, talvez tenha razo. Eram espertas naquele tempo
e espertas so agora...
 isso disse Tuppence. Pela minha parte, sou uma tremenda espertalhona.
Acredito disse o velho, rindo-se e puxando com bom humor a orelha da rapariga. Em geral, as
jovens ficavam apavoradas diante do urso velho, como lhe chamavam. A vivacidade de
Tuppence encantou o velho misgino.
Depois chegou um tmido arcediago, um pouco embaraado com a sociedade em que se encontrou,
satisfeito por julgarem que a filha se notabilizara, mas no podendo evitar olh-la de quando em
quando cheio de nervosa apreenso. Tuppence, porm, portava-se admiravelmente. Absteve-se de
cruzar as pernas, controlou a lngua e recusou-se com firmeza a fumar.
O dr. Hall chegou em seguida, acompanhado do embaixador americano.
Podemos sentar-nos disse Julius, depois de apresentar os convivas uns aos outros. Tuppence, voc
ali...
Indicou com um gesto o lugar de honra.
Mas Tuppence abanou a cabea.
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Oh, No, esse o lugar de Jane! Quando pensamos em tudo o que ela passou durante estes anos,
devemos torn-la a rainha da festa.
Julius relanceou a Tuppence Um olhar de gratido e Jane encaminhou-se timidamente para o lugar
designado. A beleza que antes revelara nada era em comparao com o realce que agora davam aos
seus encantos os ricos enfeites. Tuppence desempenhou fielmente a incumbncia. O vestido,
adquirido a uma costureira famosa, denominava-se Uma aucena fulva. Cintilava em matizes de
ouro e vermelho de onde emergia, como uma coluna clssica, o pescoo alvo da jovem e as ondas
castanhas da cabeleira que lhe coroava a formosa cabea. Um brilho de admirao assomou a todos
os olhos quando ela se sentou.
Por exigncia unnime, Tommy foi convidado a apresentar explicaes completas e minuciosas.
Sim, voc tem-se mantido muito reservado sobre a histria toda acusou-o Julius. Enganou-me
com a participao de que ia seguir para a Argentina, embora eu julgue que tinha razes para assim
proceder. Doeu-me a barriga de tanto rir com a ideia de voc e Tuppence de que eu era Mr. Brown!
A ideia no foi criao deles disse Mr. Carter com gravidade. Foi-lhes sugerida por um mestre da
arte. A notcia do jornal de Nova York sugeriu o plano ao homem e por meio dela teceu uma teia
em que quase o apanhou fatalmente.
Nunca gostei daquele sujeito disse Julius. Desde o comeo compreendi que havia nele algo de mau
e sempre suspeitei que ele  que calara Mrs. Vandemeyer to a tempo. Mas foi s depois de saber
que a ordem para a execuo de Tommy foi transmitida exactamente depois da nossa entrevista
com o advogado naquele domingo que comecei a convencer-me de que o homem era o chefe.
Eu nunca suspeitei de nada lamentou Tuppence. Sempre me considerei mais inteligente do
que Tommy, mas desta vez ele ganhou-me sem deixar margem a dvidas.
Julius concordou.
467
Desta vez Tommy encheu as medidas! E, em vez de ficar a mudo como uma pedra, ponha a
modstia de lado e conte-nos tudo.
Sim! Sim!
No h nada a contar disse Tommy, bastante desconcertado. Fui um tolo perfeito at ao momento
em que encontrei a fotografia de Annette e compreendi que ela era Jane Finn. Lembrei-me ento
da insistncia com que ela gritara a palavra Marguerite, pensei nos quadros e... bom, j sabe
como foi. Depois, naturalmente, revi o caso todo, para verificar os pontos em que eu fizera papel de
parvo.
Continue disse Mr. Carter, pois que Tommy dera sinais de buscar refgio no silncio.
O caso de Mrs. Vandemeyer deu-me que pensar, quando Julius mo referiu. Parecia-me que
o autor do envenenamento era ou ele ou Sir James. Eu no sabia qual dos dois. O encontro da
fotografia na gaveta, depois da histria de que o inspector Brown dela se apoderara, fez-me
desconfiar de Julius. Lembrei-me ento que fora Sir James quem descobrira a falsa Jane Finn. Em
suma, no conseguia resolver a questo e decidi apenas deix-la em suspenso. Rabisquei um bilhete
para Julius, no caso de que ele fosse Mr, Brown, dizendo que ia partir para a Argentina, deixando
sobre a secretria a carta de Sir James com o oferecimento do emprego, para corroborar as minhas
palavras. Depois escrevi a carta a Mr. Carter e telefonei a Sir James. Demonstrar-lhe
confiana seria o mais acertado e, assim, contei-lhe tudo, excepto o local em que eu julgava que
estivessem ocultos os papis. A maneira como me auxiliou a achar a pista de Tuppence e Annette
quase me desarmou, mas no muito. A minha suspeita ficou sempre de p entre os dois homens.
Depois, ento, recebi um bilhete falso de Tuppence e descobri a verdade!
Mas como?
Tommy tirou do bolso o bilhete em questo e exibiu-o aos presentes.
 a letra dela, perfeita, mas percebi que era falso por causa da assinatura. Ela nunca assinou
Twopence, embora
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essa palavra tenha a mesma pronncia de Tuppence. S quem ignorasse essa particularidade teria
escrito Twopence. Julius no a ignoravaele mostrara-me um bilhete que dela recebeu certa vez;
mas Sir James ignorava-a! com isso, tudo se tornou simples. Mandei por Albert uma carta urgente a
Mr. Carter. Pretendia retirar-me, mas voltei. Quando Julius irrompeu em cena com o seu automvel,
compreendi que isso no fazia parte do plano de Mr. Brown e que provavelmente traria transtornos.
A no ser que Sir James fosse preso em flagrante, por assim dizer, eu sabia que Mr. Carter nunca
acreditaria na minha simples palavra...
E nodeplorou Mr. Carter.
Eis porque mandei as jovens para a casa de Sir James. Estava certo de que iriam ter  casa de Soho,
mais cedo ou mais tarde. Ameacei Julius com o revlver porque queria que Tuppence contasse esse
pormenor a Sir James, de sorte que ele no se preocupasse connosco. No momento em que as duas
saram das nossas vistas, disse a Julius que precisvamos ,vir a Londres a toda a velocidade e,
durante o trajecto, narrei-lhe a histria toda. Chegmos  casa de Soho com tempo de sobra e
encontrmos Mr. Carter no passeio. Depois de combinar providncias com ele, entrei e escondi-me
atrs da velha cortina. Os polcias receberam ordens de dizer, se interrogados, que no havia
ningum na casa. Isto  tudo.
E Tommy calou-se abruptamente. Reinou silncio por momentos.
Por falar nisso disse Julius de sbito vocs esto todos enganados com respeito  fotografia de
Jane. Fiquei sem ela por algum tempo, mas recuperei-a.
Onde ?gritou Tuppence.
Naquele pequeno cofre embutido na parede do quarto de Mrs. Vandemeyer.
Eu sabia que voc encontrara alguma coisa disse Tuppence, em tom de censura. Para falar a
verdade, foi por isso que comecei a suspeitar de si. Porque no me disse?
Eu tambm andava muito desconfiado. Perdera a
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fotografia uma vez e resolvi guardar segredo, ao menos at que um fotgrafo fizesse uma dzia de
cpias...
Todos ns ocultmos qualquer coisa disse Tuppence, pensativa. Acho que no servio secreto 
assim mesmo!
No silncio que se seguiu, Mr. Carter tirou do bolso um pequeno livro de capa castanha.
Beresford acabou de dizer que eu no acreditaria na culpabilidade de Sir James Peel Edgerton, a
no ser que ele fosse apanhado em flagrante. Assim . Na verdade, s depois de ler as palavras
lanadas neste livrinho acreditei plenamente na espantosa verdade. Este livro ficar em poder da
Scotland Yard, mas nunca ser exibido publicamente. O longo contacto de Sir James com leis e
cdigos tornou-o um indesejvel. Mas, para os presentes, que conhecem a verdade, lerei algumas
passagens que lanaro alguma luz sobre a estranha mentalidade do grande homem.
Abriu o livro e voltou as pginas.
... loucura guardar este livro. Bem o sei.  uma prova documental contra mim. Mas nunca me
esquivei a perigos. E sinto urgente necessidade de auto-expresso... O livro s poder ser tirado do
meu cadver...
Desde muito criana compreendi que era dotado de aptides excepcionais. S um tolo sub-estima
o seu valor. A minha capacidade intelectual era muito acima da mediana. Sabia que nascera para
triunfar. Eu era silencioso e insignificante e muito estranho...
...Quando rapaz, assisti ao julgamento de um assassino clebre. Impressionou-me profundamente a
fora e a eloquncia do advogado da defesa. Pela primeira vez ocorreu-me a ideia de exercitar o
meu talento num certo campo de actividade... Ento, examinei o criminoso no banco dos rus... O
homem era um parvo fora de uma estupidez inacreditvel. Mesmo a eloquncia do advogado tinha
pouca probabilidade de o salvar. Senti por ele incomensurvel desprezo... Depois, ocorreu-me que o
nvel mental dos criminosos era baixo. Eram os vagabundos, os fracassados, a escria da
Civilizao os que se lanavam no crime...
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 estranho que os homens inteligentes nunca tenham compreendido as extraordinrias
oportunidades do crime... Ruminei a ideia... Que campo vastssimo, que possibilidades ilimitadas!
O meu esprito embriagou-se...
...Li as obras clssicas sobre crime e criminosos. Todas confirmaram a minha opinio.
Degenerescncia, doena: nunca uma carreira abraada deliberadamente por um homem de viso.
Ento, meditei. Supondo que se realizassem as minhas ambies mais altas que eu me guindasse 
tribuna judiciria e atingisse as culminncias da minha profisso? Que ingressasse na poltica
digamos, mesmo, que me tornasse Primeiro Ministro da Inglaterra? Ento? Seria isso o poder?
Enganado a cada passo pelos meus colegas, contido pelo sistema democrtico de que eu seria mera
figura de proa! No: o poder com que eu sonhava era absoluto! Um autocrata! Um ditador! E esse
poder s o conseguiria trabalhando fora da lei. Jogar com as fraquezas da natureza humana, depois
com a fraqueza das naes organizar e controlar uma vasta organizao e por fim subverter a ordem
vigente e dominar! O pensamento embriagava-me...
...Compreendi que precisava de levar duas vidas. Um homem como eu por fora atrai atenes.
Precisava de fazer uma carreira vitoriosa para mascarar as minhas verdadeiras actividades...
Tambm devia cultivar uma personalidade. Modelei-me por um famoso advogado. Repeti as suas
maneiras, o seu magnetismo. Se resolvesse ser actor, teria sido genial! Nada de disfarces, nada de
tinta gordurosa, nada de barbas postias! Personalidade! Vesti a personalidade como uma luva!
Quando a despia, tornava-me eu mesmo, silencioso,, discreto, um homem como qualquer outro.
Chamava-me Mr. Brown. H centenas de homens que se chamam Brown
- h centenas de homens parecidos comigo...
...Triunfei na minha falsa carreira. Eu estava fadado para o triunfo. Tambm alcanaria a vitria na
outra carreira. Um homem como eu no pode fracassar...
...Li a biografia de Napoleo. Ele e eu temos muita coisa
em comum...
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...Especializei-me na defesa de criminosos. Um homem deve cuidar da sua gente...
...Por uma ou duas vezes tive medo. A primeira vez foi na Itlia. Realizou-se um jantar. O
professor D..., o grande alienista, achava-se presente. A palestra recaiu sobre doenas mentais.
Disse ele: Os grandes homens so loucos e ningum o sabe. Eles prprios o ignoram. No
compreendo porque  que ele olhava para mim ao falar. Um olhar estranho... No gostei...
...A guerra veio perturbar-me... Pensei que me favoreceria os planos. Os Alemes so to
eficientes! O seu sistema de espionagem, era tambm excelente. As ruas encheram-se de rapazes de
uniforme. Pobres toleires de cabea oca... Contudo, no sei... Ganharam a guerra... Isto perturbame...
Os meus planos vo de vento em popa... Uma rapariga intrometeu-seno acredito que ela na
verdade soubesse alguma coisa... Mas liquidmos a Estnia...
...Tudo bem. A pequena  irritante com a tal amnsia. No pode ser fraude. Nenhuma rapariga
poderia enganar-me...
...O dia 29...  muito cedo...
Mr. Carter suspendeu a leitura.
No lerei os detalhes do coup que foi planeado. Mas h dois curtos trechos que se referem a trs
das pessoas presentes. Em vista do que aconteceu, so trechos interessantes:
...Ao induzir a jovem a que me procurasse por sua prpria iniciativa, consegui desarm-la. Mas ela
tem relmpagos de intuio que se podem tornar perigosos...  preciso coloc-la fora do meu
caminho... Nada posso fazer com o americano. Ele tem desconfianas e no gosta de mim. Mas a
minha couraa  inexpugnvel... s vezes, temo haver sub-estimado o outro rapaz. No 
inteligente, mas  difcil fechar-lhe os olhos aos factos...
Mr. Carter fechou o livro.
Um grande homemdisse. Gnio ou loucura, que acham ?
Reinou silncio.
Depois Mr. Carter levantou-se.
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Proponho um brinde. Aos companheiros de faanhas cuja aliana a vitria justificou to
amplamente!
Beberam por entre aclamaes.
H mais uma coisa que precisamos ouvircontinuou Mr. Carter. Olhou para o embaixador
americano. Falo em seu nome, tambm. Pediremos a Miss Jane Finn que nos conte a histria que,
por enquanto, s foi ouvida por Miss Tuppence mas beberemos  sua sade.  sade da mais
destemida das filhas da Amrica, a quem  devida a gratido de dois grandes pases!
Aquele brinde foi extraordinrio, Janedisse Mr. Hersheimmer, quando ele e a prima voltavam no
Rolls-Royce para o Ritz-
O que ergueram aos companheiros de faanhas?
No, o que ergueram em sua homenagem. No h no Mundo outra mulher capaz de fazer o que fez.
Voc  simplesmente maravilhosa!
Jane abanou a cabea.
No me julgo maravilhosa. No ntimo, sinto-me cansada, solitria e saudosa da minha Ptria.
Isto recorda-me o que eu queria dizer. Ouvi o embaixador transmitir-lhe o convite da esposa para
voc ir morar para a embaixada. A ideia no  m, mas tenho outro plano. Jane: eu quero que voc
case comigo! No se assuste nem me responda agora. Est visto que voc no pode de repente
comear a amar-me,  impossvel. Mas eu amo-a desde que os meus olhos caram sobre o seu
retrato e depois que a vi fiquei louco por si! Basta que case comigo: no a incomodarei em nada,
voc levar a vida que quiser. Talvez nunca venha a amar-me e, se tal acontecer, poder abandonarme.
Mas quero ter o direito de cuidar de si.
 justamente o que eu quero disse a jovem ansiosamente. Algum que seja bondoso para comigo.
Oh, no imagina como me sinto sozinha!
Claro que serei bom para consigo. Ento, penso que tudo est combinado e procurarei o arcebispo
para obter uma licena especial para nos casarmos amanh de manh.
-Oh, Julius!
bom, no quero ser precipitado, Jane, mas no h
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vantagem em protelar. No se assuste: no espero que voc me ame desde j.
Mas uma mozinha aninhou-se na mo do rapaz.
Amo-o, Julius disse Jane Finn. Amei-o desde que a bala lhe raspou a face ..
Cinco minutos depois, Jane murmurava suavemente:
No conheo Londres muito bem, Julius, mas  assim to grande a distncia do Savoy ao Ritz ?
Depende do caminho que a gente toma explicou Julius sem corar. Estamos a seguir por Regents
Park!
Oh, Julius... O que no ir pensar o motorista?
com o salrio que lhe pago, acha melhor no ter muitas opinies... Jane, s ofereci a ceia no Savoy
por saber que depois poderia acompanh-la na volta. No vi outro meio de me encontrar consigo a
ss. Voc e Tuppence tm andado juntas como irms siamesas. Se isto durasse mais um dia, acho
que eu e Beresford ficaramos loucos!
Ah, ele est...
, Claro! Est louco de paixo. .
Foi o que eu presumi -disse Jane, pensativa.
Porqu ?
Por tudo o que Tuppence no dizia! Entrementes, os Jovens Aventureiros sentavam-se erectos,
muito rgidos e contrafeitos, num txi que, com uma singular falta de originalidade, tambm voltava
para o Ritz via Regents Park.
Um embarao terrvel parecia ter descido sobre ambos. Sem que percebessem o que acontecera,
parecia-lhes que tudo se modificara. Estavam de lngua atada, paralizados. Toda a antiga
camaraderie se esfumara.
Tuppence no atinava com a frase para quebrar o silncio.
Tommy achava-se igualmente aflito.
Sentavam-se muito empertigados e evitavam olhar um para o outro
Por fim, Tuppence fez um esforo desesperado.
-Muito divertido, no?
Muito.
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Outro silncio.
Gosto de Juliusensaiou Tuppence, mais uma vez. De sbito, Tommy, sentiu-se galvanizado em
vida. Voc no vai casar com ele, ouviu?disse ditatorialmente. Probo-lho.
Oh! exclamou Tuppence com humildade.
1 De modo nenhum! Est a ouvir?
Ele no quer casar comigo na verdade, s por bondade me props casamento.
No  muito provvel zombou Tommy.
 a pura verdade. Est loucamente apaixonado por Jane. Creio que est agora a declarar-se.
E faro um belo par disse Tommy, condescendente.
No acha que ela  linda?
Oh, talvez.
Mas eu acho que voc prefere as inglesas disse Tuppence, afectando indiferena.
Eu... oh, diga tudo, Tuppence! Voc sabe!
Gostei de seu tio, Tommydisse Tuppence, apressando-se a mudar de assunto. E diga-me uma coisa:
que vai fazer voc, aceitar o emprego pblico oferecido por Mr. Carter ou o convite de Julius para
um cargo bem remunerado na Amrica ?
No abandonarei a minha terra, embora a proposta de Julius seja ptima. Acho que voc no se dar
bem seno em Londres.
No sei o que  que eu tenha a ver com isso.
Mas eu sei disse Tommy, positivo. < Tuppence olhou-o de soslaio.
E ainda h a questo do dinheiro observou ela, pensativa.
Que dinheiro?
Ns vamos receber um cheque cada um. Disse-mo Mr. Carter.
No lhe perguntou de quanto ?inquiriu Tommy
com sarcasmo.
Sim disse Tuppence, triunfante. Mas no lhe direi a si.
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Tuppence, voc  impossvel!
Foi divertido, no, Tommy? Espero que tenhamos muitas outras aventuras.
Voc  insacivel, Tuppence. J tive aventuras suficientes para o momento.
bom, fazer compras  quase a mesma coisa disse Tuppence sonhadoramente. Vou comprar
moblias antigas, magnficos tapetes, cortinas de seda em estilo futurista, uma espelhante mesa de
jantar e um div com montanhas de almofadas...
Um momento disse Tommy. Para que  tudo isso?
Para uma casa, se possvel... Mas o mais certo  ser para um apartamento.
Apartamento de quem?
Pensa que eu fao questo de dizer, mas no fao nenhuma... Nosso, pronto!
Querida!exclamou Tommy, apertando-a nos braos. Decidi-me a obrig-la a dizer. E isso por causa
do modo implacvel como voc me fulminava quando eu tentava ser sentimental.
Tuppence ergueu o rosto. O taxi continuava a sua marcha pela ala norte de Regents Park.
Voc ainda no se declarou verdadeiramente observou Tuppence. Ao menos, segundo o que as
nossas avs entendiam por uma declarao. Mas, depois de escutar a incrvel declarao de Julius,
inclino-me a dispens-lo da formalidade.
Voc no pode deixar de casar comigo.
Ser uma pndega! respondeu Tuppence. Do ao casamento toda a sorte de denominaes: um
abrigo, um refgio, uma coroa de glria, um estado de servido e inmeras outras. Mas sabe o que
penso que seja o casamento ?
-Que ?
Um divertimento!
E um divertimento espantosamente bom! disse Tommy.
FIM
